O/A estudante que se prepara para o ENEM deve ter em mente que uma questão certa nas provas diz respeito ao tema direitos e, por extensão, deveres e suas relações com o regime democrático.
Você que se prepara para o ENEM, tenha em mente que direitos não são concessões ou seja, não são dados de bom grado, pela boa vontade das autoridades constituídas.
Direitos são fruto de conquistas, de lutas, de reivindicações e nesse caminho muitas pessoas foram silenciadas ao buscarem a ampliação e até mesmo a melhora das condições de vida e trabalho.
Compreenda também que NÃO EXISTE DIREITO ETERNO. Sempre há possibilidades de direitos conseguidos serem retirados, seja por negociação, seja por definições arbitrárias (caso de regimes ditatoriais).
Não se pode deixar de lado que os direitos só são usufruídos por causa do cumprimento de deveres. Não cumprir com deveres é agir indiretamente contra a democracia - que não é feita apenas de direitos.
Quando não se concorda com deveres determinados o que se deve fazer é reivindicar sua mudança e não deixar de cumpri-los.
A canção Get up, Stand up, de Bob Marley aborda o principal fundamento da democracia: a possibilidade de reivindicar e a obrigação de não deixar de fazê-lo.
Ao estudar História para o ENEM, deve-se ter em mente a superação de nomes e datas e desenvolver a habilidade de relacionar fatos, situá-los em contextos que são determinados temporal e espacialmente.
Exemplo: ao tratarmos do tema VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES deve-se:
1. IDENTIFICAR O TEMPO - ano de 2015 e no final do século XIX
2. SITUAR OS LOCAIS - pode ser o mesmo local nos períodos de tempo citados ou locais diferentes
3. IDENTIFICAR as semelhanças (se houver) e as diferenças (geralmente há)
4. IDENTIFICAR as mudanças e permanências
5. COMPREENDER os motivos de manutenção e mudança
6. SEMPRE PROBLEMATIZAR o conhecimento adquirido pois os fatos não mudam mas o olhar para eles, sim
As recentes rebeliões de detentos no Complexo do Curado e na penitenciária Barreto Campelo, em Pernambuco, reacenderam discursos de vingança contra encarcerados.
Não se para, entretanto, para pensar nas condições em que são lançadas as pessoas que cometem crimes e que, se o objetivo da prisão era gerar reflexão acerca do que foi feito e assim "se ressocializar", nada disso é conseguido.
Parece, na cabeça e na fala de quem invoca a violência contra as/os encarceradas/os, que estas/es são naturalmente ruins, perversos e nada mudará a "natureza" dessas pessoas.
Amplie seu pensar: NINGUÉM NASCE CRIMINOSA/O! O que se afirma crime em uma sociedade é parte do complexo moral historicamente criado para dar coesão ao convívio social - ou seja: é o que foi estabelecido para garantir que a vida em sociedade seja segura para todas/os. (Há muito para se pensar aqui, assunto para próximas postagens)
Para entender ainda mais: afirmar que aquelas pessoas são "naturalmente" criminosas é afirmar algo do tipo: um criminoso macho copulou com uma criminosa fêmea e desse ato nasceu um filhote criminoso que desde a mais tenra idade vai cometer crimes pois está na sua "natureza", assim como um gato mia e um cachorro late.
Sociologicamente equivocado esse tipo de pensamento.
Convido você a assistir esse trecho de um documentário sobre o caso do ônibus 174 em que são mostradas as condições nas quais se "vive" nas cadeias e penitenciárias da maior parte do Brasil.
Nessas condições, fica a pergunta: por que não se revoltar?
pense FORA DA CAIXA com o professor Salviano Feitoza
Nos últimos dias, o anúncio da pena capital contra um brasileiro no, aparentemente distante, país da Indonésia tomou conta tanto dos noticiários quanto de muitas conversas pelas filas das casas lotéricas, mercados e, claro, mesas de bar.
O código de Hamurabi - considerado uma das mais antigas compilações de leis da história da humanidade - é bem lembrado nessas horas pois a frase "olho por olho, dente por dente", invocada para tratar de punições "rigorosas" contra crimes que chamam atenção, seja pela crueldade, seja pelo alarde da mídia, vez ou outra é escutada.
O que se deve considerar é que a lei de talião, como é mais conhecida, não é bem uma lei, mas um princípio, o da equivalência da pena em relação ao crime cometido, ou seja, a punição tem que fazer jus (justiça) ao que desestabilizou a "harmonia" social.
A equivalência da pena com o crime cometido é uma das mais antigas questões do Direito.
Pois bem, entendido isso é importante considerar que qualquer punição trará sempre o seguinte problema: "quem garante que dois anos de reclusão fazem justiça ao fato de ter sido roubado um carro? E, por que não, uma semana?" É que não há como saber sem dúvidas ou questionamentos.
Aí acrescentamos: "quem matou tem que ser morta/o pra que se faça justiça!" E podemos perguntar: "E quem tirou mais de uma vida? É possível ser morta/o mais de uma vez?"
Não se apresse a dizer que se está defendendo criminosas/os. Não é isso! O que se busca chamar atenção aqui é para o fato de que se está, mais uma vez, atacando a "doença" e não evitando que "se adoeça".
Defende-se que se mate o traficante pois as drogas "mataram muitas famílias". Aqui se pode chamar atenção para o fato de que se "luta" dessa forma há mais de uma década e, parece, que o mercado das drogas ilícitas não cessou de crescer. Será que não passou da hora de repensar essa tática?
Enquanto as ações contra crimes cometidos não levarem em conta as causas dos crimes e debates necessários sobre a natureza do que se chama ato criminoso, estaremos nos vingando e não fazendo justiça.
A canção traz uma pergunta que, se for pensada em profundidade, pode ampliar o debate.
pense FORA DA CAIXA com o professor Salviano Feitoza
Com publicação do resultado do exame nacional do ensino médio - 2014 um
burburinho tomou conta das redes sociais e do cotidiano da comunidade
escolar: mais de meio milhão de redações receberam nota zero.
