Platão,
assim como outros pensadores, dedicou-se a investigar a realidade, mas sua
investigação buscou ultrapassar os sentidos, por considerar que não seriam
eficientes em alcançar o mundo real. Para ele apenas racionalmente
conseguiríamos atingir a essência das coisas, tanto materiais quanto das
ideias. Em sua obra, A República, ele desenvolveu, através de uma história
alegórica, o seu raciocínio. O vídeo abaixo nos traz uma versão da alegoria da caverna narrada por ele:
A
compreensão das ideias de Weber sobre dominação tem que levar em consideração a
definição dele do que é o Estado: (…) uma
comunidade humana que, nos limites de um determinado território , (…)
reivindica para si própria o monopólio legítimo da violência. A legitimidade
desse monopólio está ligada aos três tipos de dominação por ele classificados,
a saber:
I. tradicional:
entendida como sempre existente, ou seja, a população a ele submetida não
considera outra forma de exercício da autoridade;
II. carismática: a
população obedece pois acredita em supostas qualidades fora do comum que a
liderança tem. Seria a crença em alguém para “salvar a pátria” de todos os
problemas e de todas as necessidades;
III. legal: se
legitima através das leis. Grande exemplo dos regimes republicanos
contemporâneos em que a presidência é exercida por quem foi eleito dentro das
regras legais do processo eleitoral.
A letra da canção HINO DE DURAN, de Chico Buarque, pode nos ajudar a compreender a ideia de Weber sobre dominação:
HINO DE DURAN
Se tu falas
muitas palavras sutis Se gostas de senhas sussurros ardis A lei tem ouvidos pra te delatar Nas pedras do teu próprio lar
Se trazes no
bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X
Se vives nas
sombras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam
E se
definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o
livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus
Se pensas que
burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai te
abraçar infrator
com seus braços de estivador
Se pensas que
pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr. Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar...
A maneira como uma
sociedade se diverte é também como essa sociedade se vê. Muitas
tensões sociais podem ser identificadas em momentos festivos. O
carnaval pode ser um laboratório dos mais instigantes e reveladores
das formas brasileiras de lidar com questões específicas, como
classe, gênero, etnia etc.
Pensemos nas
fantasias: homens “viram” mulheres, mulheres “viram” homens,
crianças são fantasiadas como adultos/as e assim,
carnavalescamente, se vai. Ao pensar nas fantasias, quem nunca viu ou
mesmo se fantasiou com perucas estilo “black power”? Ou ainda com
dreadlocks? Ou mesmo filás com as cores verde, vermelha e amarela?
Pois é, muitas pessoas. Mas vale aqui pensar um pouco além sobre
essas fantasias, mesmo porque elas colocam como elemento festivo
(zombeteiro às vezes) uma pessoa, o cabelo que ela ostenta, aspectos de seu corpo.
O que se quer dizer
aqui é que muito dificilmente se vê cabelos lisos como adereços,
fantasias para o carnaval. Mas se vê cabelos lisos sendo vendidos e
comprados a preços elevadíssimos, sendo inclusive postados anúncios
e cartazes comunicando: “compramos cabelos humanos”. É aqui que
podemos inserir uma chave de leitura e de entendimento: cabelos de
pessoas negras são para fantasias, para festas e cabelos lisos, não. Estes, ao serem vendidos e comprados, aparecem com mais valor agregado do que outros tipos, outras fibras.
Sendo consciência
coletiva o conjunto de crenças e sentimentos que compõem a visão
de mundo da média da população de uma sociedade, então o uso de
cabelos estilo “black power” como fantasia demonstra a maneira da
nossa sociedade enxergar a população afrodescendente. É colocada
em um local hierarquicamente inferior, não humano, digno, muitas
vezes, de piada, de risos.
