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ARTIGOS

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CIÚME: o que a filosofia pode nos dizer


Aí a pessoa recebe uma ligação, pede licença para atender e você se corrói de curiosidades ou a pessoa tá toda risonha escrevendo no whatsapp e quando você aparece, sai do aplicativo, fica séria, olha para você e fala: “diz!” Ou ainda: tem uma pessoa nova na turma e começa a conversar com seu amigo, aquele de todas as baladas e horas de estudos (porque ninguém é de ferro, né?) e você olha e pensa: “oxe, oxe, oxe, quem é esse otário?”

Tá rindo, né? Pois bem, o que motiva essa reação em todas as situações descritas acima é o ciúme. Quando se trata de ciúme geralmente se trata também de amor, sendo que o ciúme é entendido como prova de amor, como a confirmação que a outra pessoa (objeto de ciúme) é amada, desejada, que não se quer perder. Pois bem, vamos com a filosofia pensar um pouquinho sobre essas perspectivas. O primeiro passo deve ser conceituar, entender o conceito do que pensamos e mesmo sentimos (se é que é possível neste último caso).

O ciúme é uma paixão e você deve se perguntar se paixão não é outra coisa, não é o que sentimos quando queremos muito estar com alguém, desejamos o corpitcho de tal pessoa nu e várias referências a nudez e o que se pode fazer estando nu com alguém. Esse entendimento, bem popular, de paixão, entretanto, é bem recente e muitas vezes diferenciado de amor. Não trataremos aqui dessa aparente(?) (ou real?) separação. Ficaremos no ciúme e o motivo de ser uma paixão.

Para os gregos, paixão é uma força ou uma ação que tem sua origem de fora de nós. Essa força ou ação impede que nós ajamos, criam obstáculos para o que costumamos fazer de maneira tranquila e calma. Estar sujeito às paixões, nesse sentido inicial para os gregos, era estar impossibilitada de agir. As paixões nos perturbam e nos conduzem de maneira contrária à razão que, estaria, assim, no comando de nossos atos. Nessa perspectiva, paixão é algo negativo, que traz problemas, melhor é afastar-se dela, silenciá-la.

Sendo o ciúme uma paixão, isso quer dizer que quando se está tendo um “ataque de ciúmes” o que pode ser entendido é que a pessoa em questão é vítima de uma perturbação em sua alma, de um tremor íntimo que arrasa toda a sua capacidade de agir “como um ser humano normal”. Você já deve ter ouvido de alguém que surtou de ciúme a frase: “eu estava ‘fora’ de mim”. Esse descontrole já produziu dezenas de milhares de vídeos de pessoas passando vergonha em público porque o/a companheiro/a teve um desses ataques.

Aqui vale mencionar o senso comum que atribue às mulheres uma predisposição maior que os homens para sentir ciúmes. Mais uma pérola do pensamento sexista que apaga as manifestações violentas de homens que assassinaram suas companheiras ou ex-companheiras porque acreditaram que ela “estava se ‘oferecendo’” para os ‘caras’ na festa (ou em qualquer situação)” e não aceitaram o fim do relacionamento, respectivamente. Agora tem que ser em maiúscula: HOMENS E MULHERES TÊM A MESMA CAPACIDADE E POSSIBILIDADE DE MATAR POR CAUSA DE CIÚMES, mas quando é um homem que mata, geralmente se diz que foi por amor.

Nesse ponto é fundamental ter em mente que não temos educação sentimental, educação para lidar com as paixões que, como está descrito acima, vêm de fora e nos perturbam a capacidade de agir sob o domínio da razão. O projeto político pedagógico da maior parte (para não falar de todas) das instituições de ensino se ocupa de conhecimentos matemáticos, de química, de física, de biologia, sobre as regiões do planeta, de seus rios, de como viviam os seres humanos em outras épocas e lugares, de forma que temos estudantes que ingressam na vida adulta sabendo usar log de base 10, enumeram as causas da primeira guerra, a mundial mas que não sabem lidar com a panela de pressão que são sentimentos oriundos de paixões como a ira, o medo e o ciúme etc.

Nesse hiato existente, quem desempenha esse papel? Essa pergunta deve ser feita porque há uma educação sentimental vigente e ela atua sobre cada um/a de nós sem restrições. O cancioneiro popular faz esse papel de sensei das emoções, de guia de sentimentos, de farol de afetos. Há um número quase infinito de canções que nos guiam na nossa formação emocional. Tanto é válida essa afirmação que peço para você que está lendo esse texto agora que pare e pense em uma música que você considera a música de sua vida, aquela que deve representar sua história de vida, seus sentimentos.