É importante considerar que esse número deve ser lido em "condições
ideais de temperatura e pressão", ou seja, sem erros no processo
correcional. Sendo assim, podemos seguir adiante.
Segundo o
ministro da educação "O tema agora, publicidade infantil, não é um tema
que teve um grande processo de discussão como teve o de 2013" (lei
seca).
A partir dessa fala, podemos identificar um problema: a
colocação da “grande mídia” como responsável pela formação de
estudantes do país (altamente questionável, mas existente).
Pensemos: o que mais esse número pode nos dizer sobre a educação brasileira?
Que talvez já tenha passado da hora de realizar uma mudança no paradigma educacional do Brasil.
Há tempos há uma valorização das disciplinas de língua portuguesa e das
ciências numéricas (física, química etc.) com destaque para a
matemática.
Não se defende aqui a exclusão de nenhuma dessas,
mas sim uma problematização: com tanto resultado abaixo do que se
espera, não está na hora de fazer as coisas diferente?
Não há
culpad@s por tantas notas zero no país. Deve-se buscar ver em
perspectiva a questão e essa visão vai identificar uma série de fatores
sobre esse resultado.
Fatores que vão desde o valor do salário
que se paga para professor@s no país, passando pela própria formação
destas/es, além da própria vida pessoal de centenas de estudantes - e de
professor@s também.
Repete-se: não devemos matar o mensageiro e sim escutar o que ele tem a dizer.
A canção abaixo pode ser um ponto de partida acerca dos desafios da educação brasileira.
Nenhuma das redes de televisão é dona das ondas que garantem seu funcionamento. Todas elas recebem concessão por parte do Estado para poderem operar, sendo que essa concessão não é eterna, tem prazo de validade.
Isso acontece pois o setor telecomunicações é ESTRATÉGICO, isso quer dizer que é fundamental para garantir a soberania de qualquer nação, logo, o Estado deve fazer os investimentos necessários para desenvolver o setor.
A questão é que, muitas vezes, o Estado não tem condições de investir ou falta vontade política de quem compõe o congresso ou uma série de outras justificativas. Assim, o Estado disponibiliza, para quem queira, concessões para operar uma rede de TV.
Vale salientar que não é apenas a vontade de ter uma rede de TV que garante que se consiga a liberação para operar. Ocorre um processo avaliativo e entre os pontos que garantem a liberação da concessão é o valor de 70% do capital que será investido ter que estar sob as mãos de acionistas brasileiros.
Uma vez cumprindo os pré-requisitos, é liberada a concessão que PODERÁ SER RENOVADA OU NÃO APÓS CERTO PERÍODO DE TEMPO.
A retirada de concessões de TV pode ter vários motivos. Entre eles o fato de que a rede não esteja cumprido sua função social, caso parecido com o que aconteceu na Venezuela, quando o governo venezuelano retirou a concessão da RCTV afirmando que ela "não servia ao povo".
A regulação da mídia ocorre também com o objetivo de garantir o direito à informação, mas esse é o assunto da próxima postagem.
Tratar de censura é tratar de um dos pontos de apoio do regime democrático: a LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
A liberdade de expressão se concretiza a partir da liberdade que, em sociedade, se deve ter de pensar o que quiser, acreditar no que bem entender (e que faz bem a quem acredita) inclusive religiosamente.
Simplificando: quanto maior a possibilidade de alguém se expressar, mais democrática é uma sociedade. Há, porém, um elemento gerador de conflito: a responsabilização sobre o que se expressa.
É assim: a vida em sociedade é marcada pelo conflito de interesses e necessidades e o Estado deve (ou deveria) administrar esses conflitos. No caso do jornal Charlie Hebdo, há a liberdade de expressar o que se deseja, o que se acredita ser correto (para quem expressou) entrando em colisão com a liberdade de pensamento.
A liberdade de pensamento está sustentada no tripé: liberdade de consciência, liberdade de crença e liberdade de convicção religiosa (por mais que haja discordância na forma com que se crê ou em que parte se está crendo).
As charges publicadas pelo jornal (representando a liberdade de expressão) colidiram com uma parte do Islamismo e veio a reação defendendo a crença dessa parte que, de maneira alguma, representa todas as pessoas que são adeptas da religião muçulmana. Nesse âmbito está o conflito de dois direitos fundamentais.
Entrando no mundo do "E SE...?" talvez se o Estado francês tivesse intervido quando foram publicados os primeiros cartuns, a situação não teria chegado ao que chegou (mas disso também não sabemos pois é o mundo do "E SE...?")
Regular a mídia não é censurá-la mas ter formas de garantir que ela cumpra uma de suas funções sociais e monopolizar a veiculação de informações, disseminar ou contribuir para a propagação de violências, com certeza, não é uma delas.
Com o atentado contra o jornal Charlie Hebdo, voltou para as redes
sociais o uso de palavras-chave como liberdade de expressão, censura,
ditadura e afins. Como estamos no calor dos acontecimentos, fica difícil ver em perspectiva tanto as reações em favor de quem assassinou quanto dos que sofreram os ataques.
Um ponto que se deve considerar é que não há assassinato justificável
ou sequer passível de justificativa, mesmo parcial. Fossem as vítimas de
qualquer grupo, instituição, classe social, vinculação religiosa,
assassinato sempre será condenável.
Chama atenção o fato de que
não se está considerando as atividades anteriores do jornal, que foram
marcadas por muita polêmica. O jornal foi fundado nos anos 1970 e
articulou-se tecendo críticas pautadas no esquerdismo pós maio de 1968.
O Charlie Hebdo ganhou mais projeção publicando charges ofensivas
contra muçulmanas/os a partir do século XXI. Os atentados deste início
de 2015 podem ser vistos como uma "resposta" contra as várias charges
ofensivas ao Islamismo.
Abra o seu coração: imagine você,
religiosa/o ter a divindade em que você crê sendo retratada de maneira
depreciativa? Como você se sentiria? Com raiva? Chateada/o?
MAIS UMA VEZ: Não se está fazendo apologia aos assassinatos acontecidos
na França, mas chamando atenção para um discurso que quer legitimar um
tipo de liberdade de expressão que está assentado no desrespeito ao que
não é parte do hegemônico (judaico-cristão, branco, heteronormativo).
O que se busca aqui é a inserção de elementos para auxiliar no debate fora do que se vê de imediato.
A imagem ao lado pode ajudar a repensar o discurso geral. Se coloque no
lugar de muçulmanos/as e tente compreender como há uma conjuntura que
não favorece nenhum dos lados, mas amplia a mortandade e o desrespeito.
(em tempo: já há discursos usando o atentado como exemplo do que acontecerá se ocorrer a regulação da mídia (!!!) )
pense FORA DA CAIXA CURTA A PÁGINA E RECEBA AS ATUALIZAÇÕES DIÁRIAS
Tratar de regulação da mídia no Brasil é tratar de duas coisas: medo de
perder domínio (por parte de grupos que historicamente "recebem" as
concessões) e emprenhamento pelo ouvido.
Dessas duas, a segunda é mais tensa exatamente porque muitas pessoas
não compreendem a diferença entre CENSURA e REGULAÇÃO e se colocam
contra a segunda crendo que se está sendo contra a primeira.
1. REGULAÇÃO
É quando são estabelecidas regras para o funcionamento de setores
estratégicos para o Estado e para a população. A regulação vai gerar
deveres que a mídia deve cumprir.
2. O QUE SE REGULA
É importante saber que a regulação não é algo que exista apenas direcionada para a mídia.
Outros setores também são regulados e tal regulação acontece sob a
organização do Estado que é (ou deveria ser) agente da sociedade que,
por sua vez, deve ser soberana.
Monopólios naturais, concessões
estatais são exemplos do que deve ser regulado. No caso específico da
mídia, a regulação se insere no contexto do setor da vida social que,
não sendo regulado, apresenta (ou pode apresentar) problemas.
Qualquer setor que tenha elevado poder de influência sobre a vida social
deve ser regulado sob pena de manipular o que a população deve pensar
ou ainda de atender interesses de grupos específicos, tanto sociais
quanto econômicos.
A regulação da mídia, ao ser implementada,
possibilitará a consolidação do direito à informação e, talvez o ponto
mais importante, a RESPONSABILIZAÇÃO DOS VEÍCULOS DE INFORMAÇÃO POR
AQUILO QUE PUBLICAM.
ATENÇÃO: responsabilizar não é censurar,
mas garantir que se os veículos de comunicação publicam algo que gera ou
pode gerar repercussões nocivas para grupos, indivíduos, instituições,
eles (os veículos) deverão prestar esclarecimentos e arcar com os
resultados de suas publicações, filmagens, reportagens, comentários etc.
Um exemplo da necessidade de regulação da mídia é o caso da Escola
Base, acontecido no Brasil nos anos 1990. Assista o vídeo que pode ser
um importante início para pensar fora da caixa sobre o tema.
Desde o final das eleições o suposto engajamento político virtual feicebuquiano foi amansado. Algumas amizades foram refeitas e outras continuam afastadas devido ao processo eleitoral que quase destruiu famílias inteiras.
Mas esse amansamento não quer dizer que a "política" saiu das redes, mas que reduziu sua presença ou sua gana. Agora o que mais se vê é uma espécie de indireta (semi direta) temperada com sarcasmo. Algo do tipo: "cadê o pessoal que votou na Dilma?" "Ué, não é essa a esquerda do voto crítico? Quero ver agora que ela tá nomeando fulano, ciclano , beltrano, deuterano etc."
Essas afirmações em nada contribuem para a vida política e, por extensão, democrática. A prática política é marcada por contradições que são parte da própria existência humana. O princípio da cidadania ativa é a continuidade, é a renitência na busca pela ampliação de direitos, cumprimento de deveres e uma espécie de combate tanto para evitar supostos avanços e retrocessos (dependendo de quem reivindica pode ser um ou outro).
Esse "mimimi" ferino em nada contribui para a melhoria das condições de vida da maior parte da população. É como se fosse a indignação de quem não sabe lidar com a frustração por não conseguir o que queria ou mesmo por não conseguir lidar com o que diverge de sua visão de mundo, sua cosmovisão.
O fundamento da vida democrática é o conflito - de interesses e necessidades. A negociação e o conflito são parte de legítima democracia. Isso não quer dizer que devemos aceitar o que para nós é colocado por quem elegemos. É exatamente o oposto disso inclusive para quem não escolhemos para nos representar.
Logo, escutemos Tom Zé e sua canção DEMOCRACIA, que aborda em termos bem interessantes esse regime em suas "dores e delícias".
pense FORA DA CAIXA
Democracia Tom Zé
Democracia que me engana na gana que tenho dela cigana ela se revela, aiê; democracia que anda nua atua quando me ouso amua quando repouso.
É o demo o demo a demó é a democracia é o demo o demo a demó é a democracia.
Democracia, me abraça com tua graça me atira desfaz esta covardia, aiê; democracia não me fere mira aqui no meio atira no meu receio.
Democracia que escorrega na regra não se pendura na trégua não se segura, aiô; democracia pois me fere e atira-me bem no meio daquilo que mais eu mais receio.
Democracia, não me deixe sou peixe que fora d'água se queixa, morre de mágoa, aiê; democracia não se dita maldita seja se dura, palpita pela doçura.
Uma das frases mais repetidas quando é veiculada alguma notícia de crime contra mulheres é essa que dá título a postagem de hoje. Acompanhada de outras como: "também, com essa roupa!" Ou ainda: "Bebendo desse jeito também, queria o quê?"
Essas frases, assim como a forma de pensar que as sustenta compõem algo que não é apenas nacional, é mundial: a CULTURA DO ESTUPRO.
CULTURA DO ESTUPRO pode ser entendida como o conjunto de práticas sociais, formas coletivas de pensar, de sentir e atitudes que legitimam o estupro, que garantem omissão sem alguma culpa quando alguma ofensa ou agressão (física, inclusive) é dirigida a mulheres e que culpabilizam a vítima.
Pense no seu cotidiano:quantas vezes você não ouviu (ou mesmo falou) que "sorriu, f#$@u!" quando alguma mulher sorriu em uma festa? Ou ainda: "É minha namorada (esposa, ficante, noiva) tem que transar comigo quando eu quiser!"
Uma muito comum é afirmar que mulheres que são bem tratadas por homens deveriam "dar pra eles", ou namorá-los, ou casar. Geralmente na escola essa é uma forma de pensar quando uma jovem se recusa a ficar com o "cara legal" mas que não está dentro dos padrões de beleza ("bonito", malhado etc.)
Pois bem, não se acanhe se houve identificação. É tão naturalizado que se mostra como correto. MAS NÃO É. É parte da ideologia patriarcal que está na base que formou a visão quase planetária acerca das mulheres.
Um bom primeiro passo é reconhecer que se é machista, sexista (o mesmo vale para racista e homofóbica/o) e, posterior a compreensão de como você se tornou isso, combater essa forma perversa de apropriação da vida das mulheres.
Este é um tema vastíssimo e dará ainda muitas postagens.
O vídeo "É sua culpa" (It's your fault, no original) foi produzido com o objetivo de tocar nesse assunto e o faz de maneira irônica, o que é forma boa de se levar a desnaturalização do ato criminoso e da culpabilização da vítima.
Uma das frases mais repetidas é: "religião não se discute". E vem acompanhada das seguintes: "política e futebol também não".
No programa domingão do faustão do dia 04 de janeiro de 2015, em um quadro denominado saco de risadas, quem assistiu pôde ver três comediantes "alegrando" espectadoras/es e telespectadoras/es, sendo um deles vestindo indumentária e afirmando ser a divindade Yemanjá, do panteão afro-brasileiro.
Impressiona a falta de respeito com a crença que não é judaico-cristã, que foi caracterizada como invejosa, briguenta e num dos momentos de maior desrespeito, quando tenta agredir uma das bailarinas do faustão, ela "planta bananeira" e é retirada do palco, podendo se ver quando um dos comediantes que participava da cena chutar aquele que se designava como a divindade.
A intolerância religiosa deve ser combatida em todas suas manifestações. Da mesma forma que se busca respeito para as divindades religiosas afro-brasileiras, também deve-se contestar representações depreciativas de padres, freiras, pastores, papas e qualquer manifestação que esteja atrelada a fé que se professa.
Pense além: qualquer representação, seja em imagens, canções etc,do deus judaico-cristão é logo tachada de herege, pede-se que seja retirada do ar, das bancas, pensa-se até em processar juridicamente.
Mas aqui pergunto: e God of War? Aquele jogo muito famoso e que retrata várias divindades gregas bem violentas, perversas e afins? Ainda que haja uma indústria cultural que ganhe e muito com o jogo, devemos considerar que são parte da religiosidade de um povo. (aqui não trataremos das metamorfoses sofridas pela religiosidade grega, mas fica o ponto para você pesquisar, ok? ;) )
Apenas pense mais um pouco: quando se trata da religiosidade judaico-cristã, a depreciação, o desrespeito raramente atingem o deus supremo, ficando restrito aos papas, padres, pastoras, freiras. No caso das religiões afro-brasileiras, o ataque é direcionado aos deuses e deusas - as/os próprias/os.
É tão naturalizado que nem se notam essas práticas discriminatórias que vão desde palavras até jogos, aparentemente, inofensivos.
Aqui você confere uma montagem que foi feita sobre uma parte da Capela Sistina pintada por Michelângelo e que mostra o personagem do jogo God of War se preparando para atacar a representação católica de deus. Muita polêmica causou e ainda causa. A outra foto mostra o momento de desrespeito exibido em rede nacional no domingão do faustão.
É comum, quando se faz referência ao período de governo civil-militar
(antes referida apenas como ditadura militar, mas esse é assunto de
outra postagem, aguarde), pensar quase
que automaticamente em artistas censuradas/os e, mais especificamente,
em artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Raul Seixas.
Porém, deve se considerar que há a construção de uma memória "oficial"
acerca da história da música brasileira e que privilegia determinadas/os
artistas no processo de patrulhamento e censura da produção cultural do
período.
Na época existia um grupo de artistas que era
alcunhado de "cafona" (ou brega que, hoje em dia, se refere a outro
estilo musical com algumas semelhanças) e que também foi censurado.
Odair José, Wando e Waldick Soriano foram colocados nesse grupo. No
caso de Waldick Soriano, a canção EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO sofreu a ação
dos censores pois estes acreditaram (ou quiseram acreditar) que a ela
fazia queixas, denúncias contra o regime (!).
Se você ficou
impressionada/o com isso, compreenda que em um regime autoritário um dos
grupos que são imediatamente colocados sob vigilância é o de artistas,
por falarem aos corações e mentes de quem os escuta, lê, olha.
Waldick Soriano é um bom exemplo que, mais do que ser cafona, brega,
tratar de amor pode ser algo considerado perigoso, independente de como
se trate.
Uma das questões mais frequentes nas nossas mentes é: será que estou fazendo a coisa certa?
Não há quem não tenha, em algum momento, ficado em dúvida acerca das próprias ações e de seus possíveis resultados.
Essas dúvidas são imobilizadoras - na maior parte das vezes - e nos
impedem de agir. Noutras, nos direcionam para tomar as mesmas atitudes
que deram resultados para outras pessoas, que nós conhecemos ou que
acreditamos conhecer.
É comum também darmos ouvidos para as pessoas que aparentemente sabem o resultado que nossas ações terão.
Uma possibilidade de lidar com a angústia de não saber os resultados de
nossas ações é simplesmente agir. Fazer o que tem que ser feito.
O escritor Milan Kundera em seu livro "A insustentável leveza do ser"
escreve que a vida não admite ensaios, rascunhos, ou seja, não dá para
fazer "de brincadeira" qualquer coisa, apenas fazer e, posteriormente,
pensar acerca de como repercutiu.