Tranças afro presas
em filás, dreadlocks, perucas estilo “black power” sendo
vendidas como fantasias demonstram o lugar de coisa que a população
negra tem no imaginário brasileiro, na consciência coletiva de
muitos setores do país. A discriminação acontece muitas vezes de
maneira explicita, mas é de forma implícita que ela é construída
com mais solidez.
Sendo a educação
um processo que ocorre em parceria com o processo de socialização,
então estamos o tempo inteiro sob processos educacionais que nos
direcionam o olhar e os sentimentos sobre o mundo e as pessoas que
estão ao redor. Essa chave de leitura e entendimento que tem como
ponto de partida as fantasias de carnaval pode ser estendida para
filmes, seriados, telenovelas e vários produtos culturais.
Não cabe aqui
afirmar de imediato que é verdade ou não, mas pensar sobre a
situação: quando ter a pele clara, o cabelo liso, os olhos verdes
ou azuis é motivo de piada ou mesmo é fantasia? E mesmo que isso
aconteça, esses casos confirmam o que a consciência coletiva é, ou
seja, o que a maior parte das pessoas pensa sobre si e sobre
outras/os e, nesse caso, a população afrodescendente ainda é colocada em posição de subalternidade no imaginário coletivo.
As canções são uma importante fonte para compreensão das
formas de pensar de uma sociedade, principalmente pelo que podemos descobrir
nelas enquanto o jeito com o qual uma sociedade se vê, guardando a contradição
entre como uma sociedade se vê e como ela é.
A canção Camaro Amarelo, de Munhoz e Mariano pode ser
analisada a partir do que revelam sobre status e papel social. Eis a letra:
Agora
eu fiquei doce, doce, doce, doce
Agora
eu fiquei do-do-do-do-doce, doce [2x]
Agora
eu fiquei doce igual caramelo
Tô
tirando onda de camaro amarelo
Agora
você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando
eu passo no camaro amarelo
Quando
eu passava por você na minha CG
Você
nem me olhava
Fazia
de tudo pra me ver, pra me perceber
Mas
nem me olhava
Aí
veio a herança do meu ‘véio',
Resolveu
os meus problemas, minha situação
E
do dia pra noite fiquei rico
Tô
na grife, tô bonito
Tô
andando igual patrão
Agora
eu fiquei doce igual caramelo
Tô
tirando onda de camaro amarelo
Agora
você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando
eu passo no camaro amarelo
Agora
você vem, né? E agora você quer, né?
Só
que agora vou escolher, ta sobrando mulher
Agora
você vem, né? E agora você quer, né?
Só
que agora vou escolher, ta sobrando mulher
Status
(ou posição social) diz respeito ao local que
indivíduos e grupos ocupam em uma sociedade. Essa posição pode ser
atribuída e adquirida, ou seja, nos colocam em determinados locais sociais a
partir de elementos que não escolhemos (ser filha/o de tais pais e mães,
netas/os de tal avô) e dos elementos que tem relação com o que fazemos, com as
nossas ações (bom filho, ótima cirurgiã etc.).
A
canção expõe uma situação de distribuição desigual de prestígio a partir da
posição social que é atribuída ao indivíduo pelo bem material que ele possuía –
a moto modelo CG. No caso ele não era “visto”, não era percebido apesar do
esforço que ele empreendia. Podemos entender o status que é atribuído ao
indivíduo por causa do bem material que ele tem e que nesse caso é uma posição
rebaixada, relacionada com a suposta baixa qualidade da motocicleta.
O
status que é atribuído a ele muda quando ele recebe a herança do “véio”, pois,
a partir daquele momento ele pôde adquirir bens materiais de suposta qualidade
maior, no caso um automóvel tipo camaro e de cor amarela, que dá título a
canção. Ele passa a receber atenção que antes, com a moto de qualidade
duvidosa, não tinha e tanto desejava.
Ao
mesmo tempo a canção contribui para a manutenção de uma imagem de mulher como
sendo atraída por bens materiais. Na canção, antes da herança e do camaro, não
havia atração aparente e, depois do camaro, “tá sobrando mulher”. Atribui-se
uma posição social de “interesseira” que reafirma uma construção histórica de
décadas e décadas.