É muito provável que seja uma “canção de amor”, independente do gênero, paixões como o ciúme estão presentes em várias músicas que foram e ainda são sucesso por todo o território nacional. Algumas são sucesso mundial (ocidental, pelo menos). Não é exagero afirmar que os nossos sentimentos, e como lidamos com eles, foram orientados em grande medida pelo que cantoras, cantores, grupos musicais reproduziram e reproduzem ainda hoje. Continue a leitura e confira alguns exemplos.

Roberto Carlos, aquele do especial clássico de fim de ano, tem uma das mais conhecidas canções sobre a temática, mas que na voz do grupo Raça Negra tem mais sentimento (minha opinião tem sim, tem sim, tem sim!)



Se você demora mais um pouco

Eu fico louco esperando por você
E digo que não me preocupa
Procuro uma desculpa
Mas que todo mundo vê

Que é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você põe aquele seu vestido lindo
E alguém olha pra você
Eu digo que já não gosto dele
Que você não vê que ele
Está ficando "demodê"

Mas é ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Esse telefone que não pára de tocar
Está sempre ocupado quando eu penso em lhe falar
Quero então saber logo quem lhe telefonou
O que disse, o que queria, e o que você falou

Só de ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você
Ciúme de você

Se você me diz que vai sair sozinha
Eu não deixo você ir
Entenda que no meu coração
Tem amor demais, meu bem e essa é a razão

Do meu ciúme
Ciúme de você
Ciúme de você


O rock também tem contribuição nesse processo de educação sentimental, escute e leia a letra de Ciúme, do grupo Ultraje a Rigor:



Eu quero levar

Uma vida moderninha
Deixar minha menininha
Sair sozinha
Não ser machista
E não bancar o possessivo
Ser mais seguro
E não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade

Mas eu me mordo de ciúme

Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa

Sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom
Ter liberdade
E que não há mal nenhum
Em ter outra amizade
E que brigar por isso
É muita crueldade
Hiê! Hiê! Hiê!

Mas eu me mordo de ciúme

Companhia do Calipso também cantou essa paixão em Morrendo de Ciúme:



Ouvi alguém dizendo que você andou falando em mim sem

perceber.
Depois que tomou todas por aí.
Estou sabendo que até chorou.
E quando a gente chora isso é amor.
Por que é que você não que assumir.
Assuma que me ama eu quero ouvir.

Tá, você tá é morrendo de ciúmes.
Porque não deixa logo esse costume de querer enganar
seu coração.
Quer dar uma de difícil.
Eu te conheço.
Depois não quebre a cara pague o preço.
Porque não deixa dessa indecisão.
Você que se matar de solidão.


O tal sertanejo universitário, na voz de Edu Chociay, garante aos ouvidos ávidos por declarações dessa natureza, a música Ciúme:

Sim, assumi que é ciúmes sim

Eu fico tão fora de mim
Tudo é ameaça pra tirar você de mim

Também, tenho medo de ficar sem
De perder quem me faz tão bem
Porém


Você desaba e chora

E eu reflito na hora
O que eu tô causando pra você

Eu vou mudar meu jeito
Curar o meu defeito
Olhando nos seus olhos vou dizer
Me perdoa, é que

É que eu te amo mais
Que a mim mesmo, mas
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes

Eu não quero ninguém
Querendo te querer
Eu só tenho ciúmes
Ciúmes
Ciúmes


Você pode fazer a sua lista de músicas sobre ciúme e analisá-las a partir do que abordaremos aqui. Cuidemos da vida então.

Essa paixão, o ciúme, é ambígua pois tanto pode apresentar valores positivos quanto negativos, ou seja, se considerarmos que quando gostamos de alguém, cuidamos, então temos resultados positivos quando somos tomados por ciúmes. É como se virássemos guardiãs, sempre dispostas/os a manter a pessoa bem, viva, feliz etc.

Porém, meio que por um passe de mágica, quem antes cuidava passa a, digamos, “cuidar demais”. Restringir a liberdade de locomoção, reduzir as companhias, mesmo as mais antigas amizades, anteriores ao próprio relacionamento. Vale lembrar que não se trata apenas de relacionamentos ditos amorosos, mas de qualquer relação entre humanos.

O que pode levar o ciúme a sair do cuidado e passar a ser opressor? Segundo René Descartes, o egoísmo e a insegurança são o ponto de partida de toda relação ciumenta. Quem é ciumento/a carrega em si um desejo de possuir sozinha/o seja a companhia, a conversa ou mesmo a intimidade e a partilha de sentimentos mais profundos. Daí querer monopólio sobre alguns assuntos da vida da pessoa em questão não querendo, assim, que conviva com outros indivíduos.

