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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Do rídiculo ao ódio como política de Estado: por que Bolsonaro?


Pensando em uma proposta do tipo “assista antes de votar”, o episódio da série Black Mirror “The Waldo Moment” estaria, sem dúvidas no topo da lista de sugestões. O olhar distópico que a série propõe lançar sobre a realidade é sempre útil para refletir sobre processos sociais. No episódio em questão, Waldo materializa a ideia de um político herói que, em oposição a figura “sem graça” dos políticos tradicionais, cria um discurso de fácil assimilação que consiste basicamente em atacar de forma agressiva e barulhenta a oposição para em seguida apresentar esse discurso como “humor” e/ou “excesso de sinceridade”. Assim, os ataques misóginos, racistas, homofóbicos, xenófobos e que envolvam todo tipo de discriminação que se possa imaginar, são vendidos como “piadas”, ou como “coragem de falar o que se pensa”. Na série, Waldo não apresenta propostas para nada – é um personagem político “fake”, cuja candidatura visa apenas fins mercadológicos e de entretenimento. No entanto,  o discurso  de Waldo acabado sendo “comprado” por pessoas que, paradoxalmente, se dizem contra políticos tradicionais, que seriam apresentariam uma imagem “fake” de si mesmos para conseguir votos.  A partir da figura de Waldo e da situação contraditória gerada por ele, a série britânica faz uma crítica ao processo de estetização da política, que cria personagens políticos cujas falas e ações são meramente performáticas, ou seja, que criam espetáculos sociais no lugar alternativas políticas reais.



A política é um fenômeno social, e como tal, muda à medida que mudam as sociedades. Na era da espetacularização de basicamente todos os aspectos da vida humana, a estetização da política criticada por Black Mirror se aproxima muito mais da realidade do que de uma distopia. O conceito de “ridículo político”, analisado por Marcia Tiburi, aborda a política a partir da publicitarização que reduziu sua práxis à representação vazia de conteúdo, em que a imagem produzida para ser consumida como mercadoria importa muito mais do que a coerência do discurso produzido. Sobre esse conceito, Tiburi (2017, p. 10) escreve que

As cenas do que chamei de Ridículo Político fazem parte da vida pública e correspondem a uma estetização curiosa da política (ou de uma certa forma de fazer política que se tornou tendencial) que vive da manipulação
da imagem e da produção de inverdades de todo tipo. O que chamei de “esteticamente correto” é o disfarce do ridículo, o esforço para estar na linha do padrão estético, que invade as relações em nível micro e macropolítico. O esteticamente correto se dá em cumplicidade com toda uma cultura de naturalização do ridículo na qual estamos submersos.


Não é difícil perceber as semelhanças entre o conceito filosófico de “Ridículo político” e as ações de Bolsonaro, assim como as do personagem com a personalidade do deputado, que ainda consegue inovar em um aspecto: aparece com soluções simplistas e imediatistas para problemas que ganham rápida repercurssão social, como o problema da segurança pública – ainda que seja, pra dizer o mínimo, incoerente para alguém que passou anos no Congresso Nacional sem apresentar nenhuma proposta viável para todos esses problemas, de repende possuir todas as soluções que irão magicamente resolvê-los. Diante disso tudo, resta entender: o que motiva a escolha Bolsonaro?

A popularidade da figura política de Bolsonaro é baseada em dois aspectos principais: na ostentação de uma fala abertamente favorável a ações violentas, como tortura e assassinato político, e na defesa da repressão absoluta de tudo aquilo que seja desviante do modelo de cidadão branco, heteronormativo, cristão e possuidor de poder aquisitivo. O apelo discursivo de Bolsonaro, portanto, é de cunho moralista. Essa é uma característica importante de se destacar, pois envolve um processo de negação como forma de afirmação. A contradição é apenas aparente, pois, ao negar algo ou alguém, implicitamente aponta-se para si mesmo como o contrário do que foi negado, e é por isso que o apontamento negativo se dá sempre contra o outro, e nunca para si mesmo. Dessa forma, ao apontar o outro como imoral, aponta-se para si mesmo como exemplo de moralidade, pois, nesse raciocínio, a autoridade acusatória só pode ser conferida a quem ocupa a posição “moralmente desejável”, o que leva a percepção de que a primeira motivação para o discurso moralista é o ego. Uma personalidade egocêntrica tende, por sua vez, à rejeição radical de tudo aquilo que diverge de si, seja essa divergência de aspecto ideológico, comportamental, religioso, cultural, etc, o que caracteriza uma postura autoritária.

Como já disse Jessé Sousa, a classe média brasileira, que se autoproclama a representante da moralidade e dos chamados “cidadãos de bem”, usa essa moralidade de maneira convenientemente seletiva fazendo “vista grossa” diante da corrupção dos setores representantes do status quo brasileiro, quando não defendendo essa corrupção seletiva abertamente (quem não se lembra dos cartazes equiparando sonegação de impostos à legítima defesa?). Para o sociólogo, essa legitimação seletiva da corrupção é um reflexo do ódio de classe que esses setores sociais ostentam, ódio esse que está ligado à mentalidade escravista que ainda permanece na sociedade brasileira, até então reprimida e agora exposta viceralmente nas ações e nos discursos, potencialmente ou abertamente, fascistas.

Aqui se volta ao processo de formação da socidade brasileira, marcado por mais permanências do que rupturas com a lógica colonial, e que perpetua até hoje os aspectos mais violentos das “mentalidades Casa Grande”: o desejo de segregação social da “ralé brasileira” (retornando mais uma vez à Jessé Souza para tomar emprestado o conceito criado por ele) e a extensão dessa segregação às estruturas do Estado e do sistema jurídico.

Nesse sentido, é válida a percepção de que as ideologias, entendidas como o conjunto de ideias socialmente construídas que estruturam as formas coletivas de percepção e apreensão do mundo, influenciam a produção de sentimentos – sendo importante ter em mente a diferença entre sentimento e emoção: sentimentos são produtos culturais e estão associados às formas como fomos ensinados a reagir diante das diversas situações que se apresentam no meio coletivo, como ciúme e ódio, enquanto que as emoções existem naturalmente como reações biológicas a situações externas, como se dá quando experimentamos o medo diante de um perigo. Assim, observa-se que predomina no cenário político atual o uso do discurso de ódio como um instrumento de construção do sentimento de ódio, sentimento este que está ligado ao desejo de reprimir e perseguir a oposição, e que é legitimado ideologicamente a partir do discurso da moralidade que normalmente acompanha o dicurso de ódio.

Ao pensar sociologicamente sobre esse processo, é fundamental a compreensão de que as mentalidades e os comportamentos de indivíduos que vivem em sociedade são permeados por relações de poder e que essas relações incluem o poder de criminalizar indivíduos. Ou seja, nas sociedades, a definição de criminalidade não existe naturalmente, mas perpassa o poder de atribuição de status. Status, em sociologia, significa a condição socialmente construída a que o indivíduo se encontra submetido, ou a posição social que ele ocupa, tendo sido esse conceito desenvolvido por Max Weber para analisar como pertencimento social, prestígio e poder se estruturam na sociedade. Assim, a atribuição do status social de criminoso é dada por quem detém, na sociedade, poder. Como consequência, a construção dessa condição social pode servir a interesses específicos dos grupos que detêm o poder para a obtenção de quaisquer objetivos que sejam desejáveis a esses grupos, inclusive objetivos políticos.

É por esse motivo que o apontamento da incoerência, da falta de qualquer tipo de consistência e até mesmo de  mentiras na fala de Bolsonaro não surte nenhum efeito sobre a imensa maioria dos seus eleitores: porque não se trata de política em si, mas de sentimentos. Quando se mostra que o deputado representa muito mais da velha política do que qualquer outra coisa, que passou anos usufruindo do salário e dos benefícios de deputado sem praticamente fazer nada no Congresso, que não apresenta projeto de governo nenhum e que se nega a debater sobre qualquer coisa – deixando óbvio seu despreparo para ocupar não só a presidência da república, mas qualquer cargo político – o que se observa é que tudo isso simplesmente pouco importa para quem apoia o que ele representa. Pouco importa o fato de que Bolsonaro esteve no PP, partido que ocupa o topo da Lava Jato em número de políticos investigados, ou o fato de que ele fale em “bandidos de estimação” quando recebeu dinheiro de propina da JBS através do partido e ainda tenha tentado justificar o ato indagando “qual partido que não recebe proprina?” e  tentou uma aliança política com o PR, partido cujo líder foi condenado pelo envolvimento com o mensalão e que tem vários deputados investigados pela Lava-Jato.

Os fatos não importam porque o que se busca no discurso de ódio não é a verdade, mas a legitimação da violência de quem já tinha o desejo por ela reprimido em si. O que a fala e a própria figura de Bolsonaro representam é a legitimação de todos os racismos, homofobias, machismos, facismos e ódio de classe que, se antes não se mostravam porque “pegava mal”, agora encontram o cenário construído para se mostrar sem o mínimo pudor. A recusa a qualquer pensamento baseado na lógica ou até mesmo no bom senso mais básico se dá porque o discurso de ódio não atinge a racionalidade civilizacional, mas sim os afetos políticos do indivíduo, afetos esses que estão ligados ao desejo de aniquilamento de tudo aquilo que é em algum aspecto desviante do que se considera moralmente aceitável (mesmo quando essa moral é questionável, afinal de contas não estamos tratando de coerência entre ação e discurso, mas de sentimentos reprimidos). Assim, para que o discurso de ódio seja eficiente, é necessário que se evite ao máximo possível o confrontamento com qualquer argumentação minimamente racional.



















Um dos grandes problemas dessa lógica discursiva é que, em regimes políticos autoritários, como os que são elogiosamente defendidos por Bolsonaro, o status social de criminoso pode ser atribuído arbitrariamente à qualquer um que questione de alguma maneira ou que represente de alguma forma um obstáculo para a efetivação dos interesses do poder instituído. Historicamente, regimes autoritários transformam todo discurso de questionamento da ordem em crime e os indivíduos que sustentam esses discursos perdem seu nome, passando a ser chamados de “terroristas”, “bandidos” ou “subversivos”, em um processo de apagamento de qualquer identidade subjetiva para o enquadramento em uma categoria política. A partir daí o que ocorre é o uso sistemático da violência como política de Estado, através da racionalização do processo de repressão e aniquilamento dos chamados “inimigos do Estado”.


Foi esse o processo colocado em prática pela Ditadura Militar brasileira, implantada a partir de 1964. A partir da criação de um poderoso aparato de coleta de informação, o governo militar desenvolveu uma logística de matar pessoas que se mostrou uma das mais eficientes. O funcionamento da tortura e do assassinato como política de Estado envolveu a captação de recursos financeiros fornecidos em boa parte por empresários, a sistematização de métodos de desaparecimentos de mortos políticos, a partir da queima de corpos, da retirada da arcada dentária e de digitais, impossibilitando a identificação, e o desenvolvimento de técnicas de tortura que permitissem infligir a maior dor física e a maior agonia psicológica possível sem matar, de modo a aniquilar qualquer capacidade de resistência da oposição. Ao contrário do que se pensa, a violência da ditadura não se direcionou apenas aos grupos que optaram por recorrer à resistência armada, mas à qualquer indivíduo a quem fosse de interesse do governo militar atribuir o status de inimigo do Estado. Sobretudo durante o processo de colonização - que promoveu a exploração de recursos naturais por empresas privadas em territórios ainda pouco povoados - fez-se necessário o controle e a eliminação de grupos sociais locais das áreas de interesse (áreas para empreendimentos de agropecuária, mineração e corte de madeira). Lilia Moritz Schwarcz (2015, p.463) escreve sobre o “Relatório Figueiredo”, o mais importante documento que relata a ação da ditadura sobre tribos indígenas, que

O resultado é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda a sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas brasileiros por proprietários de terra e por agentes do Estado. Figueiredo fez um trabalho de apuração notável. Incluiu relatos de dezenas de testemunhas, apresentou centenas de documentos e identificou cada uma das violações que encontrou: assassinatos, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Seu relatório denuncia – e comprova – a existência de caçadas humanas com metralhadoras e dinamite atirada de aviões, inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e doações de açúcar misturado a estricnina

Além das populações indígenas, existe uma vasta documentação que comprova a mesma lógica operacional de tortura e genocídio contra sem-terras, mineradores e comunidades ribeirinhas. Vale ressaltar que esses eram indivíduos que não possuíam quaisquer ligações com comunistas ou com grupos de oposição esquerdistas. Esses exemplos demostram a contradição da lógica de “perseguição do inimigo” presente no discurso de Bolsonaro: em sistemas autoritários, quem define quem é o inimigo? O que se observa, portanto, é a construção da ideia de um inimigo que serve aos interesses de quem detém poder.

Partindo desse raciocíonio, levanta-se uma outra questão: em regimes democráticos, discursos pró-ditadura devem ser aceitos, em nome da liberdade de expressão? A liberdade deve ser limitada em um regime que a tem como seu fundamento mais básico? Não existe solução simplista nos processos democráticos, e a resposta para esse impasse não foge a essa regra: sim, as liberdades devem ter limitações em regimes democráticos, e essa resposta não pode ter a pretensão de apresentar uma solução simples para esse problema complexo. Nenhum sistema que tem como fundamento estrutural a garantia de liberdades pode admitir uma liberdade absoluta, pois que o uso dessa liberdade pode, em algum momento, ameaçar a própria democracia e o seu fundamento básico. Em outras palavras, entende-se que a ideia de uma liberdade ilimitada pode – e em algum momento vai, a história não permite discordar –  gerar situações em que as liberdades democráticas podem ameaçar a existência da própria democracia e das liberdades instituídas por ela. As liberdades, pois, devem existir até o limite em que não ameacem a Lei-Maior que estabelece os princípios que permitem a democracia existir enquanto tal.

Nessa perspectiva, pensando a partir das teorias política e ética de Immanuel Kant, filosófo iluminista, percebe-se que, para ele, na organização da vida em sociedade, o indivíduo tem a sua liberdade limitada pela ação reguladora e pelo aparato jurídico do Estado, exercida através das suas instituições, e seria dentro dessas condições que a liberdade individual deveria ser exercida. Kant aponta que cada indivíduo só pode exercer a liberdade que reconhece igualmente a todos os outros, de modo que essa prática é ela mesma uma solução para as contradições da vida em sociedade. Consequentemente, a liberdade é limitada pelas leis civis instituídas a partir do contrato social, não se confundindo, entretanto, com a obediência alienada e inquestionável, mas sim com a possibilidade de reflexão crítica, inclusive da crítica sobre o próprio Estado, desde que em conformidade com o poder normativo democrático. Agir segundo esse princípio seria, do ponto de vista da ética kantiana, uma ação por dever, e este dever ético estaria, por sua vez, fundamentado na garantia da dignidade dos seres racionais que, fazendo uso de sua liberdade, instituem leis a si mesmos.

Percebe-se, a partir daí, que uma outra característica da democracia é a legitimidade do conflito de ideias, isto é, a aceitação da falta de consenso entre grupos que convivem em sociedade. A democracia, portanto, incorpora a negociação dos impasses sociais, de maneira que nenhum grupo possa impor a todos os outros seus desejos, mas que, a partir do diálogo e da negociação, se possa abdicar de algumas das vontades particulares em prol de projetos de sociedade que contemplem a coletividade social. Seria a aplicação de uma lógica próxima da Justa Medida aristotélica do “nem tanto, nem tão pouco”, uma vez que os diversos grupos de indivíduos nem poderiam impor totalmente seus desejos aos demais, nem precisariam abrir mão de absolutamente todos esses desejos em função de outros. Ao observar, portanto, a fala de Bolsonaro de que “minha proposta é defender direitos da maioria e não da minoria. (...) as minorias têm que se calar, se curvar à maioria”, percebe-se que ela reflete uma postura absolutamente antidemocrática. Porque, então, se diz que Bolsonaro defende ideias fascistas? Porque regimes fascistas não admitem a discordância de pensamentos. Nesses regimes, é imposto um conjunto de ideias e um projeto de sociedade que passam a valer como verdades incontestáveis, sendo qualquer divergência reprimida a partir do uso, ou da ameaça de uso, da violência.

Com base nisso tudo, a conclusão é a de que em qualquer sociedade que se pretenda verdadeiramente democrática, não pode haver espaço para o discurso pró-ditadura, para o discurso que fala abertamente em quebra das regras democráticas, em “metralhar” a oposição política e em reprimir minorias sociais. A escolha ou a recusa à Bolsonaro, portanto, vai muito além da recusa ou escolha de um partido político, trata-se do modelo de sociedade que as consciências individuais desejam. Resta apenas a sua reflexão, leitor que chegou até o final desse texto, sobre qual lado sua consciência está e, muito mais do que isso: qual o preço que você está disposto a pagar pela sua escolha – ou pela sua recusa?
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Thais Almeida, graduanda de História e monitora do curso Pense Fora da Caixa - Filosofia e Sociologia para o ENEM

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

"É A DEMO, DEMO A DEMO, É A DEMOCRACIA" - contra o "mimimi" pós eleição

Desde o final das eleições o suposto engajamento político virtual feicebuquiano foi amansado. Algumas amizades foram refeitas e outras continuam afastadas devido ao processo eleitoral que quase destruiu famílias inteiras.

Mas esse amansamento não quer dizer que a "política" saiu das redes, mas que reduziu sua presença ou sua gana. Agora o que mais se vê é uma espécie de indireta (semi direta) temperada com sarcasmo. Algo do tipo: "cadê o pessoal que votou na Dilma?" "Ué, não é essa a esquerda do voto crítico? Quero ver agora que ela tá nomeando fulano, ciclano , beltrano, deuterano etc."

Essas afirmações em nada contribuem para a vida política e, por extensão, democrática. A prática política é marcada por contradições que são parte da própria existência humana. O princípio da cidadania ativa é a continuidade, é a renitência na busca pela ampliação de direitos, cumprimento de deveres e uma espécie de combate tanto para evitar supostos avanços e retrocessos (dependendo de quem reivindica pode ser um ou outro).

Esse "mimimi" ferino em nada contribui para a melhoria das condições de vida da maior parte da população. É como se fosse a indignação de quem não sabe lidar com a frustração por não conseguir o que queria ou mesmo por não conseguir lidar com o que diverge de sua visão de mundo, sua cosmovisão.

O fundamento da vida democrática é o conflito - de interesses e necessidades. A negociação e o conflito são parte de legítima democracia. Isso não quer dizer que devemos aceitar o que para nós é colocado por quem elegemos. É exatamente o oposto disso inclusive para quem não escolhemos para nos representar.

Logo, escutemos Tom Zé e sua canção DEMOCRACIA, que aborda em termos bem interessantes esse regime em suas "dores e delícias".

pense FORA DA CAIXA






Democracia
Tom Zé

Democracia que me engana
na gana que tenho dela
cigana ela se revela, aiê;
democracia que anda nua
atua quando me ouso
amua quando repouso.

É o demo o demo a demó
é a democracia
é o demo o demo a demó
é a democracia.

Democracia, me abraça
com tua graça me atira
desfaz esta covardia, aiê;
democracia não me fere
mira aqui no meio
atira no meu receio.

Democracia que escorrega
na regra não se pendura
na trégua não se segura, aiô;
democracia pois me fere
e atira-me bem no meio
daquilo que mais eu mais receio.

Democracia, não me deixe
sou peixe que fora d'água
se queixa, morre de mágoa, aiê;
democracia não se dita
maldita seja se dura,
palpita pela doçura.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

DILMA, AÉCIO, O POVO BRASILEIRO & EU

 Professor, o senhor não vai votar em Dilma, não, né?

Professor, o senhor é comunista, é?

Professor, o senhor é anarquista? Defende os black blocs?

Vixi, professor! O senhor é desses que querem que todo mundo seja pobre, é?

Essas perguntas e outras muito parecidas fazem parte do cotidiano de professoras/es de História, Filosofia, Sociologia, Geografia ou de qualquer professor/a que demonstre algum engajamento com questões sociais.

Como estamos em período eleitoral é aí que a situação fica mais tensa. As conversas políticas – sobre políticas – tomam conta da sala de professoras/es chegando até as salas de aula. Um prato cheio para pesquisas sócio-antropológicas devido aos posicionamentos mais contraditórios, incoerentes, divergentes e, por que não dizer, bizarros de quem, em teoria, deveria contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico de dezenas de estudantes.

Um entendimento equivocado do que escreveu Paulo Freire leva muitxs professorxs a doutrinarem suas turmas afirmando que tal ou qual candidata/o é o melhor para o país. Por mais ansioso que esteja, por mais preocupado que me sinta em relação ao futuro do Brasil, não tenho o direito de forçar minhas turmas a verem o mundo da maneira que eu vejo.

Tenho a obrigação de expor para as turmas as possibilidades de posicionamento político, devo lhes garantir contato com a  instrumentação teórica para problematizar a realidade social e DESNATURALIZAR raciocínios que contribuem para a manutenção de desigualdades.

É válido considerar que muitos países considerados por muitas pessoas deste Brasil como exemplos a serem seguidos tem políticas públicas de transferência de renda como as que estão sendo ampliadas pelos governos do PT, sendo estas inclusive vistas com bons olhos lá fora.

Por determinadas classes sociais e grupos de mídia é que há ações de depreciação ao que está sendo implementado. Não é novidade: há alguns anos, Brizola enfrentou oposição ferrenha desses grupos e ele também era respeitado “no estrangeiro”.

Algumas críticas repetem a cantilena de que o Brasil parou de crescer, que a inflação está fora de controle. Usando o raciocínio que aplico em sala de aula me pergunto quantas dessas pessoas sabe exatamente de que crescimento econômico se está falando, como ele afeta a vida delas e uma, bem importante: quantas sabem O QUE É INFLAÇÃO?

Algumas afirmam que a economia vai mal, mas eu pergunto: como pode ir tão mal uma economia que garantiu que o Risco Brasil (explicando: é o nível de risco de investimentos no país por parte “do estrangeiro”) caísse de 1446, em 2002, para 224 em 2013?

Vamos aos bancos: o Banco do João, da Maria, do Antonio e do Pedro – do Brasil teve rendimento de dois bilhões de reais em 2002 e, ano passado, de 15,8 bilhões de reais. E o banco dos poupançudos, a Caixa, em 2002 teve lucro de 1,1 bilhão de reais e, ano passado, foram 6,7 bilhões de reais de lucro.

Lei básica do liberalismo clássico, aquele de Adam Smith, oferta e procura: em 2002 foram produzidos 1,8 milhões de veículos. Ano passado: 3,7 milhões de motorizados. Se há produção é porque há demanda.

Mas você poderá dizer que tá difícil a vida do empresariado nacional, então, sobre falências: FHC – 25.587, Lula e Dilma – 5.795, em média.

Decidi expor esses dados não mencionam as questões sociais. O motivo: esse texto está direcionado para a população que não é rica (os chamados pobres de direita ou pobres conservadores), pois anseiam serem ricos e desprezam a própria condição.

O governo do PT não foi socialista, nem foi comunista. Aplicou elementos de capitalismo que os dados mostram. Não apresento argumentos emocionais, apresento dados com o objetivo de reduzir as argumentações em favor de Aécio porque a economia vai mal, tem muita empresa falindo etc, etc.

Mas você pode querer tratar das políticas públicas e abordar os problemas que os programas assistenciais tem. Ok, vamos lá: políticas públicas existem para colocar em funcionamento o que a Constituição estabelece, pois, o fato de estar no texto da Carta Magna que o governo deve garantir saúde, educação de qualidade não quer dizer que estas serão implementadas. É aí que são elaboradas as políticas públicas, para se fazer cumprir a Lei.

São perfeitas? Não, mas a política é o campo do que sempre está em construção. Querer que políticas públicas sejam perfeitas é uma ingenuidade. E parte dessa ingenuidade foi embora quando vieram ao conhecimento público o mensalão e outras denúncias de corrupção. O PT decepcionou, sim, mas a causa é maior que qualquer partido.

Muitas pessoas que apoiavam ou militavam pelo PT saíram do partido – com todo direito – e se transformaram em antipetistas viscerais, chegando ao ponto de apoiar Aécio e cia limitada. Têm todo direito disso, mas me incomoda identificar pouca maturidade política para lidar com essa frustração.

A causa é maior que qualquer partido. Lembro que quando foram denunciados os crimes de Stálin ocorreu uma grande saída de membros do Partido Comunista, incluindo grande nomes da literatura e da política brasileira. Marighella, que foi assassinado durante o regime civil-militar, afirmou que deveriam os socialistas ficarem e reformarem o Partido e não abandonarem a causa – que não é uma ou duas pessoas, muito menos um partido.

Sigo essa postura de Marighella. E é por segui-la que escolho Dilma, porque o projeto que ela deu continuidade é o que mais realizou as mudanças sociais que eram necessárias para a vida de centenas de pessoas. O grupo de Aécio, historicamente, não teve essa sensibilidade.

Pense FORA DA CAIXA.


SONHAR - Tom Zé




Sonhar o pão
Toda a manhã
E ser aquele que mastiga
Sonhar o gosto
Do alimento
Se misturando na saliva
Aquele aroma
Que a gente sente
Pó de café na água quente
Sonhar escola
Senhor São Bento
Sonhar o tal discernimento
Sonhar a besta
Que em seu fastio
A fúria do começo viu
Sonhar o fogo
Do quilarão
Que veio do ainda-não
Gratia plena
Vida terrena
O céu aqui a gente pare
Filii tui
Na via crucis
Per mare nostrum navigare
Iê iô
Ié quá foguê
Sonhar a porta
Da esperança
O entra e sai da vizinhança
Sonhar o curso
Do marinheiro
Que viajou o mundo inteiro
Sonhar a lenda
Por cuja fenda
Sabedoria nos assalta
Sonhar o mito
Que em todo o rito
O filho ao parricídio ata
Iê, iô
Ié quá foguê (Bis)
De San Juãããã
ão dá dó de

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

MÍDIA E AGENDAMENTO DO QUE SE FALA E PENSA SOBRE POLÍTICA E POLÍTICAS/OS

Em recentes exibições, o jornal nacional da rede Globo de televisão entrevistou as candidatas e os candidatos ao cargo de presidente da república tupiniquim e o que chamou atenção logo de início foi a virulência do posicionamento de seu apresentador Willian, o Bonner.

Com ataques celebrados por muitas/os telespectadoras/es, pudemos ver constrangimentos de várias ordens. Ele, o Bonner, pontuou desde obras ampliadoras de valor de terras, passando por nepotismo e questionamento da eficiência em escolher "pessoas certas" para cargos de confiança.

Palmas! (ecoaram de vários locais do país) e vaias também (de pessoas que lidam com jornalismo com alguma seriedade).

É fundamental que se procure pensar acerca desse posicionamento aparentemente justiceiro e correto do telejornal - e, por extensão, da emissora.

O que seria mais produtivo politicamente seria o direcionamento da suposta entrevista para a apresentação dos projetos de cada concorrente. Se era para intervir na fala que fosse para pedir a quem fala que parasse de "vender o peixe" falando de si ou do que antecessores abruptamente tirados do pleito fizeram.

A exposição detalhada dos planos de governo ampliaria a percepção acerca da/o candidata/o.

"Esfregar" na cara que houve corrupção, nepotismo, valorização de terras familiares em nada contribui para mudanças efetivas na política, apenas reforça a ideia de que a política nacional é território de pessoas mais interessadas em suplantar o interesse público pela satisfação das necessidades particulares.

Assim, posturas "justiceiras", supostamente defensoras dos interesses da nação podem ser entendidas mais como um posicionamento que objetiva alçar a imprensa como legítima defensora da moralidade na política, afinal, quando necessário ela "colocou o dedo na cara" de corruptas/os.

Programas de TV como o CQC, da rede Bandeirantes, a do Tas, contribuem tanto quanto a postura do William, o Bonner para agendar a sociedade no fortalecimento da postura contrária a qualquer política, inclusive a partidária (principalmente esta).

É uma forma simples de pensar, mas difícil de se levar em conta: se efetivamente todas as pessoas envolvidas em política fossem desonestas, mal teríamos avançado em pontos básicos da vida social.

Tanto o telejornal, o nacional, quanto o pseudo-jornalístico-humorístico CQC contribuiriam muito mais para a sociedade se "remassem contra a maré" e mostrassem para suas audiências que há pessoas honestas para quem a política é o que pode garantir mudanças, para além do interesse particular.

Contribuiria inclusive para a formação de muitas/os colegas de profissão que, por vários motivos, acreditam piamente que telejornais, determinadas revistas ditas de informação são propagadoras de verdades.

E aos estudantes, bem, para estas/es, ainda haveria possibilidades de formação crítica para além da crítica por criticar.

Logo abaixo você pode assistir ao esquete da cia de comédia Os Melhores do Mundo que trata de política e eleições. Pode ser ferramenta interessante para rever alguns raciocínios.

Pense FORA DA CAIXA.




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A PIADA DA ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA ou A POLÍTICA DE TODOS OS DIAS E O SEU VOTO


Estamos todos cobertos de política até o pescoço. E não é por causa período eleitoral,  mas porque a política real se constitui a partir de todas as discussões, debates, lutas e decisões que se desenrolam todos os dias, nas quais estamos envolvidos querendo ou não. O momento eleitoral é só mais uma parte do processo e deve relacionar-se de maneira coerente com o restante, do contrário todos os belos discursos são apenas falas vazias construídas por publicitários, comunicadores e especialistas em campanha que sabem exatamente o que fazer para vender uma ideia, seja ela uma proposta infundada ou um novo modelo de celular que faz o mesmo que o anterior, mas promete ser melhor. 
            O grande problema de consagrar a eleição como momento máximo da democracia é estimular o esquecimento do processo restante, como o acompanhamento dos atos dos representantes eleitos ou as possibilidades de ação direta do povo, que existem e são poderosas mesmo na democracia representativa. As chamadas que ressaltam um "vem pra urna" ou um "democracia se faz nas eleições" reduzem  de maneira significativa as possibilidade de mudança, pois o eleitor tem as suas opções limitadas a três ou quatro candidatos que cantam trechos diferentes de uma mesma música.
            Uma boa escolha eleitoral não é feita assistindo ao horário político gratuito ou a entrevistas pseudojornalísticas, pois as regras do horário eleitoral não dão condição de concorrência igualitária e as danosas entrevistas servem mais para alimentar os egos dos apresentadores do que para explicar à população o que significam as políticas pretendidas e como serão realizados os milagres agendados para o primeiro ano de mandato. A escolha também deve considerar quem dá sustentação financeira para cada campanha, não se pode esperar que cada um dos milhõezinhos liberados tenha saído de casa sem data pra voltar.
            Essas incoerências sobre a política brasileira, mas não só brasileira, não querem dizer que não há alternativas e não devem motivar o brado coletivo de que "são todos uns ladrões e corruptos", pelo fato de que este brado é inútil. Acreditar que não tem jeito só é válido pra quem lucra com a situação atual. Há opções, mas elas passam despercebidas, enquanto a maioria da população decide entre o menos pior.
            Antes de alimentar a certeza de que são todos péssimos ou que são todos iguais, cabe perguntar se conhecemos realmente todas elas e todos eles. Se tivemos o trabalho de pesquisar detalhadamente quem são, o que querem, com quem se relacionam e no que acreditam, aí sim podemos dizer que escolhemos, do contrário aquele voto de cabresto estudado nos livros de história só se modificou, se moralizou e arrumou um jeito de nos fazer acreditar que escolhemos livremente.

Simone Pessoaé jornalista e odeia ter que contar piadas sem graça, mas como a sociedade pede sátiras para suas contradições e aberrações cotidianas, ela se dedica a este trabalho sujo.



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