Nesse
ponto chega-se ao papel social, o conjunto de comportamentos que se espera de
alguém, de um grupo a partir da posição que ele ocupa. A canção fortalece a
ideia de que quem tem dinheiro para além do que necessita, ostenta, esbanja e,
para as mulheres, de que se aproximarão de quem tiver mais bens materiais para
oferecer.
A
perspectiva aqui não é julgar comportamentos, mas instrumentalizar o olhar a
partir dos conceitos de status e papel sociais e identificar como, no cotidiano,
ocorre a construção e reafirmação de conjuntos de ideias que compõe nossas
formas de agir, pensar e mesmo de sentir (uma das definições de ideologia).
A recente onda de ocupações nas escolas de ensino médio e
universidades de todo o país expõe essa oposição e permite identificar que o
usufruto dos nossos direitos pode implicar, algumas vezes, que outras pessoas
não usufruam dos delas. O caso das ocupações é um deles: temos o direito à
educação entrando em conflito com – uou! – o direito à educação. Grupos de
estudantes ocupam escolas e as aulas são paradas. Estudantes que querem
assistir às aulas questionam e acham ruim não poderem ter o direito de estudar
e, mais ainda, se vêm obrigados/as a participar de um movimento que os
prejudica.
Por outro lado, o que se está reivindicando é o mesmo
direito à educação que os/as ocupantes se organizam para ampliar e mesmo
garantir com alguma qualidade, considerando a situação precária de muitas
escolas, a falta de professores/as que sejam efetivamente das disciplinas que
lecionam (sabe-se que aulas de matemática são ministradas por professoras/es
graduadas/os em biologia e outras variações) e contra a retirada da
obrigatoriedade de aulas de educação física, artes, filosofia, sociologia (o
autor deste texto treme com estas últimas).
Seria algo do tipo: estudantes que querem gozar do direito
de assistir às aulas X estudantes que querem garantir a manutenção e ampliação
do direito de assistir às aulas e à educação de qualidade. Essa situação de
conflito é ampliada quando se classificam em “estudantes alienados/as” (os que
são contra as ocupações) e “estudantes engajados/as” (os que ocupam) um grupo
que é todo formado por ESTUDANTES.
Não se trata de botar gosto ruim nas ocupações ou de defender
que as aulas sigam sem interrupções, mas sim de perceber as contradições, que
são muito importantes para serem tratadas de forma simples (simplória) e, nesse
sentido, caberiam questionamentos: a quem interessa que indivíduos de um mesmo
grupo (os estudantes) briguem entre si? Será
que são alienadas/os quem não concorda em perder aulas e mesmo o ENEM? Ou
seriam alienados/as os/as que foram produzidos/as por uma sociedade que passa o
tempo inteiro afirmando individualismo em frases como “se eu não fizer por mim,
ninguém fará!”?
Será que são baderneiros/as quem ocupa as escolas ou são
aqueles/as que cansaram de ser “o futuro da nação” e decidiram assumir o
projeto do próprio futuro?
A ocupação de escolas e universidades é violenta, mas pagar
mal professoras/es, excluir disciplinas através de uma reforma que não dialoga
verdadeiramente com quem será afetada/o não é violência?
De tempos em tempos circula pelas redes sociais fotos de
crianças estudando ou se esforçando para estudar mesmo em situação precária,
desumana. Geralmente bastante compartilhadas, essas fotos enfatizam o esforço
do/a jovem que, em estrutura inóspita, segue adiante em busca de “ser alguém”
que só o estudo parece garantir.
Antes de seguir a leitura, um aviso: não se nega a
importância e a beleza do esforço, mas se propõe outros olhares e, pode ser,
que incomode seja gerado incômodo. Mas, como teria afirmado o filósofo
Sócrates: uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida. Sigamos, então.