No que diz respeito à insegurança, a pessoa ciumenta, muitas vezes, não se sente merecedora do amor que recebe, seja de amizades ou da pessoa com quem priva de mais intimidade. Nesse sentido, a pessoa ciumenta se sente “o cocô do cavalo do bandido”, indigna de qualquer consideração. Como esse indivíduo lida com essa percepção? Surtando!

Perturbadora, mas muito válidas, também são as perspectivas de Sigmund Freud, a saber: sente-se ciúme porque se rivaliza com alguém. A pessoa ciumenta sente que está concorrendo com outras no que diz respeito às atenções e amores de quem a acompanha. Até aí parece de boas, mas a questão não é sobre disputa e sim sobre como a pessoa se vê e a importância que atribui a si.

Freud ainda nos oferece a abordagem do ciúme que tem como ponto de partida a projeção do que a pessoa ciumenta sente. Funcionaria assim: quem afirma que a pessoa está “dando bola” para outras, está flertando, paquerando, rolando um “lesco-lesco” na verdade é ela quem deseja isso, quem quer “pular a cerca” é ela. Não conseguindo perceber ou não querendo aceitar esse desejo que há em si, a pessoa aponta para a/o companheira/o. Seria algo do tipo: eu quero, mas não assumo e digo que é minha companhia que quer.

Agora a terceira forma de ciúme impacta de maneira autoexplicativa: quem sente ciúme seria uma pessoa homoafetiva reprimida uma vez que ela é quem deseja o/a outro/a, o indivíduo que rivaliza supostamente com ele. Pensando em relações heteronormativas, seria algo assim: o namorado ciumento teria desejos por outros homens mas nega a si que os sente. A namorada ciumenta, idem. Tá pensando agora sobre isso, né? Há um debate intenso sobre essas possibilidades explicativas e é importante lembrar que são possibilidades e não verdades absolutas ou inquestionáveis.

COMO LIDAR?

O pensamento filosófico não dá receita de bolo, mas indicações para que possamos encontrar as possíveis chaves para uma vida mais consciente, o que não quer dizer uma vida livre de sofrimentos, mas uma vida com mais autonomia até para lidar com o que dói. O ciúme faz sofrer tanto quem tem os ataques quanto quem sofre, quem é “objeto” de ciúme.

Quando o ciúme deixa de ser expressão de cuidado e passa a ser negativo, é fundamental que a pessoa ciumenta aceite que ela pode estar se vendo como alguém sem valor, sem importância. Uma possível saída é atribuir um valor a si que seja equivalente ao que teme perder, ou seja, quando se está seguro de si, seguro sobre quem se é, seguro do valor que tem, há um perigo infinitamente menor de ser tomado pela paixão que é o ciúme.

Isso não quer dizer que não se vai sofrer ou que se está imune às dores causadas por perdas ou abandonos mesmo porque para ser abandonada/o basta ter companhia. A Escola Estoica pode nos ensinar, se permitirmos, que só deveríamos nos ocupar do que depende de nós para acontecer. Quando sentimos ciúmes estamos sob efeitos externos que reduzem, que minguam a nossa capacidade de, conscientemente, tomar decisões racionalmente.

Podemos sentir ciúmes, podemos sim, mas após sentir devemos procurar entender o que essa paixão tem a dizer sobre nós, afinal só controlamos o que nós fazemos. Os atos de outras pessoas (as que afirmamos amar) dizem respeito unicamente ao que as motiva. Negar a paixão do ciúme é não dar um importante passo rumo ao autoconhecimento, mas se deixar tomar pelo ciúme é abrir mão do autodomínio que pode nos garantir autonomia e soberania de si. O que fazer, então? A justa medida originada do autoconhecimento parece ser a melhor resposta.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

ESQUEMA MONSTRO - FALÁCIAS INFORMAIS

Já ouviu algo durante uma discussão com alguém e sentiu que tinha alguma coisa errada ali mas não conseguia identificar? Talvez você esteve diante de uma falácia. Falácias são formas de argumentos que parecem válidas mas, uma vez analisada com mais atenção, pode-se perceber que o que está sendo dito não é, de fato, um bom argumento.

As falácias que você vê no Esquema Monstro são algumas de tipo informal, podem ser caracterizadas pelo uso de “maus” argumentos, que impedem ou dificultam uma percepção efetiva das contradições e mesmo dos erros expostos durante uma apresentação de ideias.

