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ARTIGOS

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quinta-feira, 15 de maio de 2014

"VOU ALI ROUBAR A INSINUANTE": CONSIDERAÇÕES SOBRE A GREVE EM RECIFE


Após a deflagração de greve da polícia militar, seguiram-se cenas de saques, violências e reações que lembraram os mais clássicos filmes de distopias, de mundos em decadência, de perigo para tudo e todos. Nesse momento é invocado tal qual um pokémon, o pensador Thomas Hobbes e sua ideia de estado de natureza e a clássica e muito repetida frase: o homem é o lobo do homem.

ORDEM! ORDEM! ORDEM! Grita-se aos quatro ventos feicebuquianos (das janelas de lares “amedrontados”, que é bem fora de moda, mas ainda em voga, também) para garantir a segurança e ... a propriedade.

Sai de casa para vender aulas e fui testemunha do que estava acontecendo em vários lugares – considerando que tive que arrodear a cidade para chegar em casa devido ao fato de muitas pessoas, ao mesmo tempo, terem a mesma ideia que eu: em casa é mais seguro.

A partir do que vi, penso ser interessante considerar alguns pontos:

1. A RESPONSABILIDADE (culpa, não... é simplório demais) PELOS SAQUES NÃO É DA PM. Não foram os PM’s que saquearam, foram algumas (muitas, não todas) pessoas que, sem o aparelho repressor do Estado (olha, Althusser sendo invocado também) agiram e saquearam lojas, supermercados e afins;

2. O ESTADO (o governador o representa) TEM MAIOR PARCELA DE RESPONSABILIDADE PELO QUE ACONTECE. A insatisfação com as péssimas condições de trabalho não é algo novo. Em outros momentos elas estavam presentes. Pense comigo: correr atrás de bandido com coletes que mal aparam água de chuva, quem dirá bala, pode ser considerado “trabalho seguro”? reivindicar que se reforme o hospital dos militares é exigir demais? O policial leva um tiro cumprindo sua função de proteger e não tem hospital para garantir a vida dele – quando ele a arrisca por outras pessoas?

Nenhuma situação como essa surge do nada ou é fruto do suposto clima anti copa apenas. Ela vem sendo gestada continuamente, bala a bala, no dia a dia.

3.NEM TODO PM COMETE CRIMES. É lugar comum afirmar que “na polícia só tem criminoso”. Vamos aproveitar o medo para ampliar a percepção: se todo PM fosse criminoso, teríamos mais crimes acontecendo. Afirmar isso é dizer que toda uma categoria é criminosa quando, se fosse verdade, teríamos uma situação como a de hoje todos os dias. Na verdade, talvez nem estivéssemos organizados como estamos. A barbárie seria maior e a suposta “civilização” não se desenvolveria.

Mais um pouco sobre esse ponto: é a mesma linha de raciocínio do adágio maldoso e muito repetido: mulher no volante, perigo constante – quando é um homem que faz uma barbeiragem, é aquele homem e não todos. Uma mulher, todas as mulheres, a categoria mulher é (todas), nesse raciocínio, que não sabe dirigir.

Afirmar que a polícia não faz falta pois o bairro em que se vive não conta com a ação devida de garantir a segurança com certeza não é a forma de resolver a questão. Desmilitarizar a PM talvez seja (mas isso é assunto para outra postagem). 

4. NEM TODO SAQUE FOI DE “SUPERFLUOS”. Muitas imagens foram veiculadas mostrando lojas de eletrodomésticos, artigos de informática, sapatos sendo roubadas. Mas, deve-se considerar que pessoas passando necessidades alimentares também saquearam para garantir a despensa cheia, considerando a escassez (falta) desses artigos cotidianamente.

Nesse ponto chego a um aspecto que trato com minhas turmas quando, discutindo sobre combate ao crime, afirmam que “bandido bom é bandido morto”. MENOS O QUE ROUBA LEITE. O QUE ROUBA PRA SE ALIMENTAR, NÃO. O que nos leva para a próxima consideração:

5. TODO O ROUBO DEVE SER INVSTIGADO E PUNIDO. Não estou afirmando que deve-se deixar de lado a subtração do bem alheio, seja qual for, mas, bem que seria produtivo fazer uma reflexão acerca da situação geral, que pode ser encaminhada a partir do seguinte ponto:

6. EXIBIMOS PARA A MAIOR PARTE DA POPULAÇÃO PRODUTOS QUE ELA NÃO PODERÁ ADQUIRIR E DEPOIS, QUANDO PODEM OBTÊ-LOS, QUEREMOS QUE NÃO FAÇAM? Estamos no campo do desejo, desejo que é quase incontrolável. Pense na seguinte situação: leve uma criança para uma loja de doces (ou brinquedos), tudo colorido, tudo dizendo: “me pegue, me leve para você” e diga para a criança: “você não pode, mas queira, deseje, um dia, quem sabe, poderás ter!” O desejo quer saciar-se e é uma forma de analisar o que acontece: mesmo ilicitamente, algumas pessoas (não todas, lembrem), vão em busca daquilo que o tempo inteiro a propaganda afirma que vai fazê-la “ser gente”, existir.

É parte de uma estrutura social pautada no consumo do que na maior parte não se precisa. Antes, tinha-se uma sociedade de produtores, quem trabalhava era explorado e excluído por ser trabalhador mas, o que se tem hoje, é uma sociedade de consumidores, marcada pela exclusão de quem não pode consumir tal ou qual produto de determinadas marcas.

7. SE VOCÊ PENSOU: “QUERIA VER SE FOSSE A TELEVISÃO DELE, O QUE IA DIZER”, PARE! PARE! PARE! Esse é o tipo de argumento marcado pela emoção que é exatamente o que atrapalha  qualquer tomada de decisões. Temos que lidar com a situação que se configura perante nós e pensar no “e se”, nesse caso, não vai resolver. Quando uma coletividade toma decisões a partir de emoções, sem reflexões, temos a fabricação de linchamentos e arrependimentos posteriores; há dificuldades de se manter a serenidade, há! Mas decisões imponderadas geram danos maiores que o esforço para “esfriar a cabeça”;
 

Sobre a greve da polícia e as repercussões, tanto da deflagração quanto do fim, elas devem ser compreendidas como parte de um contexto que tem forte sustentação no modo de produção capitalista e seu discurso naturalizador da desigualdade que não é natural e sim social. A violência simbólica que os outros “99%”  sofrem vai sendo represada e reprimida por membros desses mesmos “99%”, que, quando decidem também querer seu paraíso, fazem tremer praticamente todo o sistema.

PARA PENSAR MAIS SOBRE:

domingo, 26 de janeiro de 2014

CONSIDERAÇÕES SOBRE OS ROLEZINHOS - 2

A recente onda de reuniões de jovens, adolescentes, púberes em shoppings de várias cidades do país gerando alvoroço e reações desde as mais passivas até as mais agressivas, chama atenção menos pelas repercussões e mais por representarem uma série de aspectos que diz respeito a um ponto: tratamos muito mal nossas crianças e jovens. Isso mesmo: nossa sociedade e, mais amplamente, nossa civilização trata seus - nossos/as - jovens descuidadamente e mesmo violentamente. Consideremos os seguintes aspectos para reflexão e posterior debate:

1. NÃO SÃO MARGINAIS: quando lemos ou ouvimos a palavra marginais, o pensamento é quase automático na geração da imagem de alguém armada/o com faca ou qualquer objeto perfurocortante ou ainda com uma arma de fogo apontada para cabeça de um cidadão/ã trabalhador/a. São, na maioria, jovens na chamada pré-adolescência e adolescência que decidiram ir ao shopping como programa de final de semana de muita/os nessa mesma faixa etária e pessoas acima dessa faixa também. Se vamos insistir no uso do termo marginal, que o façamos entendendo que se refere a jovens que estão A MARGEM daquilo que é de direito geral: ir e vir, também conhecido como liberdade de locomoção. Consideremos também que se queremos mudar a percepção de algo, devemos mudar a forma com a qual nos referimos a esse algo, afinal, as palavras têm força e ideologia embutidas;

2. NÃO ESTÃO ALI PARA ROUBAR: o medo maior da civilização ocidental, a expropriação da propriedade privada foi logo invocado e trazido a fala de muitas pessoas. Temia-se - teme-se -  o roubo do que se trabalhou muito para ter e a presença dessa parcela da juventude nos shoppings, que são um bom exemplo de templo de oferta de pré propriedades privadas, ativou o alerta vermelho de muitas pessoas que estavam ali para adquirir um bem ou apenas cobiçá-lo.

Alguém, com certeza, afirmará: - mas vi gente sendo assaltada e tem jovem ali que vai para roubar mesmo. Pois bem, façamos o seguinte questionamento: há unanimidade em toda manifestação social? Provavelmente não. Todas as pessoas que participam de movimentos são plenamente conscientes do que estão reivindicando? Penso que não e as recentes manifestações no país dão prova disso, afinal, muitos dos que foram às ruas sequer sabiam a função do senado e da câmara. Generalizações são muito perigosas e no caso do Brasil, geralmente criam e alimentam estereótipos contra grupos menos favorecidos financeiramente.

3. SÃO EXEMPLOS DE LUTA DE CLASSES, SIM: algumas pessoas afirmaram e ainda afirmam que a luta de classes já não existe mais, principalmente após o fim da União Soviética e do suposto fracasso do socialismo aplicado. O conceito ultrapassa a localização geográfica e o tempo no qual foi elaborado. Devemos lembrar que não é a realidade que deve se adequar ao pensamento, mas o pensamento é que deve buscar dar conta da realidade e sabendo que nunca poderá dar conta de tudo pois a vida social é dinâmica e fugidia demais para ser cristalizada.

Temos uma classe social, a dos "assalariados" e seus filhos e filhas que também são alcançadxs pelas propagandas oferecendo a beleza, a sedução, a auto-estima através de tais ou quais produtos. Pense: se te oferecem um produto que dá a entender que te fará mais bela/o, divertida/o, inteligente e você decide adquirir essas supostas qualidades e sabe que é no shopping que elas estão, para onde você vai para obtê-las? Provavelmente não será na feira perto de sua residência - sabendo que as versões desses produtos são de origem duvidosa, "falsiê" como se dizia outrora, a feira não será o local para comprá-los. Você irá para o shopping que te dá a suposta certeza que eles são "originais".

A classe social que frequenta, historicamente, os shoppings como cobiçadora e eventualmente compradora acreditava na suposta exclusividade de acesso, mas a ampliação do poder aquisitivo fez com que aquelas pessoas que antes apenas trabalhavam nesses "templos" também pudessem adquirir os bens com os quais trabalhavam.

Esse é o aspecto da luta de classes que ultrapassa a visão clássica de enfrentamento por questões trabalhistas, salariais. As classes que lutam hoje o fazem por espaços, pelo direito de ir e vir - e permanecer nos locais públicos. No caso dos shoppings, tem-se uma mescla de público e privado e a questão que aparece é: qual o papel do Estado nessa situação? Em que medida a proteção da propriedade privada a ser vendida é função do Estado? Mais ainda: deve o Estado legislar sobre a entrada e permanência dos "rolezeiros" em shoppings?

4. NÃO SÃO UMA GERAÇÃO PERDIDA: para tratar desse ponto, farei uma pergunta: você, aos doze anos gostava de ter doze anos? Provavelmente, não. Há muita gente compartilhando mensagens que trazem essa argumentação. Será difícil, talvez impossível encontrar alguma criança ou jovem que, ao acordar, tenha afirmado com toda alegria: - como sou feliz por ser criança! Como sou feliz por ser adolescente!

Essa é uma construção discursiva posterior. É também um exemplo do choque de gerações, uma vez que a geração estabelecida vê a geração nova como degenerada, "perdida". Exemplo disso é o início de frase clássico: "no meu tempo..." A resposta para essa afirmação é: no seu tempo você era vista/o como irresponsável e afins. E tem-se um outro questionamento: como cobrar de jovens entre dez e vinte e dois anos uma consciência crítica capaz de analisar a situação na qual se encontra? Mesmo as pessoas que são, em teoria, críticas, provavelmente não desenvolveram tal nível de criticidade de uma hora para outra.

Nessa perspectiva insere-se a função da escola, mas essa, sendo aparelho ideológico do Estado (é Althusser, sim e não está ultrapassado pois serve para entendimentos da situação social vigente), dificilmente (e no Brasil parece-me mais ainda) cumprirá um de seus - em teoria - papeis: desenvolver a capacidade de problematizar a realidade e poder agir sobre esta.

Por isso os rolezinhos nas bibliotecas dificilmente acontecerão. Falta algum tanto de vontade política para criação de condições e manutenção destas para formação de seres pensantes e, além da vontade política, há a vontade pessoal de muitas/os professoras/es, mais do que mal pagos, pessoalmente descrentes da efetividade de sua função (não é regra geral, mas muitas/os professoras/es ainda se mantém no ofício por não crerem-se capazes de fazer ou aprender outras coisas ou realizar, por exemplo, o sonho de serem médicas/os etc.).

5. A REAÇÃO AOS ROLEZINHOS É UMA MOSTRA DO QUANTO TRATAMOS MAL NOSSAS CRIANÇAS E JOVENS: muito bem, faço agora uso de uma citação de C. W. Mills acerca da imaginação sociológica:

Quando, numa cidade de cem mil habitantes, somente um homem está desempregado, isso é seu problema pessoal, e, para sua solução examinamos adequadamente o caráter do homem, suas habilidades e suas oportunidades imediatas. Mas quando, numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma questão pública, e não podemos esperar sua solução dentro das escalas de oportunidades abertas às pessoas individualmente. A estrutura mesma das oportunidades entrou em colapso. Tanto a formulação exata do problema como a gama de soluções possíveis exigem que consideremos as instituições econômicas e políticas da sociedade,  não apenas a situação pessoal e o caráter de um punhado de indivíduos."

(MILLS, Charles Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1965.)

A imaginação sociológica possibilita enxergar além do que a vista alcança, superando o senso comum e buscando as relações, estas fundamentais para a resolução das questões sociais como os rolezinhos, a homofobia, a transfobia, o racismo, o sexismo etc.

Os rolezinhos são uma resposta daquelas classes sociais à estratificação social vigente (lembrando que estratificação social é a forma com a qual a sociedade hierarquiza os grupos a partir do conjunto de fatores - economia, cultura). Essa resposta foi construída historicamente, em um cotidiano segregacionista que se intensificou com o processo de globalização. A falta de políticas de Estado direcionadas para a juventude brasileira amplia as repercussões da miséria produzida pelo sistema capitalista e traz, ainda, uma faca de dois gumes: a partir do momento em que o Estado passa a investir em espaços para o público que forma os rolezinhos, ao mesmo tempo afirma a fronteira que não deve ser ultrapassada por esses grupos. É bom, mas é ruim também. Garante espaços de lazer, mas também aparta de outros espaços que também são de direito de locomoção deles.

O que fazer, então? Esse é o desafio e que todas/os deveriam participar do debate, pois enquanto forem efetivadas soluções paliativas, estas serão pseudorresoluções.

Enquanto o foco dos olhares acerca dos rolezinhos for as perturbações geradas no fim de semana das classes sociais que frequentam os shoppings, enquanto se repetirem afirmações de que essa geração está perdida, formar-se-ão ilhas cercadas de pessoas que saíram da letargia de apenas produtores e se entenderam como consumidores e que reivindicam o direito de também serem "zumbis" consumistas. Um pouco de conhecimento em Geografia pode ajudar a fazer a relação: cedo ou tarde, ilhas são cobertas pela água circundante.

Pense FORA DA CAIXA.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA.