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ARTIGOS

quarta-feira, 1 de março de 2017

WEBER E O CONCEITO DE DOMINAÇÃO



A compreensão das ideias de Weber sobre dominação tem que levar em consideração a definição dele do que é o Estado: (…) uma comunidade humana que, nos limites de um determinado território , (…) reivindica para si própria o monopólio legítimo da violência. A legitimidade desse monopólio está ligada aos três tipos de dominação por ele classificados, a saber:


                                
I. tradicional: entendida como sempre existente, ou seja, a população a ele submetida não considera outra forma de exercício da autoridade;

                                
II. carismática: a população obedece pois acredita em supostas qualidades fora do comum que a liderança tem. Seria a crença em alguém para “salvar a pátria” de todos os problemas e de todas as necessidades;

                                
III. legal: se legitima através das leis. Grande exemplo dos regimes republicanos contemporâneos em que a presidência é exercida por quem foi eleito dentro das regras legais do processo eleitoral.

A letra da canção HINO DE DURAN, de Chico Buarque, pode nos ajudar a compreender a ideia de Weber sobre dominação:

HINO DE DURAN

Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas sussurros ardis
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar

Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X

Se vives nas sombras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam

E se definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor

A lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus
Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais

A lei logo vai te abraçar infrator
com seus braços de estivador
Se pensas que pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr. Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar...
 







terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CARNAVAL, FANTASIAS, CABELOS AFRO E CONSCIÊNCIA COLETIVA

A maneira como uma sociedade se diverte é também como essa sociedade se vê. Muitas tensões sociais podem ser identificadas em momentos festivos. O carnaval pode ser um laboratório dos mais instigantes e reveladores das formas brasileiras de lidar com questões específicas, como classe, gênero, etnia etc.

Pensemos nas fantasias: homens “viram” mulheres, mulheres “viram” homens, crianças são fantasiadas como adultos/as e assim, carnavalescamente, se vai. Ao pensar nas fantasias, quem nunca viu ou mesmo se fantasiou com perucas estilo “black power”? Ou ainda com dreadlocks? Ou mesmo filás com as cores verde, vermelha e amarela? Pois é, muitas pessoas. Mas vale aqui pensar um pouco além sobre essas fantasias, mesmo porque elas colocam como elemento festivo (zombeteiro às vezes) uma pessoa, o cabelo que ela ostenta, aspectos de seu corpo.


O que se quer dizer aqui é que muito dificilmente se vê cabelos lisos como adereços, fantasias para o carnaval. Mas se vê cabelos lisos sendo vendidos e comprados a preços elevadíssimos, sendo inclusive postados anúncios e cartazes comunicando: “compramos cabelos humanos”. É aqui que podemos inserir uma chave de leitura e de entendimento: cabelos de pessoas negras são para fantasias, para festas e cabelos lisos, não. Estes, ao serem vendidos e comprados, aparecem com mais valor agregado do que outros tipos, outras fibras.

Sendo consciência coletiva o conjunto de crenças e sentimentos que compõem a visão de mundo da média da população de uma sociedade, então o uso de cabelos estilo “black power” como fantasia demonstra a maneira da nossa sociedade enxergar a população afrodescendente. É colocada em um local hierarquicamente inferior, não humano, digno, muitas vezes, de piada, de risos.

Tranças afro presas em filás, dreadlocks, perucas estilo “black power” sendo vendidas como fantasias demonstram o lugar de coisa que a população negra tem no imaginário brasileiro, na consciência coletiva de muitos setores do país. A discriminação acontece muitas vezes de maneira explicita, mas é de forma implícita que ela é construída com mais solidez.

Sendo a educação um processo que ocorre em parceria com o processo de socialização, então estamos o tempo inteiro sob processos educacionais que nos direcionam o olhar e os sentimentos sobre o mundo e as pessoas que estão ao redor. Essa chave de leitura e entendimento que tem como ponto de partida as fantasias de carnaval pode ser estendida para filmes, seriados, telenovelas e vários produtos culturais.

Não cabe aqui afirmar de imediato que é verdade ou não, mas pensar sobre a situação: quando ter a pele clara, o cabelo liso, os olhos verdes ou azuis é motivo de piada ou mesmo é fantasia? E mesmo que isso aconteça, esses casos confirmam o que a consciência coletiva é, ou seja, o que a maior parte das pessoas pensa sobre si e sobre outras/os e, nesse caso, a população afrodescendente ainda é colocada em posição de subalternidade no imaginário coletivo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

CAMARO AMARELO E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL - SOCIOLOGIA E MÚSICA

As canções são uma importante fonte para compreensão das formas de pensar de uma sociedade, principalmente pelo que podemos descobrir nelas enquanto o jeito com o qual uma sociedade se vê, guardando a contradição entre como uma sociedade se vê e como ela é.

A canção Camaro Amarelo, de Munhoz e Mariano pode ser analisada a partir do que revelam sobre status e papel social. Eis a letra:





Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce
Agora eu fiquei do-do-do-do-doce, doce [2x]

Agora eu fiquei doce igual caramelo
Tô tirando onda de camaro amarelo
Agora você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando eu passo no camaro amarelo



Quando eu passava por você na minha CG
Você nem me olhava
Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber
Mas nem me olhava
Aí veio a herança do meu ‘véio',
Resolveu os meus problemas, minha situação
E do dia pra noite fiquei rico
Tô na grife, tô bonito
Tô andando igual patrão

Agora eu fiquei doce igual caramelo
Tô tirando onda de camaro amarelo
Agora você diz: "Vem cá que eu te quero!"
Quando eu passo no camaro amarelo

Agora você vem, né? E agora você quer, né?
Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher
Agora você vem, né? E agora você quer, né?
Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher

Status (ou posição social) diz respeito ao local que  indivíduos e grupos ocupam em uma sociedade. Essa posição pode ser atribuída e adquirida, ou seja, nos colocam em determinados locais sociais a partir de elementos que não escolhemos (ser filha/o de tais pais e mães, netas/os de tal avô) e dos elementos que tem relação com o que fazemos, com as nossas ações (bom filho, ótima cirurgiã etc.).

A canção expõe uma situação de distribuição desigual de prestígio a partir da posição social que é atribuída ao indivíduo pelo bem material que ele possuía – a moto modelo CG. No caso ele não era “visto”, não era percebido apesar do esforço que ele empreendia. Podemos entender o status que é atribuído ao indivíduo por causa do bem material que ele tem e que nesse caso é uma posição rebaixada, relacionada com a suposta baixa qualidade da motocicleta.

O status que é atribuído a ele muda quando ele recebe a herança do “véio”, pois, a partir daquele momento ele pôde adquirir bens materiais de suposta qualidade maior, no caso um automóvel tipo camaro e de cor amarela, que dá título a canção. Ele passa a receber atenção que antes, com a moto de qualidade duvidosa, não tinha e tanto desejava.
 
Ao mesmo tempo a canção contribui para a manutenção de uma imagem de mulher como sendo atraída por bens materiais. Na canção, antes da herança e do camaro, não havia atração aparente e, depois do camaro, “tá sobrando mulher”. Atribui-se uma posição social de “interesseira” que reafirma uma construção histórica de décadas e décadas.

Nesse ponto chega-se ao papel social, o conjunto de comportamentos que se espera de alguém, de um grupo a partir da posição que ele ocupa. A canção fortalece a ideia de que quem tem dinheiro para além do que necessita, ostenta, esbanja e, para as mulheres, de que se aproximarão de quem tiver mais bens materiais para oferecer.


A perspectiva aqui não é julgar comportamentos, mas instrumentalizar o olhar a partir dos conceitos de status e papel sociais e identificar como, no cotidiano, ocorre a construção e reafirmação de conjuntos de ideias que compõe nossas formas de agir, pensar e mesmo de sentir (uma das definições de ideologia).


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

POR OUTRO LADO: ASSISTIR AULAS X GARANTIR AULAS – sobre as ocupações

A recente onda de ocupações nas escolas de ensino médio e universidades de todo o país expõe essa oposição e permite identificar que o usufruto dos nossos direitos pode implicar, algumas vezes, que outras pessoas não usufruam dos delas. O caso das ocupações é um deles: temos o direito à educação entrando em conflito com – uou! – o direito à educação. Grupos de estudantes ocupam escolas e as aulas são paradas. Estudantes que querem assistir às aulas questionam e acham ruim não poderem ter o direito de estudar e, mais ainda, se vêm obrigados/as a participar de um movimento que os prejudica.

Por outro lado, o que se está reivindicando é o mesmo direito à educação que os/as ocupantes se organizam para ampliar e mesmo garantir com alguma qualidade, considerando a situação precária de muitas escolas, a falta de professores/as que sejam efetivamente das disciplinas que lecionam (sabe-se que aulas de matemática são ministradas por professoras/es graduadas/os em biologia e outras variações) e contra a retirada da obrigatoriedade de aulas de educação física, artes, filosofia, sociologia (o autor deste texto treme com estas últimas).

Seria algo do tipo: estudantes que querem gozar do direito de assistir às aulas X estudantes que querem garantir a manutenção e ampliação do direito de assistir às aulas e à educação de qualidade. Essa situação de conflito é ampliada quando se classificam em “estudantes alienados/as” (os que são contra as ocupações) e “estudantes engajados/as” (os que ocupam) um grupo que é todo formado por ESTUDANTES.

Não se trata de botar gosto ruim nas ocupações ou de defender que as aulas sigam sem interrupções, mas sim de perceber as contradições, que são muito importantes para serem tratadas de forma simples (simplória) e, nesse sentido, caberiam questionamentos: a quem interessa que indivíduos de um mesmo grupo (os estudantes) briguem entre si?  Será que são alienadas/os quem não concorda em perder aulas e mesmo o ENEM? Ou seriam alienados/as os/as que foram produzidos/as por uma sociedade que passa o tempo inteiro afirmando individualismo em frases como “se eu não fizer por mim, ninguém fará!”?

Será que são baderneiros/as quem ocupa as escolas ou são aqueles/as que cansaram de ser “o futuro da nação” e decidiram assumir o projeto do próprio futuro?

A ocupação de escolas e universidades é violenta, mas pagar mal professoras/es, excluir disciplinas através de uma reforma que não dialoga verdadeiramente com quem será afetada/o não é violência?