Pode ser muito divertido – e angustiante – observar o mundo ao nosso redor (e nós mesmas) e identificar como usam e como usamos argumentos que não se sustentariam se fossem feitas problematizações. Falácias estão muito presentes em propagandas e discursos políticos, logo, entender como funcionam é fundamental para a autonomia de pensamento.

terça-feira, 10 de julho de 2018

SOBRE A DECEPÇÃO E O QUE A FILOSOFIA PODE NOS DIZER


“Se eu ganhasse um real por cada decepção, ficaria decepcionado em Paris”

“se decepção ensina, já tenho faculdade”

“muita confiança gera decepção”

Se você se identificou com alguma frase dessa, se você já as disse ou compartilhou vários memes da decepção, continue a ler esse texto e não será decepcionado com o que a filosofia pode fazer por você – se você permitir, certo? Então, vamos lá.

Decepcionar-se é sentir-se enganado/a por alguém em quem se confia ou confiou sem reservas. É ser exposta/o a algo sobre alguém que não se esperava que tal pessoa fizesse (ou não fizesse). Em seguida começa a autoflagelação verbal e psíquica seguida do amaldiçoamento do mundo que, obviamente, está totalmente contra você, pessoa boa, boazinha, um anjo angelical (redundante de propósito) que “nunca fez mal a qualquer ser vivo”.

Pois bem, essa atitude pode ter outros nomes: chororô, mimimi, fragilidade emocional ou (inspirando-se na telenovela clássica Chiquititas) coração com buraquinhos – agora começa na sua mente o refrão: “tenho um coração com buraquinhos/e não posso me curar”…

Mas antes que você sinta-se decepcionado/a com esse texto, invoco a autoridade polifônica para me salvaguardar de sua fúria (e decepção): Sêneca, pensador romano, desenvolveu algumas ideias sobre a frustração que nos toma quando não temos nossas expectativas atendidas. Segundo ele, essa sensação de trouxa (termo moderno) que nos invade é oriunda de nossa idealização sobre as pessoas, sobre o mundo que nos cerca e sobre nós e o que acreditamos que somos.

Funciona assim: pensamos que tal ou qual pessoa é aquilo que ela nos expõe ou aquela característica que mais nos atrai e essa atração pode ter relação com o que nos falta ou com o que gostaríamos de ser ou ter em termos de atitude. Buscamos uma espécie de complementação, a tampa da panela, o sapato para o pé podre, a corda para nossa caçamba entre vários termos populares para fazer referência à suposta “alma gêmea” (toca Fábio Jr. agora...)

É aí que está a grande armadilha que armamos para nós: não somos sempre aquela atitude que apresentamos para o mundo, essa atitude é apenas mais uma das nossas máscaras sociais. Não quer dizer que somos marcadas/os pela falsidade, quer dizer apenas que dependendo da situação agiremos de determinadas maneiras, que somos mutáveis, que atendemos às necessidades de sobrevivência de cada situação.

Sim, sobrevivência, porque cada lugar social que ocupamos é marcado por comportamentos que temos que repetir se quisermos continuar sendo aceitas/os nesses lugares. Para além de certo e errado, devemos entender o que ocorre e como acontece.

Assim, se queremos continuar sendo vistas/os como legais, gente boa, mente aberta e outras classificações sociais e cotidianas, buscamos repetir as tais atitudes aprovadas pelas pessoas, pelos grupos, pela sociedade. Assim é que semeia-se a expectativa que germinará na grande decepção - ou decepções, afinal, para se decepcionar basta estar viva/o e convivendo com outras pessoas.

Como as pessoas não conseguimos manter o tempo inteiro a mesma atitude em todas as situações e todos os lugares e com todas as pessoas e com as mesmas pessoas que convivemos, em algum momento a “casa vai cair”, opa, quer dizer, a “máscara”. A suposta queda da máscara vai revelar o que se tentou esconder, pelo menos daquela pessoa (ou pessoas), daquele contexto, enfim. A decepção, então, é fruto de uma rede de expectativas criadas e reproduzidas em escala social, planetária, universal – exagero, mas o exagero ajuda a pensar o que é exagerado.

Pense direitinho: a pessoa te decepcionou ou você esperou demais dela? A pessoa foi mal caráter ou você criou expectativas que não foram supridas por alguém que NÃO TINHA OBRIGAÇÃO ALGUMA COM O QUE VOCÊ GOSTARIA QUE ELA FOSSE OU GOSTARIA QUE ELA FIZESSE?

Está em caps lock para demarcar mesmo, para que possamos pensar na grande rede de expectativas irreais sobre o que não podemos controlar e sobre quem não tem obrigações com o que sentimos. Antes que você pense: então devo agir da maneira que bem entender, não considerar os sentimentos das outras pessoas porque “não são problemas meus, não posso ser culpado/a porque as pessoas acreditam em mim ou me amam?”