O aspecto que merece maior observação é que o esforço dessas
crianças atrai mais atenção do que a falta de condições para o aprendizado
adequado, assim, fazendo parecer que não há outras instâncias que têm relação
direta com a situação. Aqui a referência é ao Estado, instituição que deve (ou
deveria) garantir educação básica de qualidade para todas/os.
Em outras palavras, não se critica o esforço de quem “luta
contra todas as adversidades”, mas se deseja chamar atenção para o que causa a
adversidade em questão. É a falta de estrutura básica (direitos que deveriam
ser universais) que força milhares de jovens no mundo inteiro a ter que vender
verduras enquanto estudam, a aproveitar luzes de postes no meio da rua para
poder resolver contas e sentar em latas de lixo porque sequer há carteiras nas
escolas.
As raras situações em que alguns são bem sucedidos/as não
diz, de maneira alguma, que quem não conseguiu não se esforçou, e sim denuncia
a falta de condições reais para que todas/os possam “chegar lá”. O perigo do
aplauso isolado de um olhar mais conjuntural é deixar subentendido que o esforço
individual pode substituir as condições básicas não havendo necessidade de reivindicá-las.
Gênero.
Esta palavra, nos últimos tempos no Brasil, tem gerado muitos
aperreios, muitas discussões. Fala-se de ideologia de gênero,
ditadura de gênero e, na maior parte das vezes, não se sabe direito
do que se está falando.
O
primeiro passo é entender do que se fala e, nesse sentido, é
fundamental ter em mente alguns termos, a saber: sexo biológico,
gênero, sexualidade, identidade de gênero. Pois bem, agora é o
momento de lembrar, a você que lê este texto, que o objetivo aqui é
expor elementos para que possamos compreender um pouco mais o que se
está debatendo, discutindo e não convencer sobre qualquer ideia,
pensamento ou teoria.
SEXO
BIOLÓGICO
É
a característica física, principalmente externa que diferencia um
macho de uma fêmea. De maneira bem direta: diz respeito à
genitália com a qual se nasce. Levando em consideração essa
definição, a frase não seria “é um menino!”, “é uma
menina!” e sim “é um macho!”, “é uma fêmea!”. Afirmar
que é menino ou menina é a inserção de cultura no que é
biológico.
É
assim: a partir da identificação da característica física começa
a organização do mundo ao redor da futura criança. Acompanhe:
identificou a presença de um pênis, escolheu um nome que se
relacione com o órgão genital, será João, José, Antonio,
Roberval e não Maria, Joana, Carla ou Jezebel, pois estes últimos
seriam “nomes de menina”.
O
enxoval será recheado de peças de cor azul e suas variações. As
estampas das roupas provavelmente terão a imagem de um super-heroi,
um personagem portador de um pênis tal qual a criança nascerá com
um. Uma vez tendo nascido, lhe será ensinado como meninos devem
agir, falar (a clássica frase: “fale feito homem!”). Será
levado a jogar futebol ou qualquer esporte que se caracterize
primordialmente pelo uso da força.
Isso
é GêNERO,
ou seja, a atribuição de
elementos culturais às características físicas com as quais se
nasce. Gênero é construção histórica, é comportamento
atribuído a partir da genitália. É quando se diz que “menina é
delicada e menino é porco mesmo!”. É o processo de naturalização
de ações, de formas de sentir e de pensar que são elaboradas
socialmente, não se nasce sabendo ser homem ou mulher mas se
aprende.
Como
temos uma herança natural, animal, feito outros mamíferos, então
reproduzimos e nossa reprodução é por via física, de intercurso
sexual. O sexo teria, então, função reprodutiva. Pois bem,
pensemos sobre isso: a finalidade do sexo é a reprodução e para a
geração de descendentes férteis é necessário o contato entre
pênis e vagina, entre macho e fêmea, entre homens e mulheres.