Citando Brecht, o Bertolt:

Tantos relatos.
Tantas perguntas.


Mais importante: pense sobre isso.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

POR OUTRO LADO: SOBRE ESFORÇO E DIREITOS

De tempos em tempos circula pelas redes sociais fotos de crianças estudando ou se esforçando para estudar mesmo em situação precária, desumana. Geralmente bastante compartilhadas, essas fotos enfatizam o esforço do/a jovem que, em estrutura inóspita, segue adiante em busca de “ser alguém” que só o estudo parece garantir.

Antes de seguir a leitura, um aviso: não se nega a importância e a beleza do esforço, mas se propõe outros olhares e, pode ser, que incomode seja gerado incômodo. Mas, como teria afirmado o filósofo Sócrates: uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida. Sigamos, então.




O aspecto que merece maior observação é que o esforço dessas crianças atrai mais atenção do que a falta de condições para o aprendizado adequado, assim, fazendo parecer que não há outras instâncias que têm relação direta com a situação. Aqui a referência é ao Estado, instituição que deve (ou deveria) garantir educação básica de qualidade para todas/os.

Em outras palavras, não se critica o esforço de quem “luta contra todas as adversidades”, mas se deseja chamar atenção para o que causa a adversidade em questão. É a falta de estrutura básica (direitos que deveriam ser universais) que força milhares de jovens no mundo inteiro a ter que vender verduras enquanto estudam, a aproveitar luzes de postes no meio da rua para poder resolver contas e sentar em latas de lixo porque sequer há carteiras nas escolas.


As raras situações em que alguns são bem sucedidos/as não diz, de maneira alguma, que quem não conseguiu não se esforçou, e sim denuncia a falta de condições reais para que todas/os possam “chegar lá”. O perigo do aplauso isolado de um olhar mais conjuntural é deixar subentendido que o esforço individual pode substituir as condições básicas não havendo necessidade de reivindicá-las.




sábado, 24 de setembro de 2016

GÊNERO - INTRODUÇÃO BEM INTRODUTÓRIA

Gênero. Esta palavra, nos últimos tempos no Brasil, tem gerado muitos aperreios, muitas discussões. Fala-se de ideologia de gênero, ditadura de gênero e, na maior parte das vezes, não se sabe direito do que se está falando.

O primeiro passo é entender do que se fala e, nesse sentido, é fundamental ter em mente alguns termos, a saber: sexo biológico, gênero, sexualidade, identidade de gênero. Pois bem, agora é o momento de lembrar, a você que lê este texto, que o objetivo aqui é expor elementos para que possamos compreender um pouco mais o que se está debatendo, discutindo e não convencer sobre qualquer ideia, pensamento ou teoria.

SEXO BIOLÓGICO
É a característica física, principalmente externa que diferencia um macho de uma fêmea. De maneira bem direta: diz respeito à genitália com a qual se nasce. Levando em consideração essa definição, a frase não seria “é um menino!”, “é uma menina!” e sim “é um macho!”, “é uma fêmea!”. Afirmar que é menino ou menina é a inserção de cultura no que é biológico.

É assim: a partir da identificação da característica física começa a organização do mundo ao redor da futura criança. Acompanhe: identificou a presença de um pênis, escolheu um nome que se relacione com o órgão genital, será João, José, Antonio, Roberval e não Maria, Joana, Carla ou Jezebel, pois estes últimos seriam “nomes de menina”.

O enxoval será recheado de peças de cor azul e suas variações. As estampas das roupas provavelmente terão a imagem de um super-heroi, um personagem portador de um pênis tal qual a criança nascerá com um. Uma vez tendo nascido, lhe será ensinado como meninos devem agir, falar (a clássica frase: “fale feito homem!”). Será levado a jogar futebol ou qualquer esporte que se caracterize primordialmente pelo uso da força.

Isso é GêNERO, ou seja, a atribuição de elementos culturais às características físicas com as quais se nasce. Gênero é construção histórica, é comportamento atribuído a partir da genitália. É quando se diz que “menina é delicada e menino é porco mesmo!”. É o processo de naturalização de ações, de formas de sentir e de pensar que são elaboradas socialmente, não se nasce sabendo ser homem ou mulher mas se aprende.

Como temos uma herança natural, animal, feito outros mamíferos, então reproduzimos e nossa reprodução é por via física, de intercurso sexual. O sexo teria, então, função reprodutiva. Pois bem, pensemos sobre isso: a finalidade do sexo é a reprodução e para a geração de descendentes férteis é necessário o contato entre pênis e vagina, entre macho e fêmea, entre homens e mulheres.

Esse contato caracteriza-se pelo prazer (sem ser gostosinho, provavelmente não seria atraente) que nos leva a querer praticar o ato. Entretanto, é importante considerar que nossa espécie superou as designações da natureza, o determinismo das funções naturais da atividade sexual (outras funções naturais também foram superadas e não apenas a sexual) e, a partir da cultura – que nos diferencia de outros animais – atribuiu outros sentidos ao ato.


Além da função reprodutiva, o ato sexual recebeu outra função: a recreativa, ou seja, praticamos sexo sem obrigatoriamente desejarmos gerar descendentes fertéis. Você, provavelmente, ao namorar não dá beijinhos no seu namorado/a com a ideia de ser pai/mãe mas sim porque aquele beijo te dá “um negócio massa!” que te faz desejar outras vezes e outras pessoas também (ou não).

Quem se deseja é parte da sexualidade, ou seja, sexualidade diz respeito à orientação do desejo, ao que atrai você em outra pessoa. Costuma-se definir esse desejo a partir do binarismo, podendo ser este de duas perspectivas, a saber: binarismo sexual (heterossexual – homossexual) e binarismo de gênero (feminino – masculino).

Pense na seguinte situação: digamos que você é uma moça e, durante a aula a porta é aberta e por ela passa um rapaz e, sem que você controle, sua barriga fica fria, você tenta desviar o olhar dele e não consegue (ou só quando ele te olha). Você sente uma vontade muito grande de abracá-lo, aliás, vontade não, desejo e, para intensificar a situação, seu coração dispara.

A partir do binarismo sexual que caracteriza a forma mais comum de orientação do desejo, a relação descrita é heterossexual, ou seja, indivíduos de sexos biológicos diferentes se atraem. Se pensarmos de acordo com a necessidade de reprodução, seria a forma mais adequada de se relacionar. Se, no entanto, pensarmos no que já foi citado acima sobre a superação do determinismo biológico e enveredarmos nos caminhos do prazer, seria UMA forma de sentir, de se relacionar. Nem melhor, nem pior, mas UMA forma.

O que foi construído historicamente é que a ÚNICA forma legítima, correta, aceita de orientação do desejo é a heterossexualidade. Como não havia espaço para outras (ou espaço de aceitação) o modelo com finalidades reprodutivas se consolidou e a partir dele foram construídas as formas de se comportar.

A identificação com as formas de comportamento atribuídas aos gêneros masculino e feminino é a identidade de gênero. Quem não se identifica com o binarismo, pode ser chamado/a não binário/a.

Sabe aquela pessoa que nasceu com pênis, foi educado como menino, se veste como se afirma que menino tem que se vestir e NÃO TEM APERREIO ALGUM COM ISSO? Pronto, essa pessoa é o que se pode chamar de CISGÊNERO, ou simplesmente CIS (a mesma descrição serve para fêmeas da espécie humana). Mas há também pessoas que não se identificam com o gênero que lhe atribuíram, a essas se pode nomear TRANSGÊNEROS ou TRANSEXUAL.

É importante que se tenha sempre em mente que essas definições compõe a ânsia classificatória humana, que é cultural e, muitas vezes, não dá conta do que a vida nos apresenta. Essa vida que não é classificável, a negação desses, por assim dizer, rótulos, é um dos aspectos da teoria queer, assunto de outra postagem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SOBRE IDEOLOGIAS

É um dos conteúdos mais instigantes das ciências humanas. Extrapola as fronteiras da Filosofia, História, da Geografia, da Pedagogia, da Sociologia e essas fronteiras ultrapassadas, muitas vezes, geram entendimentos polêmicos e sempre passíveis de debate. O primeiro passo deve ser entender os conceitos de ideologia e suas contradições. Esse entendimento possibilitará uma abordagem mais ampla e diversa de possibilidades.

Você já teve que comparecer a um enterro e foi avisado/a que não deveria usar o celular e “mostrar respeito” aos parentes de quem faleceu? Já presenciou situações em que o tipo de roupa que você deveria usar não tinha em seu guarda-roupa e o aluguel foi a opção para poder comparecer? Se a resposta foi afirmativa, então você sabe como ideologias se caracterizam.

Ideologias prescrevem normas, ou seja, dizem como devemos ou não devemos agir e, também, estabelecem sanções tanto explícitas quanto implícitas e as punições para as normas descumpridas, sendo estas as que afetam a manutenção da harmonia social pretendida. Nesta perspectiva, ideologia é o conjunto de ideias que organizam visões de mundo, atribuem sentido à realidade em que se vive. Tornam possível, enfim, a socialização.

Mas a vida em sociedade se caracteriza por contradições, como, por exemplo, riqueza e pobreza e estas contradições também são marcadas por conteúdo ideológico. Este justificará a legitimidade da propriedade de uns e o fato de outros não a terem. Essa justificativa deve garantir a manutenção da propriedade e a aceitação por parte de quem não tem que os motivos de não terem são, por assim dizer, justos.

O ponto é que, em muitas situações, a propriedade é conseguida por meios que não se caracterizam por serem justos e, sendo sabidos, podem produzir revoltas, sedições, reivindicações de mudanças. É quando há necessidade de ideias, de outras explicações, argumentos que impeçam as revoltas e façam a ordem social ser restaurada ou mesmo mantida. Aqui a ideologia é o mascaramento da realidade que garante a naturalização das desigualdades. Karl Marx foi o pensador que desenvolveu com mais profundidade esta perspectiva.


É crucial considerar que a junção das duas perspectivas possibilita um entendimento mais diverso das contradições sociais: para que aconteça a socialização de indivíduos faz-se necessário o mascaramento de alguns aspectos da realidade. A “ordem social” depende da não aparição de determinados aspectos. O que se deve também considerar diz respeito ao uso de ideias, de conjuntos de ideias, de ideologias, que legitimem desigualdades extremas que impeçam o caminho da plena humanização.











terça-feira, 20 de setembro de 2016

INVISIBILIDADE SOCIAL

Tratar de invisibilidade social é abordar a vida em sociedade a partir da questão: o que é ser alguém?