Sim, se agir da maneira que bem entender for, antes de tudo, responder aos questionamentos: o que falo está de acordo com o que sinto? O que faço é coerente com o que penso ou com o que quero realmente fazer? Eu gostaria que as outras pessoas no mundo agissem – todas elas – da maneira com a qual agirei? Nesse ponto é crucial a sinceridade consigo pois, muitas vezes, responderemos que sim porque queremos apenas satisfazer nossos desejos.

Para Sêneca, lidar com o sentimento de frustração e fúria que seguem a uma decepção diz respeito a esperar das pessoas apenas o que elas podem, de verdade, nos oferecer. Como saber o que as pessoas podem nos oferecer de verdade? Resposta angustiante: não tem como saber com total certeza. A solução é o que modernamente se chama “manter as expectativas baixas”, “esperar o básico e não o especial com adicionais de fábrica”.

Esperar o humano mas, o que o humano é além de um poço sem fundo de contradições, uma cacimba de paradoxos, uma estrada de conflitos renitentes? Não prestamos muita atenção (na verdade não prestamos nenhuma atenção) nas pessoas de mais idade quando elas nos alertam sobre os perigos da falta de cautela, da crença desprovida de questionamentos, da cegueira inconsciente (?) sobre os “defeitos” das pessoas que amamos (ou acreditamos amar).

Isso não quer dizer não devemos viver a vida com todas as suas possibilidades, quer dizer que devemos aprender com as decepções pois elas são inevitáveis, principalmente quando começamos a caminhar com nossas próprias pernas e a pensar a partir de nossos próprios juízos. Algo que as decepções podem nos ensinar é que só se decepciona quem cria expectativas sobre algo que não pode controlar e entre o que não controlamos estão os pensamentos, os sentimentos, as decisões e as ações das outras pessoas.

Marisa Monte nos presenteou com uma canção que pode ser escutada e lida a partir dessa aceitação do que as pessoas podem nos oferecer:




DEPOIS


Depois de sonhar tantos anos
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também
Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois





Então, as decepções compõem as expectativas generalizadas que são construídas socialmente a partir de papeis sociais que muitas vezes não percebemos que estamos cumprindo. Essas expectativas são irreais, muitas vezes inalcançáveis e uma forma de quebrar esse ciclo vicioso é aceitar que todas/os somos humanas/os em primeiro lugar. Pai, mãe, avó, avô, filha, filho, amigo, amiga, primo, prima etc são papeis sociais nos quais estão atreladas as posições sociais e as expectativas relacionadas com elas.

É simples, mas não é fácil porque o lugar do martírio, do sofrimento causado sempre pelas outras pessoas (malvadas, malvadas, malvadas) é mais cômodo e valorizado. A decepção é irmã do sofrimento por amor, afinal, amar não é sofrer? NÃÃÃÃÃÃÃÃO É NÃÃÃÃÃÃÃO! Mas esse é assunto para Nietzsche em outra postagem.

sábado, 9 de junho de 2018

SOBRE O ENVELHECIMENTO


A canção Envelhecer, de Arnaldo Antunes, entre suas estrofes afirma que

a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer
(...)

Otimismo é uma das características presentes em toda a composição do ex-titã. Ainda que muito válida essa perspectiva, o envelhecimento traz algumas transformações físicas e psíquicas que alteram a qualidade de vida e, por extensão, deveriam receber mais atenção por parte de todo mundo. Essa atenção, porém, deve ultrapassar alguns lugares muito comuns quando trata-se desse assunto. É preciso superar a ideia de “melhor idade”, de “vovô e vovó queridinha” que só vive em função dos netos e netas.

O extremo oposto também deve ser superado: a ideia de que velhinhas e velhinhos são a personificação do mal na terra – principalmente as mulheres idosas, geralmente postas no imaginário como sendo as bruxas que servem ao diabo e, para tanto, enganam, oferecem poções mágicas, enfeitiçam e toda uma ampla gama de artíficios para atingir seus intentos.

Um dos primeiros aspectos a ser considerado é que o envelhecimento é uma uma questão de saúde pública, o que quer dizer que é de interesses coletivo porque tem relação com e afeta vários âmbitos da vida social e, por isso, deve ter atenção do Estado pois idosas e idosos estão em situação de vulnerabilidade, que pode ser definida como a situação em que indivíduos ou grupos têm sua capacidade de autodeterminação reduzida apresentando dificuldades em se autoproteger devido a exiguidade de poder, de cognição, educação, recursos diversos (não apenas materiais), força ou outros aspectos.

Deve ser considerado que a situação de vulnerabilidade não está atrelada apenas aos mais velhos e mais velhas, mas qualquer indivíduo que esteja na situação descrita, o que impede a possibilidade de incorrer em outro estereótipo que é o de velhinhas e velhinhos como sendo o único grupo que pode estar vulnerável.

Retornando ao caso de idosas e idosos, a situação de vulnerabilidade pode ser relacionada a alguns aspectos. Dentre os primeiros está a crescente dificuldade em realizar as atividades mais prosaicas, mais cotidianas. Essa queda gradativa da autodeterminação torna as pessoas idosas mais dependentes de outras, o que faz aparecer um outro problema: quem vai cuidar dessas pessoas? Há alguns anos essa pergunta tinha uma resposta mais simples: alguma das filhas ou a filha que ainda não tivesse casado (a popular solteirona).

Adicione às questões de autodeterminação, um conjunto de situações que contribuem para a incapacitação crônica, como osteoartrite, osteoporose, hipertensão, diabetes mellitus, depressão, entre outras. Quando se trata de envelhecimento, essas situações podem ser classificadas como inevitáveis (ou quase), tornando fundamentais as perspectivas do cuidado e, mais especificamente, do cuidado preventivo.

Mesmo o envelhecimento sendo comum a todas e todos, a população feminina é mais atingida pela situação de vulnerabilidade, uma vez que, além de sofrer pelas incapacitações, ainda sofre com discriminação, violência, trabalho doméstico, dificuldades educacionais e profissionais. Amplifica-se a deterioração tanto física quanto emocional, que passa a ser acompanhada por fragilidades também existenciais, que vão da autoestima passando pela dependência em relações abusivas (muitas vezes familiares) e chegando, em muitas situações, ao abandono propriamente dito e também ao suicídio, antecedido por estados de depressão.

É importante ter em mente que entre as mulheres, o grupo das mulheres negras são atingidas de maneira mais incisiva pelas situações descritas acima, sendo tal condição atrelada ao racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira.

Desses males físicos e psíquicos passamos para as questões propriamente sociais, ligadas à cidadania e ao usufruto de direitos.

DIREITOS E CIDADANIA

Considerando que direitos são garantias jurídicas que devem possibilitar a sobrevivência, para a pessoa idosa esse usufruto é precário para além da medida. A chamada população jovem e em idade produtiva já não usufrui dessas garantias da maneira que deveria e, a partir daí pense como deve ser dificil para uma pessoa idosa se locomover pelas ruas com calçadas altas ou com muitos buracos, pegar uma condução como são os ônibus e metrôs da maior parte das cidades do país são uma experiência física excruciante para as pessoas idosas e que traz muitos sofrimentos. A liberdade de locomoção é restrita e essa restrição vem acompanhada de um processo de invisibilização social, que nega direitos aos que cumpriram com deveres durante toda uma vida.

É importante ter em mente que o trabalho a que nos dedicamos define nossas identidades pessoais e mesmo sociais. Em conversas, quando nos apresentamos, o fazemos a partir de nossos trabalhos: “sou fulana, médica”, “eu sou beltrana, engenheira”. Essa identidade é fundamental na formação e manutenção da autoestima e, quando chega o momento da aposentadoria, do afastamento das atividades as quais uma pessoa se dedicou durante décadas, é como se fosse retirada dela o direito de “ser quem ela é”.

Há um número grande de pesquisas que comprovam que após a aposentadoria muitas pessoas adoecem, entram em estados depressivos e cometem suicídios motivados pelo afastamento de suas atividades. Entretanto, o afastamento das atividades por aposentadoria seria uma espécie de “mal menor”, se levarmos em consideração que mesmo afastadas essas pessoas teriam uma renda – mesmo que não atendendo bem todas as suas necessidades.

A situação torna-se mais problemática quando ocorre a demissão: mesmo com experiência de sobra na atividade a qual se dedicou por muito tempo, a pessoa – agora idosa – não encontra espaço para continuar trabalhando, seja porque houve uma modernização daquela atividade para além do que a pessoa consegue acompanhar, seja porque o mercado de trabalho busca pessoas mais jovens para desempenhar aquela função, principalmente se estiver ligada ao trato com o público. Há vários casos de professores, por exemplo, que foram demitidos, entre outras razões, porque não eram bonitos e jovens.

Há, porém, uma atenção que pode ser classificada como perversa: aquela que tem como interesse a aposentadoria dessas pessoas. Aqui se faz referência aos inúmeros serviços de empréstimos consignados para aposentados e pensionistas. Ramo do mercado que se desenvolveu a partir da percepção de um nicho rentável e com garantias de recebimento, várias são as estratégias para garantir a “realização do sonho e do conforto da ‘boa idade’”. Ligações intermitentes, mensagens de celular, abordagens nas ruas, nas filas de banco quando vão receber seus valores mensais, os mecanismos são quase infinitos.