Esse
contato caracteriza-se pelo prazer (sem ser gostosinho, provavelmente
não seria atraente) que nos leva a querer praticar o ato.
Entretanto, é importante considerar que nossa espécie superou as
designações da natureza, o determinismo das funções naturais da
atividade sexual (outras funções naturais também foram superadas e
não apenas a sexual) e, a partir da cultura – que nos diferencia
de outros animais – atribuiu outros sentidos ao ato.
Além
da função reprodutiva, o ato sexual recebeu outra função: a
recreativa, ou seja, praticamos sexo sem obrigatoriamente desejarmos
gerar descendentes fertéis. Você, provavelmente, ao namorar não dá
beijinhos no seu namorado/a com a ideia de ser pai/mãe mas sim
porque aquele beijo te dá “um negócio massa!” que te faz
desejar outras vezes e outras pessoas também (ou não).
Quem
se deseja é parte da sexualidade, ou seja, sexualidade
diz respeito à orientação do desejo, ao que atrai você em outra
pessoa. Costuma-se definir esse desejo a partir do binarismo,
podendo ser este de duas perspectivas, a saber: binarismo sexual
(heterossexual – homossexual) e binarismo de gênero (feminino –
masculino).
Pense
na seguinte situação: digamos que você é uma moça e, durante a
aula a porta é aberta e por ela passa um rapaz e, sem que você
controle, sua barriga fica fria, você tenta desviar o olhar dele e
não consegue (ou só quando ele te olha). Você sente uma vontade
muito grande de abracá-lo, aliás, vontade não, desejo e, para
intensificar a situação, seu coração dispara.
A
partir do binarismo sexual que caracteriza a forma mais comum de
orientação do desejo, a relação descrita é heterossexual, ou
seja, indivíduos de sexos biológicos diferentes se atraem. Se
pensarmos de acordo com a necessidade de reprodução, seria a forma
mais adequada de se relacionar. Se, no entanto, pensarmos no que já
foi citado acima sobre a superação do determinismo biológico e
enveredarmos nos caminhos do prazer, seria UMA forma de sentir, de se
relacionar. Nem melhor, nem pior, mas UMA forma.
O
que foi construído historicamente é que a ÚNICA forma legítima,
correta, aceita de orientação do desejo é a heterossexualidade.
Como não havia espaço para outras (ou espaço de aceitação) o
modelo com finalidades reprodutivas se consolidou e a partir dele
foram construídas as formas de se comportar.
A
identificação com as formas de comportamento atribuídas aos
gêneros masculino e feminino é a identidade de gênero. Quem não
se identifica com o binarismo, pode ser chamado/a não binário/a.
Sabe
aquela pessoa que nasceu com pênis, foi educado como menino, se
veste como se afirma que menino tem que se vestir e NÃO TEM APERREIO
ALGUM COM ISSO? Pronto, essa pessoa é o que se pode chamar de
CISGÊNERO, ou simplesmente CIS (a mesma descrição serve para
fêmeas da espécie humana). Mas há também pessoas que não se
identificam com o gênero que lhe atribuíram, a essas se pode nomear
TRANSGÊNEROS ou TRANSEXUAL.
É
importante que se tenha sempre em mente que essas definições compõe
a ânsia classificatória humana, que é cultural e, muitas vezes,
não dá conta do que a vida nos apresenta. Essa vida que não é
classificável, a negação desses, por assim dizer, rótulos, é um
dos aspectos da teoria queer,
assunto de outra postagem.
É um dos conteúdos
mais instigantes das ciências humanas. Extrapola as fronteiras da
Filosofia, História, da Geografia, da Pedagogia, da Sociologia e
essas fronteiras ultrapassadas, muitas vezes, geram entendimentos
polêmicos e sempre passíveis de debate. O primeiro passo deve ser
entender os conceitos de ideologia e suas contradições. Esse
entendimento possibilitará uma abordagem mais ampla e diversa de
possibilidades.
Você já teve que
comparecer a um enterro e foi avisado/a que não deveria usar o
celular e “mostrar respeito” aos parentes de quem faleceu? Já
presenciou situações em que o tipo de roupa que você deveria usar
não tinha em seu guarda-roupa e o aluguel foi a opção para poder
comparecer? Se a resposta foi afirmativa, então você sabe como
ideologias se caracterizam.
Ideologias
prescrevem normas, ou seja, dizem como devemos ou não devemos agir
e, também, estabelecem sanções tanto explícitas quanto implícitas
e as punições para as normas descumpridas, sendo estas as que
afetam a manutenção da harmonia social pretendida. Nesta
perspectiva, ideologia é o conjunto de ideias que organizam
visões de mundo, atribuem sentido à realidade em que se vive.
Tornam possível, enfim, a socialização.
Mas a vida em
sociedade se caracteriza por contradições, como, por exemplo,
riqueza e pobreza e estas contradições também são marcadas por
conteúdo ideológico. Este justificará a legitimidade da
propriedade de uns e o fato de outros não a terem. Essa
justificativa deve garantir a manutenção da propriedade e a
aceitação por parte de quem não tem que os motivos de não terem
são, por assim dizer, justos.
O ponto é que, em
muitas situações, a propriedade é conseguida por meios que não se
caracterizam por serem justos e, sendo sabidos, podem produzir
revoltas, sedições, reivindicações de mudanças. É quando há
necessidade de ideias, de outras explicações, argumentos que
impeçam as revoltas e façam a ordem social ser restaurada ou mesmo
mantida. Aqui a ideologia é o mascaramento da realidade que
garante a naturalização das desigualdades.
Karl Marx foi o pensador que desenvolveu com mais profundidade esta
perspectiva.
É
crucial considerar que a
junção das duas perspectivas possibilita um entendimento mais
diverso das contradições sociais: para que aconteça a socialização
de indivíduos faz-se necessário o mascaramento de alguns aspectos
da realidade. A “ordem social” depende da não aparição de
determinados aspectos. O que se deve também considerar diz respeito
ao uso de ideias, de conjuntos de ideias, de ideologias, que
legitimem desigualdades extremas que impeçam o caminho da plena
humanização.
Tratar de invisibilidade social é abordar a vida em
sociedade a partir da questão: o que é ser alguém?
Pode-se definir invisibilidade social como sendo a situação
em que indivíduos / grupos não são notados. É importante considerar uma
ampliação do que seria ser notado: tanto pode ser a situação em que não se vê
uma pessoa por causa da função que ela desempenha no mundo do trabalho quanto
pode ser a situação em que indivíduos/grupos não usufruem de direitos e as
possibilidades de reivindicarem e terem suas necessidades atendidas é mínima
(em extremos: nula).
O que produz invisibilidade social é a estratificação. Sendo
estratificação a distribuição desigual de riqueza, prestígio e poder e, a
partir desta distribuição, indivíduos ocuparão lugares sociais mais ou menos bem
vistos ou bem quistos. Um exemplo que se pode dar é o do vendedor de picolé que
a mãe não quer que seja seu genro ou da garota de programa que o pai não aceita
como nora.
Os exemplos dados mostram como no mundo do trabalho temos
uma sociedade que legitima algumas profissões e não aceita outras. São as
inaceitáveis que carregam amargamente o manto da invisibilidade social. É importante
identificar que não aceitar não implica não precisar, pois o que se pode
observar é que essa mesma sociedade que não aceita a garota de programa ou o
vendedor de picolé como membros de sua família, grita pelo vendedor na praia e
contrata as “acompanhantes” para animar eventos considerados de alta estirpe.
Exemplos mais contundentes de invisibilidade social no campo
do trabalho são os dos garis, dos “tios e tias” da limpeza em repartições
públicas, empresas etc. Para demonstrar essa invisibilidade, pergunto para você
que lê este texto: sabes o nome daquele que limpa o banheiro da escola em que
estudas? Da moça que está na portaria a quem você recorre para que ligue para
sua família em situação de necessidade? Pronto! Acabas de entender de maneira
prática a invisibilidade no campo do trabalho.
A invisibilidade social extrapola o âmbito do trabalho e
está no campo da cidadania, do usufruto de direitos. Aqui podemos direcionar
nosso olhar para aqueles e aquelas para quem a possibilidade de participar da
riqueza coletiva (direitos sociais) é praticamente nula: são moradores/as de
rua, crianças e adolescentes em situação de risco, pessoas trans,
homoafetivos/as e quem não fizer parte do chamado “padrão”.
Se você já pensou, em alguma situação, algo do tipo: “mas é
só ‘trombadinha’; é só uma mendiga; pra que isso tudo? É só um bêbado!” então
você, sem notar, ostentou o manto da invisibilização social, invisibilização
que não identifica em nenhuma dessas situações a possibilidade de existir ali
um sujeito de direitos, alguém que mereceria, como se diz no cotidiano, alguma
consideração.
Quem, sem saber, usa o manto da invisibilização, não
percebe, mas quem é invisibilizada/o percebe com mestria o que acontece, tanto
no mundo do trabalho quanto nas ruas. No primeiro caso, basta mais atenção para
perceber que funcionárias/os sempre tiram a farda quando termina o dia de
serviço porque dessa forma são percebidos como “gente” (pense se em algum
momento você não se espantou quando percebeu que aquele rapaz tão belo é o
zelador de seu prédio) e, no segundo caso, quando se conversa com eles/as e se
ouve frases do tipo: adianta não, moço, a gente é nada não.
Pessoal que está se preparando para o Sistema Seriado de Avaliação da Universidade de Pernambuco, nesta aula nos trataremos dos conceitos de sociabilidade, socialização e contatos sociais compreendendo como se relacionam com a vida em sociedade.
O século XX é considerado como o século dos extremos, o século que, mesmo tendo cem anos, parece ter durado menos. Essa perspectiva relaciona-se ao fato de ter sido um período de intensas situações. Entre os acontecimentos que contribuíram para o século XX ter essa alcunha estão as guerras.
Só na primeira metade foram duas que foram registradas como mundiais. A partir da segunda metade (1945) foi iniciada a Guerra Fria, caracterizada pelo conflito principalmente ideológico que produziu algumas guerras dentre as quais destaca-se a guerra do Vietnã. Esta guerra movimentou muitas pessoas, tanto para guerrear quanto para contestar sua realização, sua continuidade.
Nessa contestação, destacaram-se jovens - os hippies - entre outras/os que evidenciaram a negação dos horrores da guerra e também o conflito de gerações.
Em 1967, o cantor Reginaldo Rossi gravou Mexerico dos Quadrados, que expõe questionamentos à ordem vigente que não aceitava as atitudes juvenis, que deixavam os cabelos crescerem, trajavam calças jeans e se recusavam a participar das maquinações de um mundo marcado pela barbárie.
Mostra para nós como a produção cultural sofre influências do contexto histórico, social no qual vive o/a artista.
Música é história. #penseFORADACAIXA
MEXERICO DOS QUADRADOS
Seria bom que eles deixassem De falar tanto da nossa geração Seria bom que eles lembrassem No tempo deles, quanta confusão
Ninguém tinha cabelo comprido Mas em compensação eu nem sei por que Fizeram duas guerras sem nexo Enquanto que o meu mal é só dançar yê, yê, yê
Se uso a minha calça apertada Isto não quer dizer que eu seja tantã Talvez eu esteja com medo Que me ponham na guerra do vietnã
O mundo será bem melhor Quando todos eles entenderem que
É bom usar calça apertada Usar cabelo grande e dançar yê, yê, yê
Usar a calça bem apertada O cabelo bem grande e dançar yê, yê, yê