Pode-se definir invisibilidade social como sendo a situação em que indivíduos / grupos não são notados. É importante considerar uma ampliação do que seria ser notado: tanto pode ser a situação em que não se vê uma pessoa por causa da função que ela desempenha no mundo do trabalho quanto pode ser a situação em que indivíduos/grupos não usufruem de direitos e as possibilidades de reivindicarem e terem suas necessidades atendidas é mínima (em extremos: nula).

O que produz invisibilidade social é a estratificação. Sendo estratificação a distribuição desigual de riqueza, prestígio e poder e, a partir desta distribuição, indivíduos ocuparão lugares sociais mais ou menos bem vistos ou bem quistos. Um exemplo que se pode dar é o do vendedor de picolé que a mãe não quer que seja seu genro ou da garota de programa que o pai não aceita como nora.

Os exemplos dados mostram como no mundo do trabalho temos uma sociedade que legitima algumas profissões e não aceita outras. São as inaceitáveis que carregam amargamente o manto da invisibilidade social. É importante identificar que não aceitar não implica não precisar, pois o que se pode observar é que essa mesma sociedade que não aceita a garota de programa ou o vendedor de picolé como membros de sua família, grita pelo vendedor na praia e contrata as “acompanhantes” para animar eventos considerados de alta estirpe.

Exemplos mais contundentes de invisibilidade social no campo do trabalho são os dos garis, dos “tios e tias” da limpeza em repartições públicas, empresas etc. Para demonstrar essa invisibilidade, pergunto para você que lê este texto: sabes o nome daquele que limpa o banheiro da escola em que estudas? Da moça que está na portaria a quem você recorre para que ligue para sua família em situação de necessidade? Pronto! Acabas de entender de maneira prática a invisibilidade no campo do trabalho.

A invisibilidade social extrapola o âmbito do trabalho e está no campo da cidadania, do usufruto de direitos. Aqui podemos direcionar nosso olhar para aqueles e aquelas para quem a possibilidade de participar da riqueza coletiva (direitos sociais) é praticamente nula: são moradores/as de rua, crianças e adolescentes em situação de risco, pessoas trans, homoafetivos/as e quem não fizer parte do chamado “padrão”.

Se você já pensou, em alguma situação, algo do tipo: “mas é só ‘trombadinha’; é só uma mendiga; pra que isso tudo? É só um bêbado!” então você, sem notar, ostentou o manto da invisibilização social, invisibilização que não identifica em nenhuma dessas situações a possibilidade de existir ali um sujeito de direitos, alguém que mereceria, como se diz no cotidiano, alguma consideração.


Quem, sem saber, usa o manto da invisibilização, não percebe, mas quem é invisibilizada/o percebe com mestria o que acontece, tanto no mundo do trabalho quanto nas ruas. No primeiro caso, basta mais atenção para perceber que funcionárias/os sempre tiram a farda quando termina o dia de serviço porque dessa forma são percebidos como “gente” (pense se em algum momento você não se espantou quando percebeu que aquele rapaz tão belo é o zelador de seu prédio) e, no segundo caso, quando se conversa com eles/as e se ouve frases do tipo: adianta não, moço, a gente é nada não.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

SERIADO UPE - 1º ANO - SOCIABILIDADE, SOCIALIZAÇÃO E CONTATOS SOCIAIS

Pessoal que está se preparando para o Sistema Seriado de Avaliação da Universidade de Pernambuco, nesta aula nos trataremos dos conceitos de sociabilidade, socialização e contatos sociais compreendendo como se relacionam com a vida em sociedade.



terça-feira, 17 de novembro de 2015

MINIDICIONÁRIO SOBRE GÊNERO

Eis o que significam alguns dos termos mencionados quando são tratadas as questões de gênero.
O primeiro passo para debater confiavelmente algum assunto é estar por dentro dele.






FONTE: Revista Galileu - ed. 292 - novembro 2015

domingo, 30 de agosto de 2015

ENEM - HISTÓRIA - GUERRA FRIA, CONTESTAÇÕES E REGINALDO ROSSI

O século XX é considerado como o século dos extremos, o século que, mesmo tendo cem anos, parece ter durado menos. Essa perspectiva relaciona-se ao fato de ter sido um período de intensas situações. Entre os acontecimentos que contribuíram para o século XX ter essa alcunha estão as guerras.

Só na primeira metade foram duas que foram registradas como mundiais. A partir da segunda metade (1945) foi iniciada a Guerra Fria, caracterizada pelo conflito principalmente ideológico que produziu algumas guerras dentre as quais destaca-se a guerra do Vietnã. Esta guerra movimentou muitas pessoas, tanto para guerrear quanto para contestar sua realização, sua continuidade.

Nessa contestação, destacaram-se jovens - os hippies - entre outras/os que evidenciaram a negação dos horrores da guerra e também o conflito de gerações.

Em 1967, o cantor Reginaldo Rossi gravou Mexerico dos Quadrados, que expõe questionamentos à ordem vigente que não aceitava as atitudes juvenis, que deixavam os cabelos crescerem, trajavam calças jeans e se recusavam a participar das maquinações de um mundo marcado pela barbárie.

Mostra para nós como a produção cultural sofre influências do contexto histórico, social no qual vive o/a artista.

Música é história.


#penseFORADACAIXA

MEXERICO DOS QUADRADOS

Seria bom que eles deixassem
De falar tanto da nossa geração
Seria bom que eles lembrassem
No tempo deles, quanta confusão

Ninguém tinha cabelo comprido
Mas em compensação eu nem sei por que
Fizeram duas guerras sem nexo
Enquanto que o meu mal é só dançar yê, yê, yê

Se uso a minha calça apertada
Isto não quer dizer que eu seja tantã
Talvez eu esteja com medo
Que me ponham na guerra do vietnã

O mundo será bem melhor
Quando todos eles entenderem que

É bom usar calça apertada
Usar cabelo grande e dançar yê, yê, yê

Usar a calça bem apertada
O cabelo bem grande e dançar yê, yê, yê

sábado, 29 de agosto de 2015

ENEM - HISTÓRIA - TROPICALISMO E CONTRADIÇÕES SOCIAIS BRASILEIRAS

O Tropicalismo foi o movimento político, artístico - cultural, enfim, que surgiu no Brasil em uma situação de questionamento acerca do que era o país, de tentar descobrir o que seríamos. Não se deve considerar o Tropicalismo como algo fechado pois buscou e dialogou com várias áreas, destacando o que se convencionou designar como indústria cultural. Há muita influência também da Semana de Arte Moderna e sua antropofagia.

Experimentalismo e exposição-denúncia de muitas das mazelas que a chamada modernização industrial trazia para o país podemos ver na produção tropicalista. Em PARQUE INDUSTRIAL, de Tom Zé, temos um desfile das contradições que tomavam contas das cidades que se tornavam grandes no Brasil. A industrialização é mostrada como arauto da salvação brasileira. A modernidade da cultura de massa informa, ao mesmo tempo, sobre a futilidade e o suposto desmoronamento dos valores morais e expunha a violência cotidiana através dos jornais populares.

Uma grande provocação.

Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.

Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.

Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz

Pois temos o sorriso engarrafadão
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Porque é made, made, made, made in Brazil.

Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.

A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar.

É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar,
É somente folhear e usar.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

ENEM - CORRUPÇÃO, RESPONSABILIZAÇÃO E ZECA BALEIRO

Um dos assuntos mais discutidos no Brasil neste ano é a corrupção e há grandes chances de ser tratada no ENEM. 

Uma forma de abordar o tema é começar definindo corrupção: usar o poder público para obter ou fornecer vantagens, sendo estas tanto interesses quanto dinheiro que, neste caso, por ser dinheiro público, oriundo das cobranças de impostos, configura-se crime contra a sociedade.

É muito comum não se perceber as contradições presentes nas reivindicações de punição contra corruptos/as. Muitos/as brasileiros/as nos orgulhamos de, sempre que necessário, conseguirmos "dar um jeito", o "jeitinho brasileiro". Muitas vezes esse "jeitinho" caracteriza-se pela resolução dos problemas através de artifícios ilegais ou imorais.

Usufruir do fato de conhecer alguém que possa "apagar" a multa recebida corretamente, oferecer uma troca de favores, pedir que o/a colega assine o nome para não levar falta na aula que não se quer assistir, oferecer um brinquedo novo para a criança se ela aumentar as notas no boletim escolar (nesse caso mostra-se para a criança uma forma de conseguir algo que precisa de esforço para superar dificuldades) são exemplos cotidianos, comuns que mostram a contradição entre ser contrário ao cenário político marcado por muita corrupção e, no dia a dia, cometer atos corruptos.

É fundamental que nos responsabilizemos pelos nossos atos. Não importa de qual partido se faça parte ou seja simpatizante. Não deve pender a balança da justiça para favorecer nenhum lado. O que deve-se atentar é para a indignação seletiva que toma conta das ruas e que parece que somos, cada um, um oásis de honestidade cercado por um deserto de desonestos/as.

RESPONSABILIZAÇÃO é a palavra que deve ser colocada em prática. POR TODAS/OS!

Zeca Baleiro pode nos ajudar a começar a pensar sobre o assunto.

FUNK DA LAMA

Tanto faz se é Ivete ou Shakira,
Tanto faz se é Sá, Rodrix ou Guarabira
Você vai ter que responder pelo que faz
Você vai ter que responder pelo que diz

Tanto faz se é pratão ou se é pelego
Tanto faz se é Pelé ou se é Diego
Você vai ter que responder pelo que faz
Você vai ter que responder pelo que diz

Bota a mão nas cadeiras
Vai até o chão com graça
A moral do chão não passa
Bota a mão nas cadeiras
Dança com malemolência
Bota a mão na consciência.

Vem cachorra, nem precisa de cama
O mundo tá atoladinho
O mundo tá atoladinho na lama

Vem cachorra, nem precisa de cama
O mundo tá atoladinho
O mundo tá atoladinho na lama

Tanto faz se é Demóstenes ou Palocci
Se é Fábio Melo ou Marcelo Rossi
Você vai ter que responder pelo que faz,
Você vai ter que responder pelo que diz

Tanto faz se Homem do Ano ou Mulher-Pera
Tanto faz se é Bolsonaro ou se é Gabeira
Você vai ter que responder pelo que faz
Você vai ter que responder pelo que diz

Bota a mão nas cadeiras
Vai ate o chão com graça
A moral do chão não passa
Bota a mão nas cadeiras
Dança com malemolência
Bota a mão na consciência

Vem cachorra, nem precisa de cama
O mundo tá atoladinho
O mundo tá atoladinho na lama









terça-feira, 7 de julho de 2015

O QUE JOGOS VORAZES PODE NOS DIZER SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Em tempos de clamores significativos contra e a favor da redução da maioridade penal, o filme JOGOS VORAZES pode nos dizer algumas coisas, afinal, a produção cultural de uma época é um espelho de suas contradições e afins.

A primeira é que não estamos tratando bem nossas crianças e jovens.  Não há uma política efetiva para a juventude brasileira, principalmente para a que reside nos bairros pobres (de periferia) ou pelas ruas das cidades. Quem é de família mais abastada já tem sua política para seus jovens, que inclui educação de qualidade, saúde, segurança, uma vida, enfim.

No filme esse ponto se vê a partir do futuro que é garantido para as crianças e jovens dos distritos: continuar trabalhando e vivendo do mesmo jeito, produzindo o que é necessário para a vida da Capital ou participar dos Jogos que garantem a morte de vinte três jovens. Apenas um/a vencerá.

 Metáfora interessante que pode ser verificada no Brasil através dos exemplos de pouquíssimos jovens de periferia que conseguem sobreviver em meios às péssimas condições de vida.

No filme, vence quem mata os/as concorrentes. Aqui o Estado mata quando não garante as condições ou mata através dos aparelhos repressivos.

Vence quem consegue sobreviver sem matar e ainda acredita que as outras pessoas também podem conseguir. Coroando a ideologia do liberalismo e a valorização do individualismo não percebem que são exceções que CONFIRMAM a regra: criança e jovem pobre (e negra/o) devem morrer.

Tanto na distopia de Jogos Vorazes quanto no Brasil no qual vivemos, não são as crianças nem os jovens que decidem o próprio futuro, mas são os/as adultos/as.

A reação de Katniss direciona contra ela a fúria da Capital. Aqui muitos/as crianças e jovens reagem buscando sobreviver e sendo violentas contra uma estrutura que as violenta desde que ela nasceu.

Focar apenas nas crianças e jovens que cometem os crimes é incorrer em erro e intensificar a barbárie que nos circunda. Não se trata de proteger quem comete crimes, mas de buscar soluções alternativas, uma vez que o encarceramento sem garantias de condições mínimas de saúde e sanitárias  (que é o padrão das instituições carcerárias brasileiras) já se mostrou ineficaz há tempos.

Se não repensarmos e realizarmos mudanças, a arena dos Jogos Vorazes vai se estender das periferias e favelas e, inevitavelmente, atingirá a Capital, metáfora interessante de cada um de nós no conforto de nossas precárias seguranças.

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sábado, 4 de julho de 2015

A "NÊGA" DO JORNAL, EMICIDA E O EMPODERAMENTO QUE INCOMODA

A "NÊGA" DO JORNAL, EMICIDA E O EMPODERAMENTO QUE INCOMODA

Essa semana as redes sociais foram tomadas (mais uma vez) pela repercussão do racismo do vizinho, que xingou a apresentadora do jornal - o nacional, da globo - a rede.

O caso oferece mais um (de novo) exemplo do racismo que compõe a nossa sociedade, que compõe cada um de nós. Mas o racismo que foi para as redes sociais é só a culminância daquele que está em todas as relações cotidianas, desde as de trabalho, passando pelas televisivas e, principalmente nas amigáveis da mesa de bar, das festas, das rodas de conversa, das piadas contadas e sorridas.

Uma forma de entender os comentários racistas (além do óbvio racismo) diz respeito a um processo maior: o de empoderamento da população negra. Comecemos entendendo o que é empoderamento.

Empoderar pode ser entendido como fortalecer e, se formos estender, assumir o poder. Muitos grupos que historicamente não participavam de maneira tão ativa da vida política e mesmo cotidiana estão cada vez mais nas ruas e também nas instituições da política "oficial".

Mas também estão "aparecendo", indo além. Aqui a referência é para a população negra. Ao usar o termo "aparecendo" faz-se referência visual mesmo: é cada vez maior o número de pessoas que "assumem" o cabelo crespo, que deixam de lado as chapinhas, os alisamentos.

Ao fazerem isso trazem para si os olhares que não estão acostumados, os aperreios (culturalmente adquiridos) de verem, isso mesmo, VEREM negros e negras.

E com o aumento do poder financeiro de parte da população negra, além do acesso aos cursos universitários, temos profissionais muito competentes em cargos que antes era-lhes vedada a participação, "incomodando" quem sempre teve a possibilidade de ter acesso àqueles espaços.

Há uma espécie de "outrofobia" cada vez maior, cada vez mais praticada. Esse temor do/a outro/a é temor de mudança e nesse caso da Maria Julia Coutinho é o que se pode identificar.

Se formos pensar em um quadro mais apocalíptico ainda (para esses seres outrofóbicos, racistas) teríamos um temor de uma reação efetiva da população que está nas periferias, favelas, amargando as mazelas da humanidade turbinadas pelo sistema econômico.

"Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço"

Trecho do recente clipe de Emicida nos dá um exemplo dessa possibilidade. Possibilidade temerosamente real - para os/as odiadores/as.

Boa Esperança
Emicida
 
Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão!
Bomba relógio prestes a estourar

O tempero do mar foi lágrima de preto
Papo reto como esqueletos de outro dialeto
Só desafeto, vida de inseto, imundo
Indenização? Fama de vagabundo
Nação sem teto, Angola, Keto, Congo, Soweto
A cor de Eto'o, maioria nos gueto
Monstro sequestro, capta-tês, rapta
Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis
Tipo campos de concentração, prantos em vão
Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta (ou não)
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu – extinção

Depressão no convés
Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois
Pique Jack-ass, mistério tipo lago Ness
Sério és, tema da faculdade em que não pode por os pés
Vocês sabem, eu sei
Que até Bin Laden é made in USA
Tempo doido onde a KKK, veste Obey (é quente memo)
Pode olhar num falei?

Aê, nessa equação, chata, polícia mata – Plow!
Médico salva? Não!
Por quê? Cor de ladrão
Desacato, invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
Meu sangue na mão dos radical cristão
Transcendental questão, não choca opinião
Silêncio e cara no chão, conhece?
Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece
Vence o Datena com luto e audiência
Cura, baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era Cyber, cêis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual burkina faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo Moisés e os Hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(Cê é loco meu!)
No veneno igual água e sódio (vai, vai, vai)
Vai vendo sem custódio
Aguarde cenas no próximo episódio
Cês diz que nosso pau é grande
Espera até ver nosso ódio

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão
Bomba relógio prestes a estourar

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O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO E O CONCEITO DE FATO SOCIAL DE ÉMILE DURKHEIM

A literatura pode nos ajudar muito a compreender nossa própria existência e mesmo alguns conceitos sociológicos.
Émile Durkheim é um dos quatro cavaleiros da Sociologia clássica e elaborou o conceito de FATO SOCIAL. As formas coletivas de sentir, de pensar e agir são FATOS SOCIAIS.
Entre eles podemos identificar desde o uso de determinadas roupas, passando pelas formas de acreditar na existência de forças sobrenaturais que regeriam nossas vidas até o idioma que falamos e através dele nos expressamos.
O conto O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO, de João do Rio, pode ser lido como uma magistral demonstração das formas coletivas que regem nossa vida e nos impelem a agir mesmo quando não estamos interessados ou querendo.
Podemos ampliar a reflexão para libertação do controle das formas de pensar. Pensar deve ser angustiante, mobilizador, deve criar o estranhamento que possibilita o PENSAR FORA DA CAIXA e, a partir daí, agir e sentir também.

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quarta-feira, 1 de julho de 2015

BRAGA BOYS, EDUCAÇÃO CORPORAL E PRISÃO DOS CORPOS PARA EDUCAÇÃO DAS MENTES

Quando se fala em educação a imagem que se forma quase imediatamente é a de uma sala de aula com alguém falando e muita gente escutando (aparentemente). Ou de alguém lendo, escrevendo. Sempre sem movimento ou com movimentos reduzidíssimos.

Não se fala em educação corporal ou em educação que inclua o corpo como fonte de conhecimento, aprendizado, saberes. Nas instituições oficiais do suposto ensino, as aulas de educação física, afirma-se, cuidam dessa parte. Cabe uma possibilidade de reflexão aqui.

Há uma herança iluminista que tem em Descartes a separação entre o que se sente e o que se pensa. O corpo, a partir daquele momento histórico (e mais forte também), será colocado fora de cogitação como fonte de compreensão, de obtenção de algum conhecimento sobre o mundo e sobre si.

Resultados: percepção deficiente do mundo, da existência. Não é  sem razão pois quanto mais o corpo é reduzido em suas possibilidades, mais as mentes podem ser direcionadas.

Nessa conjuntura, especificamente no Brasil, onde a dança, os movimentos sensualizados e sensualizadores (no sentido de sentir que não é, obrigatoriamente, atrelado à prática de sexo) são parte da chamada cultura brasileira e, contraditoriamente são exaltados para festividades e diversão desconsiderados como caminho para conhecer.

Não se trata aqui da exaltação de danças que tornem mulheres objeto de consumo coisificado (sei que alguém pensou nisso quando leu ;) ) mas problematização do papel da dança na vida e na educação das pessoas.

Elvis Presley causou furor com seu movimento pélvico quando se apresentou nos anos 1950-60, despertando furor e fúria de quem se sentiu ultrajado por aqueles movimentos.

Pense: crianças movem-se e movem o mundo aprendendo como estar e ser nele. Mitos são encenados nas culturas afro e ameríndias com muita dança.

Quem que nunca foi tomado pela sensação de liberdade ao dançar tresloucadamente numa festa?

Fiquemos com os Braga Boys e seu hit e te desafio a conseguir não ter nenhuma vontade de sair da frente desta tela e se mexer.

Mexa-se FORA DA CAIXA || pense FORA DA CAIXA