Frank Sinatra, cantando "My
Way", nos mostra alguém fazendo uma espécie de retrospectiva da própria
vida e afirmando que, ao final, fez "o que quis" assumindo "as porradas
que vieram".
Então, quando a pergunta vier (e ela com certeza
virá), pense que é muito difícil saber com exatidão quais os resultados
que suas ações terão, mas que o peso do resultado será sempre menor
quando se assume, se afirma a própria vida e nossas escolhas.
Uma das questões mais acirradas do mundo das ciências - humanas, numéricas e da saúde - diz respeito ao início de tudo, tanto da vida na terra quanto do universo. Duas teorias se destacaram nesse tempo todo: o criacionismo e o evolucionismo.
Cada uma dessas teorias tem adeptas/os que as defendem fervorosamente.Tanto uma quanto a outra explicam, da maneira que lhes cabe, as origens.
Entretanto, em ambos os lados há posicionamentos de negação da explicação do outro. Essa negação passa tanto pelo posicionamento da simples afirmação de que um dos lados está correto e o outro está errado e até pela pressão para que o Estado retire ou coloque uma das duas teorias nas grades curriculares das escolas.
A proposta mais ousada talvez seja identificar como essas diversas explicações podem se aproximar e enriquecer as respostas sobre a pergunta "de onde viemos?" .
Será que o evolucionismo não é a forma com a qual Deus/a/es/as (seja qual for em que se acredite) age sobre sua criação?
Em momento algum busco negar qualquer dos lados, mas sim buscar uma forma através da qual possamos pensar além do que se tem de imediato e que poucas vezes é problematizado.
Rousseau foi um dos pensadores iluministas que chamou atenção para os perigos da supervalorização da explicação científica, pontuando que apenas se substituiria uma "fé" por outra.
O vídeo do Porta dos Fundos, Testemunha de Darwin, pode ser interessante para percebemos como, muitas vezes, o discurso científico se assemelha ao religioso na defesa do que se acredita. E vice-versa.
Uma das funções do Estado é garantir condições dignas para a população. Nesse sentido, desde escolas públicas passando por atendimento médico, segurança, transportes públicos, tudo deveria ser de qualidade (pelo menos mínima, o que é exigir pouco considerando o pagamento de impostos) para o povo.
Esse argumento pode ser sempre invocado para falar mal das autoridades que deveriam atender aos nossos interesses. Isso, no entanto, não é novidade. A proposta aqui é pensar um pouco além.
O Estado (o conjunto de instituições jurídicas, políticas), já foi dito por vários pensadores, existe principalmente para atender aos interesses de quem detém poder financeiro (a tal elite). Pois vamos fazer uma linha de raciocínio buscando interligar aspectos que parecem, numa primeira olhada, não terem relação.
CARROS.
Se existe um veículo que se opõe ao que deveria ser uma das funções da cidade, este é o carro particular como é usado hoje em dia. Ele resolve o problema individual de conforto para ir/voltar do trabalho. Como muitas pessoas trabalham, então temos muitos carros particulares nas ruas.
E os temos porque o transporte público prestado à população não presta (o trocadilho foi proposital). Quem iria investir em combustível diariamente se tivesse conforto e segurança nos ônibus e metrôs da cidade?
Mas investir em transporte público de qualidade é contrariar interesses das montadoras - eita, tem uma fábrica de automóveis funcionando aqui perto! Identificou a relação?
TRANSPORTE PÚBLICO DE QUALIDADE REDUZIRIA OS LUCROS DAS MONTADORAS
PROJETO NOVO RECIFE.
O projeto novo recife, da forma que tentam implementá-lo, não atende a função de gerar encontros que a cidade tem (e teve noutros tempos). Aquele espaço do Estelita daria um fabuloso lugar de encontro, de sociabilidades as mais diversas.
O projeto que querem implementar não contribuiria para a diversidade de encontros, as possibilidades que podem ser criadas e recriadas a partir de espaços públicos de qualidade.
Nesse ponto pense: quando se quer encontrar com as pessoas que te fazem bem, o que se faz? shopping. Neste o que se faz? Ver vitrines, vitrines e o máximo de sociabilidade saudável (será?) que se tem é ir ao cinema (com altos valores de ingresso e mais altos se for na sala de maior "conforto") ou a praça de alimentação com a comida cara, pouco saudável e que as conversas são gritos (quem nunca voltou pra casa rouca/o após uma tarde no shopping?).
A relação:
ESPAÇOS PÚBLICOS DE QUALIDADE REDUZIRIAM OS LUCROS DOS SHOPPINGS
O #OcupeEstelita é a causa em prol da humanidade e do pé de manga porque representa o empoderamento do que é nosso: a cidade. Ela é nossa.
Há tempos ocorre esse tipo de ingerência: ações são implementadas sem a participação de todas as pessoas interessadas ou que seriam e são afetadas pelo que se decide.
O #OcupeEstelita foi um passo fundamental na retomada do espaço da cidade, do espaço da política e repercute no mundo. Não repercute na grande mídia daqui pois esta tem relações diretas com as montadoras de automóveis, construtoras, shoppings, empresas rodoviárias.
Essa é a relação com o pé de manga: com mais espaços públicos, haverá mais árvores frutíferas. Com transporte público de qualidade mais pessoas se encontrarão e irão para as praças e poderão "se atrepar" no pé de manga ou curtir sua sombra.
Devemos problematizar o que nos é mostrado como único caminho, única possibilidade.
Temos o direito de assumir qualquer lado, mas, é fundamental escarafunchar, questionar, duvidar e, sinceramente, não creio que entendendo o que deve ser uma cidade e comparando com a que temos, defendamos o projeto novo recife, ainda que saiba que muitas pessoas o defendam.
O vídeo abaixo, lançado recentemente, contribui e muito para entendermos a situação da cidade/nossa.
Após o resultado das eleições assistimos a manifestações explícitas de ódio contra nordestinos/as colocando-as/os como principais responsáveis pela derrota do candidato Aécio Neves.
A propagação desses raciocínios mais do que indignar deve levar ao questionamento dos motivos de se manifestarem e tão escancaradamente, sem pudores mesmo.
Está ligado a ideologia. Mais do que conjunto de ideias, ideologia pode ser entendida também como o que dá sentido ao nosso modo de estar no mundo, é o que legitima nossas formas coletivas de sentir, pensar e agir.
O vídeo abaixo foi montado a partir do documentário “O Guia Pervertido da Ideologia“, de Sophie Fiennes, em que Žižek explica sua teoria da ideologia e, nessa montagem, podemos ampliar a reflexão sobre o que acontece no país.
Em História, uma das habilidades importantes para quem fará a prova nos próximos dias é identificar semelhanças e diferenças em tempos históricos diferentes e em espaços diversos também.
Essa habilidade é mais do que simplesmente afirmar: antes era assim, agora é desse outro jeito.
Identificar semelhanças e diferenças em tempos e espaços históricos diversos (ou os mesmos) é ser capaz identificar o que diferencia determinado acontecimento, comportamento no mesmo lugar - ou não, no mesmo tempo - ou não.
EXEMPLO:
Quando se trata de pobreza e miséria um dos momentos históricos que geralmente são mencionados é a chamada Idade Contemporânea, mais especificamente o conteúdo da Revolução Industrial.
As transformações que a revolução técnica causou criaram um mundo marcado pela prosperidade material para alguns (os donos dos meios de produção, a burguesia industrial) e a pobreza e miséria para outras/os (a força de trabalho, o proletariado).
As condições de miséria levaram tanto a reações quanto a reflexões e, a partir daí, ocorreram o movimento dos quebradores de máquinas, dos cartistas e as reflexões (que se desdobraram em ações) socialistas.
O ENEM pode solicitar que IDENTIFIQUEMOS nestes ESPAÇOS e TEMPOS diversos AS SEMELHANÇAS com o que temos nestas condições atualmente.
Temos miséria (SEMELHANÇA) mas com uma DIFERENÇA: o mundo no qual vivemos, superou a condição de sobrevivência e produzimos alimentos suficientes para não ter mais fome no planeta.
Por extensão, vem a PROBLEMATIZAÇÃO: POR QUE ainda tem gente morrendo de fome? A QUEM INTERESSA a manutenção dessa ordem vigente?
Nesse sentido, cabe BUSCAR quais os desafios dos socialismos neste mundo.
Recentemente o papa Francisco deu uma declaração que pode nos ajudar a pensar sobre o assunto:
(...)
"Eu só posso dizer que os comunistas têm roubado a nossa bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro de o Evangelho", disse ele, citando passagens bíblicas sobre a necessidade de ajudar os pobres, os doentes e os necessitados.
"Os comunistas dizem que tudo isso é comunismo. Claro, vinte séculos mais tarde. Então, quando eles falam, pode-se dizer: 'mas então você é cristão'", disse ele, rindo.
Desde sua eleição, em março de 2013, Francisco tem frequentemente atacado o sistema econômico global como sendo insensível aos pobres e não fazer o suficiente para compartilhar a riqueza com aqueles que mais precisam.
No início deste mês, ele criticou a riqueza feita a partir de especulação financeira como intolerável e disse que a especulação com commodities era um escândalo que comprometeu o acesso dos pobres aos alimentos."
Uma das frases mais repetidas nos últimos tempos é:
"Não existe mais esse negócio de esquerda ou direita!" "isso está ultrapassado!" Uma das formas pelas quais a ideologia se mantém e se reproduz é através da homogeneização das diferenças e ocultação das contradições. É fundamental considerar que esquerda / direita são mais do que posicionamentos políticos ou ideológicos. São formas de ser, estar e agir no mundo.
Ainda que o posicionamento ativo não pareça existir ou está tão diluído que podemos ver caminhando juntos, em alguns setores do nosso cotidiano político (e social), grupos, pessoas, partidos que, noutros tempos, sequer dividiriam palcos, muito menos uma coligação a situação que temos diante de nós pede uma reflexão além do que a vista alcança.
Já passou da hora de se repensar algumas posturas conciliatórias, que foram proveitosas noutro momento, para lembrar que a dinâmica social vai gerar a transformação e esse acordo conciliatório criou sua própria antítese exposta na composição de nossa casa legislativa.
O pensador Deleuze foi questionado sobre o que é ser de esquerda. Eis sua resposta:
"Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é de esquerda. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas.
Primeiro é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura.
Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: “Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?” E ser de esquerda é o contrário. É perceber... dizem que os japoneses percebem assim. Não veem como nós, percebem de outra forma. Primeiro eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois o continente... europeu, por exemplo... depois a França, até chegarmos à rue de Bizerte e a mim.
É um fenômeno de percepção. Primeiro percebe-se o horizonte.
Entrevistadora: mas os japoneses não são um povo de esquerda.
Mas isso não importa. Estão à esquerda.
Primeiro, vê no horizonte e sabe que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode mais durar. Não é possível essa injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção.
Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de preservar os privilégios europeus. Deve se encontrar os arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o terceiro mundo... ser de esquerda é saber que os problemas do terceiro mundo estão mais próximos de nós do que os de nosso bairro. É de fato uma questão de percepção.
Não tem nada a ver com a boa alma. Para mim, ser de esquerda é isso.
E, segundo, ser de esquerda é ser ou devir minoria. Não deixar devir minoritário. A esquerda nunca é maioria enquanto esquerda por uma razão simples: a maioria é algo que supõe, até quando se vota, não é só a maior quantidade que vota para tal coisa mas a existência de um padrão. No ocidente, o padrão de qualquer maioria é: homem, adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce disseram coisas assim. O padrão é esse.
Portanto, irá obter maioria aquele que, em determinado momento, realizar este padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho, cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. Só que muitas pessoas se reconhecem nesse padrão vazio. Mas, em si, o padrão é vazio. O homem macho, etc...
As mulheres vão contar e intervir nesta maioria ou em minorias secundárias a partir de seu grupo relacionado a este padrão. Mas, ao lado disso, o que há? Há todos os devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser mulher por natureza. Elas têm um devir mulher. Se elas têm um devir mulher, os homens também o têm. Falamos do devir animal. As crianças também têm um devir criança. Não são crianças por natureza. Todos os devires são minoritários.
Entrevistadora: só os homens não têm um devir homem...
Não, pois é um padrão majoritário. É vazio. O homem macho, adulto não tem devir. Pode devir mulher e virar minoria. A esquerda é o conjunto de processos de devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleição. Mas são coisas bem conhecidas".
Palavra fácil nos discursos políticos recentes, privatização é mais que doce conceitual na boca da galera. Entender o que é e, principalmente, seus resultados, é fundamental para a tomada de decisões eleitorais que se aproximam e para entender projetos políticos anteriores e vindouros.
1. O QUE É
Privatização é quando se vende um setor da economia para empresas ou grupos que podem ser nacionais ou internacionais. Essas empresas passam a prestar o serviço que antes era realizado pelo Estado.
2. POR QUE ACONTECE
É comum se afirmar que privatizações são realizadas pois o Estado não consegue prestar o serviço com qualidade. A privatização acontece, então, para que um grupo ou empresa faça o que o Estado não tem condições de fazer.
3. POR QUE REALMENTE ACONTECE
As privatizações acontecem, na verdade, para atender aos interesses do capital, principalmente internacional. Grupos que compram o direito de explorar setores da economia o fazem pois são setores financeiramente rentáveis - MUITO RENTÁVEIS.
Os investimentos que são feitos e que melhoram a condição do serviço ou ampliam a exploração do setor não são realizados com objetivos de melhorar a economia do país ou a qualidade de vida da população que efetivamente precisa de serviços melhores.
São o mínimo de investimento que deve ser feito para ter retorno várias vezes maior.
4. COMO ACONTECEM
São realizados leilões através dos quais as empresas/grupos interessados dão lances a partir de um valor mínimo.
5. QUAIS OS PROBLEMAS DAS PRIVATIZAÇÕES
São vários, mas tratemos dos mais simples:
a. o rendimento que as empresas privatizadas têm é infinitamente superior ao valor pelo qual foram vendidas. Você pensou, provavelmente: "mas foi porque as empresas investiram"...
Sim, até foi. O que chamo atenção é para o fato de que os setores que foram privatizados, se recebessem o investimento necessário, renderiam para o Estado - por extensão para o população - esses lucros que seriam reinvestidos em infra-estrutura para a própria população.
A Cia Vale do Rio Doce nos dá exemplo interessante: foi vendida por três bilhões de dólares. Sabe qual foi o faturamento da empresa depois? Eu te digo: dez bilhões de dólares.
Considere que o projeto da Vale implicava a ampliação de extensa malha ferroviária que serviria tanto para o transporte do minério extraído quanto da população. Ou seja: qualidade de transporte.
b. empresas privatizadas visam o lucro - apenas. Pense um pouco mais: quando ocorrem crises e grassa o desemprego, o que temos notícias: demissões em massa em empresas particulares. Se há possibilidade de redução de lucros, a ação das empresas que administram as privatizadas é demitir. O motivo? Reduzir a folha de pagamento.
6. HÁ SOLUÇÃO?
Sim. Algumas delas são indigestas para as empresas/grupos que ganharam os leilões: encampamento ou nacionalização, ou seja: o Estado retomar o controle e EFETIVAMENTE administrar o setor da economia objetivando atingir o bem-estar da população.
7. O QUE PODEMOS FAZER?
Reagir contra privatizações. Se informar. Engrossar os movimentos sociais para ampliação de direitos e impedir retrocessos. A democracia está sempre sob ataque e o que aparenta ser bom para a democracia pode esconder retorno a situações de ampla miséria.
Há muitos discursos em favor da privatização e que se esquecem dos resultados que o Brasil ainda está tendo depois do ciclo de ataques contra o Estado iniciado com o governo de Collor.
O documentário PRIVATIZAÇÕES - a distopia do capital, de Silvio Tendler, pode nos ajudar a lembrar como foram feitas as privatizações no país e seus resultados, além de inseri-las no contexto de ação do neoliberalismo no mundo.
É um assunto espinhoso, mas que diz respeito ao nosso bem-estar.
Quando nascemos iniciamos o processo de socialização, ou seja, o processo através do qual aprendemos como devemos viver em sociedade.
Desde a maneira de expressar dor, alegria, prazer até as reações diante das situações do cotidiano são parte do processo de socialização que tem várias instâncias. Essas instâncias são produzidas, mantidas e reproduzidas pelas INSTITUIÇÕES SOCIAIS.
INSTITUIÇÕES SOCIAIS são o conjunto de normas, regras, atitudes, comportamentos que devemos seguir e que são elaborados e reproduzidos através da família, das religiões, da educação e do Estado.
Cada uma atua individualmente mas em relação com as outras.
Eis o ESQUEMA MONSTRO - INSTITUIÇÕES SOCIAIS com as informações iniciais para você compreender o que são e como agem.
Professor,
o senhor não vai votar em Dilma, não, né?
Professor,
o senhor é comunista, é?
Professor,
o senhor é anarquista? Defende os black
blocs?
Vixi,
professor! O senhor é desses que querem que todo mundo seja pobre, é?
Essas perguntas
e outras muito parecidas fazem parte do cotidiano de professoras/es de
História, Filosofia, Sociologia, Geografia ou de qualquer professor/a que
demonstre algum engajamento com questões sociais.
Como estamos
em período eleitoral é aí que a situação fica mais tensa. As conversas
políticas – sobre políticas – tomam conta da sala de professoras/es chegando
até as salas de aula. Um prato cheio para pesquisas sócio-antropológicas devido
aos posicionamentos mais contraditórios, incoerentes, divergentes e, por que
não dizer, bizarros de quem, em teoria, deveria contribuir para o
desenvolvimento do pensamento crítico de dezenas de estudantes.
Um entendimento
equivocado do que escreveu Paulo Freire leva muitxs professorxs a doutrinarem
suas turmas afirmando que tal ou qual candidata/o é o melhor para o país. Por mais
ansioso que esteja, por mais preocupado que me sinta em relação ao futuro do
Brasil, não tenho o direito de forçar minhas turmas a verem o mundo da maneira
que eu vejo.
Tenho a
obrigação de expor para as turmas as possibilidades de posicionamento político,
devo lhes garantir contato com a instrumentação teórica para problematizar a
realidade social e DESNATURALIZAR raciocínios que contribuem para a manutenção
de desigualdades.
É válido considerar
que muitos países considerados por muitas pessoas deste Brasil como exemplos a
serem seguidos tem políticas públicas de transferência de renda como as que
estão sendo ampliadas pelos governos do PT, sendo estas inclusive vistas com
bons olhos lá fora.
Por determinadas
classes sociais e grupos de mídia é que há ações de depreciação ao que está
sendo implementado. Não é novidade: há alguns anos, Brizola enfrentou oposição
ferrenha desses grupos e ele também era respeitado “no estrangeiro”.
Algumas críticas
repetem a cantilena de que o Brasil parou de crescer, que a inflação está fora
de controle. Usando o raciocínio que aplico em sala de aula me pergunto quantas
dessas pessoas sabe exatamente de que crescimento econômico se está falando,
como ele afeta a vida delas e uma, bem importante: quantas sabem O QUE É
INFLAÇÃO?
Algumas afirmam
que a economia vai mal, mas eu pergunto: como pode ir tão mal uma economia que
garantiu que o Risco Brasil (explicando: é o nível de risco de investimentos no
país por parte “do estrangeiro”) caísse de 1446, em 2002, para 224 em 2013?
Vamos aos
bancos: o Banco do João, da Maria, do Antonio e do Pedro – do Brasil teve
rendimento de dois bilhões de reais em 2002 e, ano passado, de 15,8 bilhões de
reais. E o banco dos poupançudos, a Caixa, em 2002 teve lucro de 1,1 bilhão de
reais e, ano passado, foram 6,7 bilhões de reais de lucro.
Lei básica
do liberalismo clássico, aquele de Adam Smith, oferta e procura: em 2002 foram
produzidos 1,8 milhões de veículos. Ano passado: 3,7 milhões de motorizados. Se
há produção é porque há demanda.
Mas você
poderá dizer que tá difícil a vida do empresariado nacional, então, sobre
falências: FHC – 25.587, Lula e Dilma – 5.795, em média.
Decidi expor
esses dados não mencionam as questões sociais. O motivo: esse texto está
direcionado para a população que não é rica (os chamados pobres de direita ou
pobres conservadores), pois anseiam serem ricos e desprezam a própria condição.
O governo
do PT não foi socialista, nem foi comunista. Aplicou elementos de capitalismo
que os dados mostram. Não apresento argumentos emocionais, apresento dados com
o objetivo de reduzir as argumentações em favor de Aécio porque a economia vai mal,
tem muita empresa falindo etc, etc.
Mas você
pode querer tratar das políticas públicas e abordar os problemas que os
programas assistenciais tem. Ok, vamos lá: políticas públicas existem para
colocar em funcionamento o que a Constituição estabelece, pois, o fato de estar
no texto da Carta Magna que o governo deve garantir saúde, educação de
qualidade não quer dizer que estas serão implementadas. É aí que são elaboradas
as políticas públicas, para se fazer cumprir a Lei.
São perfeitas?
Não, mas a política é o campo do que sempre está em construção. Querer que
políticas públicas sejam perfeitas é uma ingenuidade. E parte dessa ingenuidade
foi embora quando vieram ao conhecimento público o mensalão e outras denúncias
de corrupção. O PT decepcionou, sim, mas a causa é maior que qualquer partido.
Muitas pessoas
que apoiavam ou militavam pelo PT saíram do partido – com todo direito – e se
transformaram em antipetistas viscerais, chegando ao ponto de apoiar Aécio e
cia limitada. Têm todo direito disso, mas me incomoda identificar pouca
maturidade política para lidar com essa frustração.
A causa é
maior que qualquer partido. Lembro que quando foram denunciados os crimes de
Stálin ocorreu uma grande saída de membros do Partido Comunista, incluindo
grande nomes da literatura e da política brasileira. Marighella, que foi
assassinado durante o regime civil-militar, afirmou que deveriam os socialistas
ficarem e reformarem o Partido e não abandonarem a causa – que não é uma ou
duas pessoas, muito menos um partido.
Sigo essa
postura de Marighella. E é por segui-la que escolho Dilma, porque o projeto que
ela deu continuidade é o que mais realizou as mudanças sociais que eram
necessárias para a vida de centenas de pessoas. O grupo de Aécio,
historicamente, não teve essa sensibilidade.
Pense FORA
DA CAIXA.
SONHAR - Tom Zé
Sonhar o pão
Toda a manhã
E ser aquele que mastiga
Sonhar o gosto
Do alimento
Se misturando na saliva
Aquele aroma
Que a gente sente
Pó de café na água quente
Sonhar escola
Senhor São Bento
Sonhar o tal discernimento
Sonhar a besta
Que em seu fastio
A fúria do começo viu
Sonhar o fogo
Do quilarão
Que veio do ainda-não
Gratia plena
Vida terrena
O céu aqui a gente pare
Filii tui
Na via crucis
Per mare nostrum navigare
Iê iô
Ié quá foguê
Sonhar a porta
Da esperança
O entra e sai da vizinhança
Sonhar o curso
Do marinheiro
Que viajou o mundo inteiro
Sonhar a lenda
Por cuja fenda
Sabedoria nos assalta
Sonhar o mito
Que em todo o rito
O filho ao parricídio ata
Iê, iô
Ié quá foguê (Bis)
De San Juãããã
ão dá dó de