Já reparou que muitos filmes, séries e mesmo novelas seguem
um padrão, de acontecimentos que se repetem? Primeiro conhecemos a personagem
principal e o local em que vive. Geralmente é uma vida de paz e tranquilidade
que é afetada radicalmente pela chegada de alguém muito forte e que quer algo
de valor. Pode ser uma peça, uma joia, uma arma que é capaz de alterar a ordem
do universo e até destruí-lo.
O mocinho vê o local em que vive ser quase totalmente
destruído e a pessoa que ama ser levada e tem que ir em busca tanto da pessoa
que foi raptada (seu amor muitas vezes secreto) e evitar o fim de tudo o que
existe. Para conseguir salvar tudo, tem que despertar o poder que há em seu
interior contará com mestres e amizades para tanto. A batalha final decidirá
tudo e, geralmente, o vilão é derrotado e tudo volta ao normal.
Essa estrutura resumida aqui é a JORNADA DO HERÓI E DA
HEROÍNA e faz parte de toda narrativa mitológica antiga, tendo chegado aos dias
atuais como estrutura das narrativas de inúmeros filmes, seriados e novelas.
Pensar o racismo, e especificamente o racismo antinegro, é
compreender as estruturas que promovem e sustentam a manutenção e reprodução de
uma visão de mundo discriminatória, que atribue uma posição social de
inferioridade a uma população tendo como ponto de partida a origem étnica, a
cor da pele, a fibra do cabelo e as criações culturais.
Racismo antinegro (ou qualquer outra visão de mundo
inferiorizante) não é essencial. O que isso quer dizer? Que não se nasce
racista, machista, homofóbico e nem respeitador ou respeitadora das diferenças,
porque tanto uma atitude quanto a outra são parte do processo de socialização
que é iniciado quando se nasce e é afirmado durante toda a vida das pessoas.
Assim, durante a vida somos educadas, de maneira implícita,
a inferiorizar pessoas a partir de características ligadas a expressões
afro-brasileiras. Quando alguém é acusado de racismo, deve levar em
consideração, antes de reagir negando que seja, que foi educado em um processo
de socialização que inferiorizou – e inferioriza – pessoas de um grupo étnico
inteiro e a maior parte das suas formas de estar e viver e que assim como essas
estruturas foram construídas, precisam ser desconstruídas social e
culturalmente.
Na área de humanidades, o diálogo é fundamental. Assim, Filosofia, Sociologia, História, Geografia devem andar "de mãos dadas", ou seja, a produção delas, naquilo que têm de específico, vai contribuir para um entendimento muito maior sobre o mundo em que se vive.
A compreensão de muitos dos problemas sociais que enfrentamos atualmente será facilitada se levamos em consideração as ideologias que estão em conflito.
Vamos começar pela Teoria liberal, aqui simplificada como ponto de partida para seus estudos rumo ao ENEM.
Mudanças
não acontecem de uma hora para outra, mas são parte de processos,
às vezes, bem longos. A república brasileira nos dá exemplos
contundentes disso. A mudança da república das oligarquias (também
chamada de república do café com leite) é um exemplo disso. A
política dos governadores já não dava conta dos conflitos de
interesses e de necessidades que a sociedade vivenciava.
Tradição
e modernidade estavam em conflito. Mudanças nas formas de produção
não eram acompanhadas pela administração do Estado, ou melhor,
pelos grupos que administravam o país. Músicas são instrumentos
importantes para o aprendizado e a canção A luta contra a lata (ou
a falência do café), de Gilberto Gil nos dá um panorama da
situação e pode ser ponto de partida para problematizações
históricas interessantes.
Alô,
mulatas! Alô, alô, mulatas! O
barulho que vocês estão ouvindo é um barulho de latas! De
latas! Eu disse: "Latas! Latas!"
O
exército de latas mil do inimigo Tomou
de assalto as prateleiras e os balcões Em
nome das plebéias chaminés plantadas Em
nossos quintais
Palavras
proferidas por um velho dono De
terras roxas de uma vasta região Em
nome das grã-finas tradições plantadas Em
seu coração
(Café!
Café! Café! Café!)
Chaminés
plantadas nos quintais do mundo As
latas tomam conta dos balcões Navios
de café calafetados Já
não passeiam portos por ai
Rasgados
velhos sacos de aninhagem A
grã-finagem limpa seus brasões Protege
com seus sacos de aninhagem Velha
linhagem de quatrocentões
Os
sacos de aninhagem já não dão A
queima das fazendas também não As
latas tomam conta do balcão Vivemos
dias de rebelião
Enlate
o seu café queimado Enlate
o seu café solúvel Enlate
o seu café soçaite Enlate
os restos do barão
A
lata luta com mais forças Adeus,
elite do café Enlate
o seu café solúvel Enquanto
dá pé
Neste Esquema Monstro você pode conferir informações primordiais para a compreensão sociológica do trabalho. O trabalho é a atividade, segundo alguns pensadores/as, que diferencia seres humanos de outros animais e é considerado tão importante que pautamos nossa identidade a partir do que fazemos: nos
apresentamos como médicos/as, porteiros/as, policiais, vendedoras, professoras,
eletricistas e não como sonhadores/as, invejosos/as, preguiçosos/as ou algo
assim. Ao mesmo tempo que define nossa personalidade, nossa consciência, o trabalho também pode ser via de alienação e desumanização. VEJA TAMBÉM: Trabalho, modo de produção e goiabada
A frase desse post é uma paródia da frase mais famosa do pensador René Descartes "Penso, logo existo". Descartes é considerado o fundador da filosofia moderna e sua frase figura como uma das mais reproduzidas do universo filosófico. Quantas turmas concluintes do ensino médio já vi utilizando-a em suas camisas de terceiranistas? Várias!
Para Descartes, nossos sentidos nos enganam constantemente. Se você, alguma vez, gritou o nome de algum(a) conhecido(a) na rua ou no shopping ou mesmo no cinema e, depois, viu que não era quem você esperava (e ficou morrendo de vergonha), então entende o posicionamento dele e sua desconfiança dos sentidos.
Essa situação pode nos levar ao estado da dúvida suprema, absoluta e tudo passa a ser passível de questionamentos. Não haveria verdade a partir dos sentidos porque os sentidos sempre serão enganadores. O que fazer, então? Descartes desenvolveu um raciocínio para se precaver dessa dúvida quase imobilizadora.
Para lidar com essa questão, ele desenvolver a seguinte pergunta: o que você quer fazer pode ser fruto da vontade de um gênio maligno que te faz acreditar que a vontade é sua? Se você respondeu "sim", então não faça, pois é uma ação duvidosa. A partir daí, você existe porque só o que existe pode duvidar e como duvidar é pensar, então o ato de pensar é a certeza de existir. Eis, o ponto de partida de "Penso, logo existo".
Posteriormente, Descartes deixou de lado o "penso, logo existo" e afirmou "Eu sou, eu existo", mas esse é um assunto para outra postagem!
Este Esquema Monstro é o ponto de partida para o entendimento do século XX em seus aspectos mais gerais e como ponto de partida para guiar seus estudos. VEJA TAMBÉM: CIDADANIA, DIREITOS E ÔNIBUS LOTADO
Zygmunt Bauman foi um dos pensadores mais produtivos da sociologia contemporânea e desenvolveu o conceito de modernidade líquida, caracterizada pela exaltação da novidade, pelo consumo como forma de legitimação social e pela obsolescência rápida, tanto de bens quanto de relacionamentos (o amor líquido).
Compreender esse conceito contribuirá para um entendimento diferenciado da vida na atual sociedade.
O ESQUEMA MONSTRO é um ponto de partida para outros estudos e análises.
O gráfico mostra os conteúdos que mais foram abordados nos últimos anos no ENEM de acordo com o levantamento realizado pela equipe do site AppProva.
A partir desse levantamento você já pode organizar seus estudos focando nesses conteúdos e seguindo também o programa para ciências humanas que você confere neste link:
Há uma relação de amor e ódio
entre setores da sociedade e os meios de comunicação, destaque para a
televisão. Meio de comunicação de massa por excelência, a “caixa mágica”
é responsabilizada por definir gostos, controlar vontades e manipular
desejos.
A Xaneu nº 5 canta para nós a ideia da TV como membro da
família, que participa e conhece o telespectador em suas intimidades. É
um veículo homogeneizador de produtos para consumo imediato e estes produtos
são parte da complementação existencial de cada um. Seriados, novelas
que acabam e deixam a pergunta: “o que será de mim?”
Mas a canção também mostra conscientização que vai na contramão da
ideia de que telespectadores/as são destituídos de vontade própria e que
aceitam sem restrições tudo o que a TV oferece. As contradições são
percebidas e expostas em tom de denúncia que vai da descrença na notícia
até o conflito entre a imagem que é vendida e a realidade, entre o
programa de culinária e o país que não tem ovo para por na panela.
Essas questões são abordadas por pensadores como Louis Althusser,
Pierre Bourdieu e alguns representantes da Escola de Frankfurt.
Confira a letra:
A minha tv não se conteve Atrevida passou a ter vida Olhando pra mim. Assistindo a todos os meus segredos,minhas parcerias, dúvidas, medos, Minha tv não obedece. Não quer mais passar novela, sonha um dia em ser janela e não quer mais ficar no ar. Não quer papo com a antena nem saber se vale a pena ver de novo tudo que já vi. Vi. A minha Tv não se esquece nem do preço nem da prece que faço pra mesma funcionar. Me disse que se rende a internet em suma não se submete a nada pra me informar. Não quis mais saber de festa não pensou em ser honesta funcionando quando precisei. A notícia que esperava consegui na madrugada num site, flick, blog, fotolog que acessei. A minha Tv tá louca, me mandou calar a boca e não tirar a bunda do sofá. Mas eu sou facinho de marré-de-sí, se a maré subir eu vou me levantar. Não quero saber se é a cabo nem se minha assinatura vai mudar tudo que aprendi, triste o fim do seriado, um bocado magoado sem saber o que será de mim. Ela não Sap quem eu sou, Ela não fala a minha língua. Não. "Pô tô cansado de toda essa merda que eles mostram na televisão todo dia mano, não aguento mais, é foda!" Manda bala Fernando... Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não? Até porque não acredito no que é dito, no que é visto. Acesso é poder e o poder é a informação. Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz. O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio. Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa. A
vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento, na
tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na
panela que não tem gesto, quem tem medo assimila toda forma de expressão
como protesto.
Falou e disse...Num passado remoto perdi meu controle... Num passado remoto perdi meu controle...Num passado remoto...
Era
vida em preto e branco, quase nunca colorida reprisando coisas que não
fiz, finalmente se acabando feito longa, feito curta que termina com
final feliz..
Ela não Sap quem eu sou, Ela não fala a minha língua. Ela não Sap quem eu sou, Ela não fala a minha língua. Ela não Sap quem eu sou, Ela não fala a minha língua. Ela não Sap quem eu sou, Ela não fala a minha língua. Eu não sei se pay-per-view ou se quem viu tudo fui eu.
O ser humano é um animal que trabalha, que altera o ambiente ao seu redor construindo sentidos e significados ao que pensa e faz. Pensadores como Karl Marx afirmaram que a história da humanidade é a história da luta de classes. Desta afirmação se vai para o entendimento de que a mudança da sociedade está relacionada com a mudança na forma de produzir bens (e prestar serviços). O modo de produção é a forma com a qual uma sociedade produz o que precisa para sobreviver. Essa produção tem relação direta com as necessidades do tempo em que se vive, do contexto histórico. Em resumo, cada época tem suas formas de trabalhar, de explorar o trabalho como meio de sobrevivência. O modo de produção capitalista alterou radicalmente o regime de trabalho da humanidade, criando condições de produzir bens em quantidades impensadas em outros tempos históricos. Essa mudança, por extensão, atingiu quem trabalha, o proletariado, composto por todas e todos que vendem sua força de trabalho. A produção passou a ser diretamente vinculada ao mercado e quanto mais se produzisse ao menor custo de produção, maior seria a arrecadação financeira para quem é dono dos meios de produção (burguês/patrão). Ao proletário se pagava (e paga) um valor pelo trabalho realizado (o salário). As condições de trabalho também mudaram radicalmente e a alienação foi ampliada, criando uma massa de trabalhadores/as insatisfeitos/as com as atividades que realizam. A canção O MÉRITO E O MONSTRO, do grupo O Teatro Mágico, expõe essa condição que atinge milhares de pessoas no mundo. Transportes inadequados, custo alto para ter onde morar, adoecer é um dos medos da força de trabalho acompanhado daquela que já é considerada a doença do século XXI: a depressão.
O metrô parou O metro aumentou Tenho medo de termômetro
Tenho medo de altura Tenho altura de um metro e tanto Me mato pra não morrer
Minha condição, minha condução Meu minuto de silêncio Os meus minutos mal somados Sadomasoquismo são
Meu trabalho mais que forçado Morrendo comigo na mão
A maioria das pessoas passa de oito a doze horas por dia fazendo coisas que não fazem sentido na vida delas PERMITA-SE! PERMITA-SE!
Pra dilatarmos a alma Temos que nos desfazer Pra nos tornarmos imortais A gente tem que aprender a morrer Com tudo aquilo que fomos E tudo aquilo que somos nós VEJA TAMBÉM: TRABALHO, MODO DE PRODUÇÃO E GOIABADA
Platão,
assim como outros pensadores, dedicou-se a investigar a realidade, mas sua
investigação buscou ultrapassar os sentidos, por considerar que não seriam
eficientes em alcançar o mundo real. Para ele apenas racionalmente
conseguiríamos atingir a essência das coisas, tanto materiais quanto das
ideias. Em sua obra, A República, ele desenvolveu, através de uma história
alegórica, o seu raciocínio. O vídeo abaixo nos traz uma versão da alegoria da caverna narrada por ele:
A
compreensão das ideias de Weber sobre dominação tem que levar em consideração a
definição dele do que é o Estado: (…) uma
comunidade humana que, nos limites de um determinado território , (…)
reivindica para si própria o monopólio legítimo da violência. A legitimidade
desse monopólio está ligada aos três tipos de dominação por ele classificados,
a saber:
I. tradicional:
entendida como sempre existente, ou seja, a população a ele submetida não
considera outra forma de exercício da autoridade;
II. carismática: a
população obedece pois acredita em supostas qualidades fora do comum que a
liderança tem. Seria a crença em alguém para “salvar a pátria” de todos os
problemas e de todas as necessidades;
III. legal: se
legitima através das leis. Grande exemplo dos regimes republicanos
contemporâneos em que a presidência é exercida por quem foi eleito dentro das
regras legais do processo eleitoral.
A letra da canção HINO DE DURAN, de Chico Buarque, pode nos ajudar a compreender a ideia de Weber sobre dominação:
HINO DE DURAN
Se tu falas
muitas palavras sutis Se gostas de senhas sussurros ardis A lei tem ouvidos pra te delatar Nas pedras do teu próprio lar
Se trazes no
bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X
Se vives nas
sombras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam
E se
definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o
livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus
Se pensas que
burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai te
abraçar infrator
com seus braços de estivador
Se pensas que
pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr. Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar...
A maneira como uma
sociedade se diverte é também como essa sociedade se vê. Muitas
tensões sociais podem ser identificadas em momentos festivos. O
carnaval pode ser um laboratório dos mais instigantes e reveladores
das formas brasileiras de lidar com questões específicas, como
classe, gênero, etnia etc.
Pensemos nas
fantasias: homens “viram” mulheres, mulheres “viram” homens,
crianças são fantasiadas como adultos/as e assim,
carnavalescamente, se vai. Ao pensar nas fantasias, quem nunca viu ou
mesmo se fantasiou com perucas estilo “black power”? Ou ainda com
dreadlocks? Ou mesmo filás com as cores verde, vermelha e amarela?
Pois é, muitas pessoas. Mas vale aqui pensar um pouco além sobre
essas fantasias, mesmo porque elas colocam como elemento festivo
(zombeteiro às vezes) uma pessoa, o cabelo que ela ostenta, aspectos de seu corpo.
O que se quer dizer
aqui é que muito dificilmente se vê cabelos lisos como adereços,
fantasias para o carnaval. Mas se vê cabelos lisos sendo vendidos e
comprados a preços elevadíssimos, sendo inclusive postados anúncios
e cartazes comunicando: “compramos cabelos humanos”. É aqui que
podemos inserir uma chave de leitura e de entendimento: cabelos de
pessoas negras são para fantasias, para festas e cabelos lisos, não. Estes, ao serem vendidos e comprados, aparecem com mais valor agregado do que outros tipos, outras fibras.
Sendo consciência
coletiva o conjunto de crenças e sentimentos que compõem a visão
de mundo da média da população de uma sociedade, então o uso de
cabelos estilo “black power” como fantasia demonstra a maneira da
nossa sociedade enxergar a população afrodescendente. É colocada
em um local hierarquicamente inferior, não humano, digno, muitas
vezes, de piada, de risos.
Tranças afro presas
em filás, dreadlocks, perucas estilo “black power” sendo
vendidas como fantasias demonstram o lugar de coisa que a população
negra tem no imaginário brasileiro, na consciência coletiva de
muitos setores do país. A discriminação acontece muitas vezes de
maneira explicita, mas é de forma implícita que ela é construída
com mais solidez.
Sendo a educação
um processo que ocorre em parceria com o processo de socialização,
então estamos o tempo inteiro sob processos educacionais que nos
direcionam o olhar e os sentimentos sobre o mundo e as pessoas que
estão ao redor. Essa chave de leitura e entendimento que tem como
ponto de partida as fantasias de carnaval pode ser estendida para
filmes, seriados, telenovelas e vários produtos culturais.
Não cabe aqui
afirmar de imediato que é verdade ou não, mas pensar sobre a
situação: quando ter a pele clara, o cabelo liso, os olhos verdes
ou azuis é motivo de piada ou mesmo é fantasia? E mesmo que isso
aconteça, esses casos confirmam o que a consciência coletiva é, ou
seja, o que a maior parte das pessoas pensa sobre si e sobre
outras/os e, nesse caso, a população afrodescendente ainda é colocada em posição de subalternidade no imaginário coletivo.
As canções são uma importante fonte para compreensão das
formas de pensar de uma sociedade, principalmente pelo que podemos descobrir
nelas enquanto o jeito com o qual uma sociedade se vê, guardando a contradição
entre como uma sociedade se vê e como ela é.
A canção Camaro Amarelo, de Munhoz e Mariano pode ser
analisada a partir do que revelam sobre status e papel social. Eis a letra:
Agora
eu fiquei doce, doce, doce, doce
Agora
eu fiquei do-do-do-do-doce, doce [2x]
Agora
eu fiquei doce igual caramelo
Tô
tirando onda de camaro amarelo
Agora
você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando
eu passo no camaro amarelo
Quando
eu passava por você na minha CG
Você
nem me olhava
Fazia
de tudo pra me ver, pra me perceber
Mas
nem me olhava
Aí
veio a herança do meu ‘véio',
Resolveu
os meus problemas, minha situação
E
do dia pra noite fiquei rico
Tô
na grife, tô bonito
Tô
andando igual patrão
Agora
eu fiquei doce igual caramelo
Tô
tirando onda de camaro amarelo
Agora
você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando
eu passo no camaro amarelo
Agora
você vem, né? E agora você quer, né?
Só
que agora vou escolher, ta sobrando mulher
Agora
você vem, né? E agora você quer, né?
Só
que agora vou escolher, ta sobrando mulher
Status
(ou posição social) diz respeito ao local que
indivíduos e grupos ocupam em uma sociedade. Essa posição pode ser
atribuída e adquirida, ou seja, nos colocam em determinados locais sociais a
partir de elementos que não escolhemos (ser filha/o de tais pais e mães,
netas/os de tal avô) e dos elementos que tem relação com o que fazemos, com as
nossas ações (bom filho, ótima cirurgiã etc.).
A
canção expõe uma situação de distribuição desigual de prestígio a partir da
posição social que é atribuída ao indivíduo pelo bem material que ele possuía –
a moto modelo CG. No caso ele não era “visto”, não era percebido apesar do
esforço que ele empreendia. Podemos entender o status que é atribuído ao
indivíduo por causa do bem material que ele tem e que nesse caso é uma posição
rebaixada, relacionada com a suposta baixa qualidade da motocicleta.
O
status que é atribuído a ele muda quando ele recebe a herança do “véio”, pois,
a partir daquele momento ele pôde adquirir bens materiais de suposta qualidade
maior, no caso um automóvel tipo camaro e de cor amarela, que dá título a
canção. Ele passa a receber atenção que antes, com a moto de qualidade
duvidosa, não tinha e tanto desejava.
Ao
mesmo tempo a canção contribui para a manutenção de uma imagem de mulher como
sendo atraída por bens materiais. Na canção, antes da herança e do camaro, não
havia atração aparente e, depois do camaro, “tá sobrando mulher”. Atribui-se
uma posição social de “interesseira” que reafirma uma construção histórica de
décadas e décadas.
Nesse
ponto chega-se ao papel social, o conjunto de comportamentos que se espera de
alguém, de um grupo a partir da posição que ele ocupa. A canção fortalece a
ideia de que quem tem dinheiro para além do que necessita, ostenta, esbanja e,
para as mulheres, de que se aproximarão de quem tiver mais bens materiais para
oferecer.
A
perspectiva aqui não é julgar comportamentos, mas instrumentalizar o olhar a
partir dos conceitos de status e papel sociais e identificar como, no cotidiano,
ocorre a construção e reafirmação de conjuntos de ideias que compõe nossas
formas de agir, pensar e mesmo de sentir (uma das definições de ideologia).