Uma outra atenção (perversa) reveladora da violação de direitos da pessoa idosa diz respeito à saúde: a rede pública não atende da maneira que deveria e a iniciativa particular chega a ser abusiva ao fornecer planos de saúde a preços elevadíssimos e que trazem, em seu funcionamento, muitas dificuldades para garantir o cuidado e a atenção necessários para a manutenção da vida desses indivíduos. Uma das provas que o abuso ocorre em escalas elevadas é a necessidade da criação de um estatuto do idoso que, para além das questões de serviços públicos de saúde, visa proteger de uma estrutura social que negligencia e violenta o que não é jovem e belo dentro dos padrões socialmente estabelecidos e reproduzidos.

TRABALHO REPRODUTIVO

Aqui se faz necessária a reflexão sobre o trabalho reprodutivo, que é, conceitualmente, o trabalho que assegura a continuidade da vida, ou seja, é uma atividade ligada ao cuidado, sendo o cuidado entendido como as práticas relacionadas ao vestuário, alimentação e higiene. O trabalho reprodutivo foi historicamente atribuído às mulheres mas passou por algumas mudanças, ou melhor, impactos a partir do aumento das reivindicações feministas e, a partir destas, pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho.

Quando o cuidado passa a ser profissão (trabalho reprodutivo), a gratuidade do trabalho doméstico e o fato de ser exclusividade feminina é diretamente atingido, o que leva a outras mudanças que não são o objetivo deste texto.

As pessoas idosas, historicamente, não eram alvo de interesse de mercado, o que passou a mudar e a geriatria passou a ser uma área em franco desenvolvimento no Brasil (com atraso quando se compara com outros países do mundo), o que pode ser identificado no crescimento de agências que oferecem os serviços profissionais de cuidado, o que pode ser visto como algo positivo mas que apresenta o problema do custo/investimento que se deve fazer e que a maior parte da população não tem condições.

Aqui pode ser inserido o papel do Estado no que se refere ao direito à saúde e a uma vida com dignidade: a efetivação de um projeto que prepare a saúde pública para atender a essas demandas que tendem a ficar ainda maiores e não devem ser deixadas aos cuidados livres de regulação de empresas particulares.

Assim, ao pensarmos o envelhecimento, que é inevitável, devemos pensá-lo para além dos estereótipos mencionados no início do texto e abordá-lo pela perspectiva de políticas públicas que agreguem Estado e sociedade civil, ou seja, o envelhecimento é uma questão social importante pois afeta diretamente a produtividade, a prestação de serviços, a saúde pública e, o que deveria ser mais importante, a qualidade da vida humana.

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domingo, 3 de junho de 2018

O corpo e a espetacularização da existência na sociedade do capital


A peça “Esperando Godot” que faz parte do movimento artístico cultural conhecido como Teatro do Absurdo, do dramaturgo Samuel Beckett, apresenta uma abordagem da condição humana que pode ser comparada metaforicamente com a busca constante da adequação ao padrão de beleza socialmente colocado como ideal. Na obra, os dois personagens protagonistas esperam diariamente pela chegada de Godot, que é sempre anunciada para o dia seguinte. A chegada de Godot nunca se concretiza, chegando-se a duvidar da sua existência, mas, mesmo assim, todos continuam esperando por ele. Ironiza-se, dessa forma, a esperança de uma suposta “salvação” que, adiada eternamente, nunca chega.

Assim funciona a busca pelo atual padrão de beleza: a indústria cultural relaciona beleza à felicidade e transforma o padrão do que se entende como belo em mercadoria passível de ser consumida através da aquisição de mercadorias que prometem sempre a concretização desse padrão. Esse padrão, no entanto, nunca pode ser atingido, pois a insatisfação emocional crônica gerada por essa busca é estimulada de forma contínua através dos mecanismos mercadológicos que fabricam a ideia do consumo como necessidade. Sendo o consumo permanente um mecanismo fundamental para atender a necessidade mais básica do capitalismo, ou seja, a acumulação de capital através do lucro, a beleza esperada nunca chega, tornando o indivíduo um consumidor modelo.

Ao perceber essa questão sociologicamente, o corpo passa a ser um veículo para a representação das diversas formas de sociabilidade, refletindo, portanto, a cultura e os valores nos quais a vida social se insere. O corpo é, portanto, a materialização da relação que o indíviduo constrói com a sociedade na qual ele está inserido, na medida em que assume uma dimensão para além dos aspectos biológicos que o formam, passando a ser uma construção social. Como construção social, a formação da consciência acerca do corpo, assim como as formas coletivas de pensar e sentir sobre ele, são históricas, porque mudam no tempo e no espaço.

Considerando o contexto atual das sociedades ocidentais industrializadas, existe uma relação profunda entre a produção cultural e a formação das subjetividades que, potencializada pelo capitalismo avançado, transforma a representação da imagem do corpo em uma mercadoria, que como todas as outras mercadorias, deve ser vendida. Essa relação se dá a partir das redes sociais, uma vez que a veiculação de imagens assumiu para o Capitalismo uma importância tal que determinou a redução das relações humanas, inclusive a própria expressão das identidades, à imagem que é veiculada pelas mídias.

Uma vez que o corpo-imagem é a forma mais evidente de expressão das identidades, ele também passa a ser entendido dentro da lógica mercantil de consumo de aparências. Assim, junto ao conceito de “Indústria Cultural”, a caracterização da “Sociedade do Espetáculo” feita por Guy Debord evidencia a estruturação das relações humanas a partir da imagem espetacularizada em que a publicidade leva ao extremo a fetichização das mercadorias disponíveis para serem consumidas, o corpo sendo uma delas.

A construção da sociedade capitalista como Sociedade do Espetáculo se dá, então, para Debord, pela produção cotidiana de espetáculos aliados com a estrutura produtiva capitalista. Entendido, pois, nessa perspectiva, o espetáculo formulado por Debord funciona como um mecanismo do sistema para garantir a acumulação de capital, de forma condizente com o processo histórico concreto de consolidação do Capitalismo e da sociedade burguesa.

No entanto, avaliando essa questão para além do que Debord pôde prever a partir de seu contexto histórico, a midiatização, mediada pelas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter, etc -  da sociedade atingiu uma complexidade tal que o corpo não apenas assimila a realidade espetacularizada e consome os produtos estéticos, mas se tranforma ele mesmo na própria mercadoria, desenvolvendo-se agora a ideia do corpo-mercadoria no lugar do corpo-imagem.

Com efeito, procura-se “vender” uma autoimagem considerada ideal pela sociedade, através da espetacularização de um corpo que remeta ao que o capital entende como sucesso, o que implica a adequação do corpo a essa ideia, tornando-o mais “comercializável”, como qualquer outra mercadoria. É nesse sentido que se dá a padronização dos corpos considerados belos, haja vista que não se veicula, ou veicula-se muito pouco, a imagem de pessoas fora do padrão de corpo considerado comercializável ocupando posições sociais que, na sociedade capitalista, estão relacionadas ao sucesso, como posições de liderança e postos profissionais de destaque.

Como consequência, constrói-se uma esteriotipação que desconsidera as subjetividades de quem foge ao padrão e, a partir daí, molda os corpos dos indivíduos. Exemplo da espetacularização dessas representações sociais padronizadas do corpo e que tem relações com a política, é a matéria da revista Veja, como se observa na imagem, na qual se constata a construção de um discurso que impõe um padrão não apenas estético, mas também comportamental e político, sobre o corpo feminino.



O que a espetacularização faz é chamar atenção de forma exuberante sobre aquilo que o mercado quer que seja consumido, para tanto, passa  o verniz da beleza, do prestígio e do status, criando uma relação de culto a imagem que é sustentada pelo caráter teatral dos produtos midiáticos. É o que se observa com os perfis fit e de blogueiras no Instagram, que expõem de forma glamourizada e idealizada – ou seja, espetacularizada – ações banais, como refeições e exercícios físicos. A importância está no performático: naquilo que vale mais “likes”, mais seguidores, mais “matches”.

Essa questão é representada pela série distópica Black Mirror, no episódio “Nosedive”, em que as interações sociais e a exibição fetichizada das experiências cotidianas fazem parte de um sistema de avaliação instantânea que gera uma nota para cada pessoa, baseada no número de curtidas e interações virtuais que ela possui, que determinam o prestígio social e até mesmo o acesso a serviços e a determinados espaços físicos. Apesar de a série ser uma representação da realidade, ao refletir sobre os recursos de avaliação que atribuem notas aos indivíduos nos aplicativos de uso cotidiano como o uber e o AirBnB, assim como nossos esforços constantes para conseguir um bom desempenho neles, percebe-se que a realidade proposta pela série não está tão distante da realidade de fato.

Na sociedade pós-moderna o corpo assume o valor simbólico de uma mercadoria fetichizada, espetacularizado e facebooquializado, exposto para ser consumido. E no Império da existência como produto para ser exibido e consumido, o poder espetacular aparece como um desdobramento da expansão comercial inerente ao Capitalismo, disseminando em todas as esferas da vida social as condições para garantir a manutenção da sociedade burguesa. Ao direcionar o olhar sociológico para essa temática, é possível a desconstrução desses padrões culturalmente construídos atráves da desnaturalização da ideia de beleza, na medida em que se entende o processo social que possibilita a sua existência.
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM