Pensar com a sociologia (bauman) implica observar o mundo ao redor e atravessar o olhar para além do que a vista alcança. É aplicar conceitos sociológicos para desnaturalizar e estranhar a aparente ordem social.
Uma forma de pensar o racismo é através do conceito de estrutura social. O Esquema Monstro mostra isso: de uma definição de estrutura social e os fatores que a compõem podemos entender como o racismo é estrutural na sociedade brasileira, o que serve para ampliar as possibilidades de intervenção, uma vez que se deixa de lado o racismo como forma de exclusão social praticada por indivíduos mas sim como parte de uma estrutura que se fundamenta nessa forma de exclusão cujos indivíduos são agentes de reprodução de algo maior e histórico.
Há
uma grande dificuldade (provavelmente da maior parte das pessoas) de
pensar algumas questões no Brasil e uma delas é a persistência do
racismo. Já se sabe que raças humanas não existem mas ainda se
hierarquiza seres humanos a partir de sua aparência, de suas ideias
e crenças (ou não crenças). O corpo humano é usado como
referencial para definir quem é “mais humano”, quem é
considerado mais capacitado, quem tem direito de viver e quem não
tem. Pensando “nesta terra descoberta por Cabral” (para mencionar
a música do Juca Chaves – se você não conhece, procure conhecer
pois ele deu importante contribuição para a história da república
brasileira), esses direitos todos estão praticamente garantidos em
sua plenitude se, entre outros aspectos, a pessoa não tiver um teor
elevado de melanina.
Talvez
você tenha pensado: “pronto, começou o ‘mimimi”, a
vitimização, vai escrever sobre o quanto é difícil ser
afrodescendente (porque nem de negro mais se pode chamar), o quanto
sofreu e sofre por ter a pele escura e o cabelo crespo!” CALMA,
JOVEM! Eu escrevo e peço que não abandone esta leitura, ela
provavelmente pode te ajudar a compreender inclusive essa reação
que muitas pessoas têm quando se menciona essa palavrinha com “r”.
Para tanto, vamos pensar a partir de conceitos sociológicos, afinal
esta é uma página que objetiva divulgar a possibilidade de se
pensar o mundo a partir de conceitos que muitas vezes não conhecemos
mas que podem nos ajudar a nos entender e também ao mundo em que
estamos inseridos e inseridas.
ALGUNS
CONCEITOS
O
termo raça diz respeito às qualidades que são atribuídas a
indivíduos e grupos tendo como fundamento as características
físicas, como, por exemplo, a cor da pele. Na história da
humanidade sempre aconteceram essas distinções entre grupos
sociais, mas o fundamento aparentemente científico só foi aplicado
pelos fins do século XVIII e começo do século XIX. Essa aplicação
pseudocientífica foi crucial para a dominação imperialista de
nações como Grã-Bretanha, França e outras.
Racismo,
conceitualmente, passa a ser a predominância das características
físicas para compreensão das diferenças entre os indivíduos e
grupos. Em termos práticos seria algo como afirmar que uma pessoa
corre mais rápido ou tem dificuldades de aprendizado porque ela é
negra ou branca. É atribuir ao que é físico algo que pode ser
desenvolvido com investimentos, prática e disciplina. Um exemplo
dessa perspectiva é quando se afirma que os quenianos se destacam em
corridas porque “é do povo africano essa capacidade de correr”.
Ou ainda: “parece uma coisa que faz com que negros se destaquem no
futebol (Brasil) e no basquete (EUA).
Em
ambas as situações, vale pensar se quenianos se destacam na
corrida, pessoas negras se destacam no futebol e no basquete porque
os seus corpos são “melhores preparados” para essas atividades
ou se não temos aqui situações em que o custo para realizar tais
atividades é bem menor do que estudar para ser físico nuclear,
engenheiro espacial ou mesmo médica/o. Seria importante também ter
em mente que, em muitas situações, usufruir de educação básica
de qualidade já é uma grande possibilidade. Assim, não há nada de
físico, biologicamente definido, geneticamente preparado que
explique, sem controvérsias, o destaque de algumas pessoas, de
alguns grupos em relação a outros.
Os
grupos humanos são diferentes entre si porque indivíduos são
diferentes entre si. O que se relaciona diretamente com o racismo é
a desigualdade. A desigualdade é oriunda da atribuição de
hierarquias ao que é diferente. Pensando em termos práticos: olhos
azuis são diferentes de olhos castanhos e o juízo de fato pararia
por aí se não fossem estabelecidas posições de inferioridade e
superioridade: olhos azuis são mais bonitos do que olhos castanhos
ou vice-versa. Agora pense nas peles humanas. Peles com mais melanina
são diferentes de peles com menos melanina. Até aí, nenhum
problema, nada de novo sob o sol.
Pessoas
com peles escuras são inferiores em relação a pessoas com peles
claras – estabelece-se, assim, a hierarquia. Pessoas de pele escura
são inferiores e, por isso, não têm direito a usarem os mesmos
banheiros que pessoas de pele clara e, como historicamente temos
exemplos, devem ser reduzidas à condição de escravizadas para,
assim, purgarem o pecado ancestral definido no livro sacralizado de
uma religião ocidental originada no Oriente Médio.
Esse
estabelecimento de um lugar social é o que pode ser conceituado como
status. O lugar social de um
indivíduo em uma sociedade pode ser atribuído ou pode ser
adquirido. O primeiro caso é quando o indivíduo
é colocado naquela posição, ele não escolheu estar ali ou mesmo
se esforçou para isso. Exemplo simples: você é filho/a de seu pai,
neto/a de seus avós, primo/a de seus primos e não escolheu nenhuma
dessas pessoas para fazer parte de sua vida e nem elas a você. No
momento de seu nascimento, a você foi atribuída essa posição e a
essas pessoas também.
Ampliemos:
quando você se depara com pessoas e acredita que essas pessoas podem
representar um perigo para a sua segurança, você ATRIBUI um lugar
social, você atribui um status
a essa pessoa. O que te faz atribuir essa posição pode variar. Pode
ser a roupa, a “cara” do indivíduo, o “jeito” (algo difícil
de conceituar) mas, muitas vezes, essa “cara”, esse “jeito”
tem a ver com a pele e a quantidade de melanina que ela carrega.
Um
pouco mais: frases como “você
não tem cara de médica”, “quem te vê nem diz que sabe tanto”
ou, ainda, o conjunto de reações diante de pessoas que dirigem
determinado modelo de carro ou moram em determinado bairro e são
abordadas com alguma truculência ao som de perguntas como: “de
quem é esse carro?”, “tá circulando por aqui pois tá querendo
roubar?” são exemplos de status
atribuídos aos indivíduos e que, nessas situações citadas, tem a
ver com cor da pele.
Talvez
você diga: mas acontece com qualquer pessoa, pessoas negras não são
privilegiadas porque essas situações acontecem com pessoas pobres,
mal vestidas independente da cor da pele. CORRETO. Mas considere que
as chances de acontecer são maiores com pessoas negras porque há
uma atribuição de lugar de inferioridade a pessoas afrodescendentes
de maneira quase imediata.
E
O RACISMO ÀS AVESSAS?
É comum encontrar
e até se falar que sofreu de racismo por ser branco/a. Geralmente
esse raciocínio vem acompanhado de seu primo, a heterofobia. Não
será abordada aqui a questão da heterofobia, mas o desenvolvimento
das ideias é análoga, pode ser usada como ponto de partida.
Comecemos
por entender que o racismo na sociedade brasileira não é uma
questão de pessoas racistas, mas sim de uma estrutura racista. Para
entendermos melhor, vamos partir do conceito de estrutura social, que
diz
respeito à forma como uma sociedade se organiza por
meio de relações
complexas e com
alguma continuidade no tempo e espaço. A estrutura social brasileira
está assentada historicamente na atribuição de posições de
inferioridade não só a pessoas negras mas também às expressões
culturais, religiosas afrodescendentes.
Exemplo:
se alguém afirma ser membro de candomblé, umbanda ou participar de
qualquer manifestação de religiosidade de matriz africana, a chance
de se ouvir um “vixi” é muito grande. Quando uma pessoa negra
não raspa o cabelo ou, no caso feminino, não alisa para conseguir o
penteado mais parecido com a da mocinha da novela (que geralmente é
de pele clara) pode-se ouvir comentários do tipo: “que revolta é
essa?”, “por que você não alisa o cabelo pra ficar bonita?”.
Lembra do que foi escrito acima sobre status
atribuído? Pronto, não se atribui beleza à aparência de pessoas
negras ou legitimidade, direito de existir às expressões religiosas
de matriz africana.
Isso
quer dizer que há uma situação de inferioridade ao
que se relaciona à população negra, é a estrutura da sociedade
que é racista e que está baseada em ideias que compõem as formas
coletivas de pensar, de sentir e de agir. No mercado de trabalho,
muitas vezes, um/a candidato/a não é aceito/a em vaga disputada
porque é negra a sua pele, ainda que não seja explicitada essa
razão. Pense nas vezes em que você julgou alguém incapaz de fazer
alguma coisa. Essa pessoa era negra? Se sim, questione-se a razão
dessa atribuição de lugar de inferioridade.
Não
há, conceitualmente, racismo contra pessoas brancas porque o mundo
ocidental não inferioriza pessoas porque elas têm a pele clara. Há
pouquíssimas piadas de pessoas brancas, os cabelos crespos são
colocados como fantasias para o carnaval enquanto os cabelos lisos
têm grande valor de venda. São esses elementos cotidianos que
definem o racismo como estrutural e não como caso isolado, de alguém
que discrimina e ofende. A discriminação e a ofensa são parte da
formação da identidade nacional. Mas, você pode afirmar que existe
racismo contra brancos/as, entretanto, sociologicamente, o conceito
não dá conta da realidade social.
Como
se pode combater esse mal? Uma possibilidade é a ação conjunta
entre educação e legalidade. Educando as pessoas para a diversidade
e punindo os crimes motivados por questões “raciais”. Mas a
primeira atitude contra esse racismo estrutural que compõe a
sociedade brasileira deve ser aceitar o/a racista que há em cada
um/a de nós e quando alguém nos acusar de racismo, antes de
respondermos com “eu não sou racista”, “como posso ser racista
se tenho amigos negros, se namorei pessoas negras?”, pergunte: Por
que você está me dizendo que sou racista? Dê
oportunidade a si mesmo/a de descobrir a ignorância que há em si e
que, na maior parte das vezes, não queremos reconhecer que existe.
Pensar o racismo, e especificamente o racismo antinegro, é
compreender as estruturas que promovem e sustentam a manutenção e reprodução de
uma visão de mundo discriminatória, que atribue uma posição social de
inferioridade a uma população tendo como ponto de partida a origem étnica, a
cor da pele, a fibra do cabelo e as criações culturais.
Racismo antinegro (ou qualquer outra visão de mundo
inferiorizante) não é essencial. O que isso quer dizer? Que não se nasce
racista, machista, homofóbico e nem respeitador ou respeitadora das diferenças,
porque tanto uma atitude quanto a outra são parte do processo de socialização
que é iniciado quando se nasce e é afirmado durante toda a vida das pessoas.
Assim, durante a vida somos educadas, de maneira implícita,
a inferiorizar pessoas a partir de características ligadas a expressões
afro-brasileiras. Quando alguém é acusado de racismo, deve levar em
consideração, antes de reagir negando que seja, que foi educado em um processo
de socialização que inferiorizou – e inferioriza – pessoas de um grupo étnico
inteiro e a maior parte das suas formas de estar e viver e que assim como essas
estruturas foram construídas, precisam ser desconstruídas social e
culturalmente.
A maneira como uma
sociedade se diverte é também como essa sociedade se vê. Muitas
tensões sociais podem ser identificadas em momentos festivos. O
carnaval pode ser um laboratório dos mais instigantes e reveladores
das formas brasileiras de lidar com questões específicas, como
classe, gênero, etnia etc.
Pensemos nas
fantasias: homens “viram” mulheres, mulheres “viram” homens,
crianças são fantasiadas como adultos/as e assim,
carnavalescamente, se vai. Ao pensar nas fantasias, quem nunca viu ou
mesmo se fantasiou com perucas estilo “black power”? Ou ainda com
dreadlocks? Ou mesmo filás com as cores verde, vermelha e amarela?
Pois é, muitas pessoas. Mas vale aqui pensar um pouco além sobre
essas fantasias, mesmo porque elas colocam como elemento festivo
(zombeteiro às vezes) uma pessoa, o cabelo que ela ostenta, aspectos de seu corpo.
O que se quer dizer
aqui é que muito dificilmente se vê cabelos lisos como adereços,
fantasias para o carnaval. Mas se vê cabelos lisos sendo vendidos e
comprados a preços elevadíssimos, sendo inclusive postados anúncios
e cartazes comunicando: “compramos cabelos humanos”. É aqui que
podemos inserir uma chave de leitura e de entendimento: cabelos de
pessoas negras são para fantasias, para festas e cabelos lisos, não. Estes, ao serem vendidos e comprados, aparecem com mais valor agregado do que outros tipos, outras fibras.
Sendo consciência
coletiva o conjunto de crenças e sentimentos que compõem a visão
de mundo da média da população de uma sociedade, então o uso de
cabelos estilo “black power” como fantasia demonstra a maneira da
nossa sociedade enxergar a população afrodescendente. É colocada
em um local hierarquicamente inferior, não humano, digno, muitas
vezes, de piada, de risos.
Tranças afro presas
em filás, dreadlocks, perucas estilo “black power” sendo
vendidas como fantasias demonstram o lugar de coisa que a população
negra tem no imaginário brasileiro, na consciência coletiva de
muitos setores do país. A discriminação acontece muitas vezes de
maneira explicita, mas é de forma implícita que ela é construída
com mais solidez.
Sendo a educação
um processo que ocorre em parceria com o processo de socialização,
então estamos o tempo inteiro sob processos educacionais que nos
direcionam o olhar e os sentimentos sobre o mundo e as pessoas que
estão ao redor. Essa chave de leitura e entendimento que tem como
ponto de partida as fantasias de carnaval pode ser estendida para
filmes, seriados, telenovelas e vários produtos culturais.
Não cabe aqui
afirmar de imediato que é verdade ou não, mas pensar sobre a
situação: quando ter a pele clara, o cabelo liso, os olhos verdes
ou azuis é motivo de piada ou mesmo é fantasia? E mesmo que isso
aconteça, esses casos confirmam o que a consciência coletiva é, ou
seja, o que a maior parte das pessoas pensa sobre si e sobre
outras/os e, nesse caso, a população afrodescendente ainda é colocada em posição de subalternidade no imaginário coletivo.
A "NÊGA" DO JORNAL, EMICIDA E O EMPODERAMENTO QUE INCOMODA
Essa semana as redes sociais foram tomadas (mais uma vez) pela repercussão do racismo do vizinho, que xingou a apresentadora do jornal - o nacional, da globo - a rede.
O caso oferece mais um (de novo) exemplo do racismo que compõe a nossa sociedade, que compõe cada um de nós. Mas o racismo que foi para as redes sociais é só a culminância daquele que está em todas as relações cotidianas, desde as de trabalho, passando pelas televisivas e, principalmente nas amigáveis da mesa de bar, das festas, das rodas de conversa, das piadas contadas e sorridas.
Uma forma de entender os comentários racistas (além do óbvio racismo) diz respeito a um processo maior: o de empoderamento da população negra. Comecemos entendendo o que é empoderamento.
Empoderar pode ser entendido como fortalecer e, se formos estender, assumir o poder. Muitos grupos que historicamente não participavam de maneira tão ativa da vida política e mesmo cotidiana estão cada vez mais nas ruas e também nas instituições da política "oficial".
Mas também estão "aparecendo", indo além. Aqui a referência é para a população negra. Ao usar o termo "aparecendo" faz-se referência visual mesmo: é cada vez maior o número de pessoas que "assumem" o cabelo crespo, que deixam de lado as chapinhas, os alisamentos.
Ao fazerem isso trazem para si os olhares que não estão acostumados, os aperreios (culturalmente adquiridos) de verem, isso mesmo, VEREM negros e negras.
E com o aumento do poder financeiro de parte da população negra, além do acesso aos cursos universitários, temos profissionais muito competentes em cargos que antes era-lhes vedada a participação, "incomodando" quem sempre teve a possibilidade de ter acesso àqueles espaços.
Há uma espécie de "outrofobia" cada vez maior, cada vez mais praticada. Esse temor do/a outro/a é temor de mudança e nesse caso da Maria Julia Coutinho é o que se pode identificar.
Se formos pensar em um quadro mais apocalíptico ainda (para esses seres outrofóbicos, racistas) teríamos um temor de uma reação efetiva da população que está nas periferias, favelas, amargando as mazelas da humanidade turbinadas pelo sistema econômico.
"Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço"
Trecho do recente clipe de Emicida nos dá um exemplo dessa possibilidade. Possibilidade temerosamente real - para os/as odiadores/as.
Boa Esperança
Emicida
Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão!
Bomba relógio prestes a estourar
O tempero do mar foi lágrima de preto
Papo reto como esqueletos de outro dialeto
Só desafeto, vida de inseto, imundo
Indenização? Fama de vagabundo
Nação sem teto, Angola, Keto, Congo, Soweto
A cor de Eto'o, maioria nos gueto
Monstro sequestro, capta-tês, rapta
Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis
Tipo campos de concentração, prantos em vão
Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta (ou não)
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu – extinção
Depressão no convés
Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois
Pique Jack-ass, mistério tipo lago Ness
Sério és, tema da faculdade em que não pode por os pés
Vocês sabem, eu sei
Que até Bin Laden é made in USA
Tempo doido onde a KKK, veste Obey (é quente memo)
Pode olhar num falei?
Aê, nessa equação, chata, polícia mata – Plow!
Médico salva? Não!
Por quê? Cor de ladrão
Desacato, invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
Meu sangue na mão dos radical cristão
Transcendental questão, não choca opinião
Silêncio e cara no chão, conhece?
Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece
Vence o Datena com luto e audiência
Cura, baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era Cyber, cêis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual burkina faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo Moisés e os Hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(Cê é loco meu!)
No veneno igual água e sódio (vai, vai, vai)
Vai vendo sem custódio
Aguarde cenas no próximo episódio
Cês diz que nosso pau é grande
Espera até ver nosso ódio
Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão
Bomba relógio prestes a estourar
Como visto em outras postagens, é fundamental, quando se está estudando História para o ENEM, que se busque identificar MUDANÇAS e PERMANÊNCIAS, SEMELHANÇAS e DIFERENÇAS entre um mesmo tema em diferentes tempos e espaços e no mesmo espaço em tempos diferentes.
Um tema rico para tal reflexão é o RACISMO. Pode-se entender o racismo como a prática de exclusão, de alguém ou de um grupo, justificada pela crença na existência de raças humanas e na hierarquização entre elas. No Brasil essa prática está muito ligada às populações afro-brasileiras.
É importante que se tenha em mente que o racismo se manifesta de maneiras explícitas e também de maneiras implícitas. As explícitas são auto explicativas mas as implícitas geralmente são vistas como "coisa da cabeça da/o negra/o" ou exagero.
Podemos chamar de "racismo simbólico" aquele que se reproduz sem que seja notado de maneira imediata e quando é exposto causa reações de incredulidade.
Vamos testar?
SE Jesus fosse negro, você (se você acredita nele) o amaria da mesma forma que afirma amar?
Se você, de início, reagiu pensando que Jesus nunca poderia ser negro, pense no motivo dessa reação e considere a localização geográfica dos acontecimentos. Poderia não ter a pele negra mas, muito provavelmente, não teria aquela pele tão clara como se vê em dezenas de filmes sobre a vida dele;
Este é apenas um exemplo de como o racismo pode tomar formas quase invisíveis.
Essa canção, SE JESUS FOSSE UM HOMEM DE COR, traz uma possibilidade de reflexão a partir da DESNATURALIZAÇÃO e do ESTRANHAMENTO, fundamentais para o desenvolvimento das outras habilidades e competências para a prova do ENEM.
Se Jesus fosse um homem de cor
GLORIA, GLORIA ALELUIA
O MEU CRISTO NÃO TEM COR
GLÓRIA, GLÓRIA ALELUIA
GLÓRIA, GLÓRIA, PAZ E AMOR
talvez ninguém tenha pensado o que pensei
durante a noite que passou
ou se pensou, ficou calado pra não ver
o mundo inteiro reagir
a minha fé não modifica e nem se abala
mas eu não posso me calar
minha pergunta necessita uma resposta
será que alguém me pode dar?
Você teria por ele esse mesmo amor
se jesus fosse um homem de cor?
GLORIA, GLORIA ALELUIA
O MEU CRISTO NÃO TEM COR...
talvez ninguém tenha passado o que eu passei
que os meus problemas são de cor
eu quis pintar o meu céu azul de amor e paz
e o mundo inteiro não deixou
a minha fé não modifica e nem se abala
mas eu não posso me calar
minha pergunta necessita uma resposta
será que alguém me pode dar?
O ato do jogador Daniel Alves, ao
ter lançada contra ele uma banana durante partida de futebol, gerou reações bem
dicotômicas e repercussões maiores ainda do que, talvez, ele esperasse. O
jogador Neymar, que até algumas semanas não se afirmava afrodescendente com uma
equipe de publicitários, iniciou uma campanha na qual ele, com uma banana,
afirma que “somos todos macacos”. Ganhou a rede.
Em tempos de comunicação global,
essa atitude repercutiu em escala de dez e as redes sociais foram inundadas por
imagens que vão de políticos a artistas, singelamente se afirmando macacos e
deglutindo a polissêmica fruta. O apresentador Luciano Huck, mais rápido do que
veloz, aderiu a campanha e lançou, em apoio a esta, camisas com a frase
afirmativa e a imagem de uma banana que, não consegui até agora entender, é
preta.
De início tive vontade de reagir
contra a campanha, mas me segurei pois muito da minha reação estaria ligada ao
passado de depreciações que sofri ao ser comparado com nossos parentes
próximos, os macacos. E não eram comparações positivas como a que essa campanha
supostamente parece promover. Depois de muito observar as reações, decidi
escrever algumas considerações que não se querem fechadas, mas que fazem parte
de minhas reflexões sobre o acontecido e partem de autores que estudei e,
claro, de minha experiência de vida afrodescendente.
1. NÃO SOMOS MACACOS. Essa Darwin já afirmara há algumas muitas
décadas e já naquela época não se quis ser macaco inclusive porque se afirmava
pejorativamente semelhança com negrxs africanxs. Essa afirmação pós jogo de
futebol parece boa, mas precisa ser problematizada, o que nos leva até a
próxima consideração:
2. NEGRXS E MACACXS SÃO ESTIGMAS. Para ampliar a reflexão,
definamos o que é estigma: é a relação que se estabelece entre determinado
atributo e estereótipos. Estigma, de maneira bem simplificada, é uma marca que
tem sentido específico para quem a carrega e para quem a vê. No caso específico
do Brasil, ter a pele escura, o nariz largo, os lábios carnudos, o cabelo
carapinha são estigmas, são marcas que são vistas por maior parte da sociedade
como algo depreciativo.
Essa afirmação se comprova em
várias situações do cotidiano:
a) quem tem pele escura tem mais
chances de ser revistado em “baculejos” policiais;
b) quem tem cabelo
carapinha/pixaim é pejorativamente taxado de “pessoa de cabelo ruim”;
c) quem tem nariz largo é
definido como “nariz de negro” ou “venta de porrote”;
Em suma, estes são exemplos de
como o que se mostra atributo da população afrodescendente é adjetivado como
coisa ruim, depreciativa.
Referir-se a alguém
afrodescendente como “macaco” é prova histórica desse racismo que constituiu a
sociedade brasileira e ainda está presente ainda que as ideias de Darwin já
tenha provado que não somos macacos.
3. POR QUE A CAMPANHA PODE SE MOSTRAR MAIS NEGATIVA QUE POSITIVA PARA A
POPULAÇÃO AFRODESCENDENTE: considerando o que foi afirmado acima acerca de
estigma e relação atributo físico – estereótipo, pense na seguinte situação:
Vemos fotos correndo soltas nas
redes sociais de pessoas com a fruta polissêmica, a banana, certo? Pois bem,
vemos muitas pessoas de pele clara com a fruta e afirmando que são macacos e,
muito provavelmente, pensamos: “caramba, que campanha legal”, “racismo é uma
m*****!” (algumas pessoas reagirão contra a campanha, como realmente
aconteceu).
Agora pense na seguinte situação:
vemos a imagem de uma pessoa de pele escura com uma banana e o que vem a mente?
Não fique acanhadx se você pensou: “doido, é um macaco!”, “parece mesmo um
macaco!” É esse o ponto que quero atingir: no imaginário da imensa maioria (pra
ser redundante mesmo), ainda se mantém a imagem dx negrx como macacx e a
campanha, ainda que bem intencionada (reservo-me o direito de ser crente), de
imediato vai ativar o estigma secularmente reafirmado acerca da população afrodescendente.
Ainda que se afirme que será feita, assim, a desconstrução, sabe-se que
mudanças no imaginário de um povo não acontecem de uma hora para outra e muito
menos nesse mundo da “modernidade líquida” (para usar o termo do polonês pop).
A sociedade estabelece, historicamente,
os atributos que considera naturais a determinados grupos, ou seja, naturaliza
desigualdades, estereótipos. Talvez você afirme que é exagero, então vejamos
outra situação:
Aparecem fotos de pessoas de pele
clara com os cabelos pintados das mais diversas cores. O que geralmente se
pensa é: “olha, pessoas descoladas!”, “olha, que estilosas!”. Agora pense nas
mesmas fotos, cabelos coloridos, peles escuras... possíveis reações: “vixi! Só podia ser
negrx!” “só faz isso para chamar atenção, é negrx!”. Antes que você afirme que
mais exagero ainda, lembre que recentemente o jornal Diário de Pernambuco fez
reportagem sobre jovens de periferia que pintavam o cabelo e, por coincidência
social, eram jovens negrxs. Muitos comentários depreciativos foram feitos.
Essa é a linha de raciocínio que
torna problemática a campanha de afirmação primata: os resultados serão (se
existirem) pouco contundentes na luta contra o racismo.
4. A CAMPANHA PODE ESVAZIAR O RACISMO AO MOSTRAR O RISÍVEL DE TAIS
ATITUDES: a partir da atitude do jogador e da reação em cadeia pelos cantos
do país, pode-se conseguir aquilo que era um dos objetivos iniciais da comédia:
levar a reflexão a partir do escárnio, da “tiração de onda”. Seria algo do
tipo, mostrar o quão estúpida é a prática racista através de ações “mais
estúpidas” ainda.
ATENÇÃO: não me oponho à luta
contra o racismo, mas como professor de história/sociologia tenho o dever com
minha profissão de pensar sobre o que o mundo me oferece, de DISCORDAR de tudo
que for naturalizado e aja contra a dignidade humana.
Mais uma vez: essas considerações
não foram escritas para serem eternas e nem inquestionáveis. Mas são fruto de
minha reflexão e experiência de ser humano, negro em um país composto por
pessoas que sempre conhecem racistas, mas nunca são racistas – pois racista é
sempre @ outr@.
As recentes notícias acerca
de discriminações ligadas ao cabelo estilo black power chamam atenção pela
violência com que atingem os mais indefesos: as crianças e jovens. Quando uso o
termo indefeso entenda no sentido de maior dificuldade de reação perante
atitudes que atingem diretamente uma parte de seu corpo que nasceu com essa
criança, que nasceu com essxs jovens.
A partir dos acontecimentos e suas repercussões, vale pensar
acerca de alguns pontos:
1. NÃO COMEÇOU A
ACONTECER AGORA. Essas discriminações acontecem há décadas no Brasil e
noutros locais que tenham população afrodescendente. O que está acontecendo
agora é a denúncia, é a exposição desses casos na mídia. Pode-se concluir, a
partir daí, que as famílias dessas crianças estão um pouco mais conscientes da
violência que é “solicitar” que seus filhos e filhas cortem ou alisem seus
cabelos, pois não estão dentro do padrão veiculado, porque geram “distração”,
mas que é imposto pela ideologia dominante;
2. NÃO, NÓS NEGROS
NÃO SOMOS RACISTAS CONOSCO.Presente em qualquer situação que envolva
denúncia de racismo, a afirmação que somos racistas conosco é carregada de
discurso que culpabiliza a vítima pelo crime que sofreu.
Pense na seguinte situação: desde a mais tenra idade você
escuta que ter a pele clara é sinônimo de incompetência, de desastre, de muitas
coisas ruins. Você vai querer ser parte do que a sociedade considera escória? O
motivo das piadas pela clareza de sua pele ou pelo alisado de seu cabelo? Provavelmente
não, pois não queremos ser relacionados a coisas ruins.
Se você entendeu o que está escrito acima, faça o seguinte
exercício: substitua a pele clara pela negra e você vai compreender as razões
de comentários racistas oriundos de negrxs contra negrxs e, POR FAVOR, PARE DE NOS
CULPAR POR UM RACISMO QUE NOS FOI INCUTIDO DESDE A INFÂNCIA PELOS GRUPOS QUE
CRIAM E MANTEM A IDEOLOGIA RACISTA EM NOSSA SOCIEDADE;
3. NÃO É A CRIANÇA
QUE TEM QUE CORTAR O CABELO, SÃO XS PROFESSORXS e COLEGXS QUE TÊM QUE CORTAR O
PRECONCEITO. No caso da estudante estadunidense foi solicitado que ela
cortasse o cabelo, pois estava sendo uma “distração” para xs colegas da classe.
Interessante salientar que a solicitação foi feita após a mãe da jovem ter
reclamado das agressões verbais que a filha estava sofrendo devido ao estilo
capilar.
Acompanhe o raciocínio:
Então, as outras crianças agridem verbalmente minha filha
pelo cabelo dela, eu, enquanto pai, vou cobrar atitude da escola (instituição que,
em teoria, deveria educar) e a solução é cortar o cabelo da minha filha ao
invés de educar xs colegxs de classe para que respeitem a colega delxs?
Ampliemos o raciocínio:
a. Se temos idosxs sendo atropelados ao atravessarem a rua,
proibamos xs idosxs de atravessá-la ao invés de colocarmos uma faixa de pedestres
ou um semáforo;
b. se tenho meu telefone roubado enquanto falo com alguém, a
culpa é minha: quem mandou usar o telefone comprado com o suor de meu trabalho
em um mundo marcado pela violência. É o pensamento de muita gente ao invés de
pensar no modelo de produção de bens e ampliador da desigualdade social além de
incentivador de consumo de produtos que muitos não podem adquirir;
c. uma criança é atraída por um pedófilo e por ele é
atacada. Vamos proibir as crianças de brincarem nas praças, praias, parques ou
mesmo de usarem computadores ao invés de elaborarmos ações contra a pedofilia e
mesmo revermos a sensualização infantil precoce que toma conta de programas de
TV, comerciais, telenovelas, filmes, canções;
Se você achou esses raciocínios acima exagerados, é
exatamente esse exagero que está sendo aplicado no caso dessas crianças e
jovens com cabelo black power. “Solicita-se” que elas cortem/alisem o cabelo ao
invés de educar para a diferença e para o combate a desigualdade.
Mais do que isso: para elas é passada a responsabilidade por
uma situação de preconceito e racismo que se quer fazer passar como “regras da
escola para evitar a distração”. Analisando pelo viés do processo histórico da
sociedade brasileira, é parte do “jeitinho brasileiro” aplicado às questões
étnicas: não digo que foi racismo, mas envergo o olhar para o discriminado e o
faço crer que ele é o responsável pela visão enviesada que eu tenho dele.
No momento em que esses acontecimentos aparecem com mais frequência
nas mídias, deve-se alegrar e indignar ao mesmo tempo, pois é uma prova de que
não se aceitam mais as repressões em silêncio e se indignar por elas ainda
acontecerem.
Mais do que alegrar e indignar, devemos, TODXS agir contra
discriminações de qualquer natureza, etnia, tipo capilar. Não é fácil, mas é
simples: começa não acatando em silêncio.