Após a Marcha das Vadias ter
acontecido em Recife, cidade que me serve de posto de trabalho, fiquei animado
com as possibilidades de lutas sociais. As coisas mudam, sempre, já afirmara Heráclito.
Mas algumas coisas permanecem, afirmou, talvez, Raul. Mas, por pouco tempo,
também.
Marcelo, Alane e Julia
Não dá para continuar
violentando, roubando, matando, vilipendiando impunemente. As violências, as
mais diversas, pois existem várias (já escrevera o sociólogo francês), podem e
devem ser denunciadas e as autoridades, cobradas para garantirem aquilo para o
qual existem: segurança e bem-estar para todxs. Noutros momentos, poderia-se
xingar, agredir fisicamente e, a violência suprema, matar com grande margem de
folga de sair impune. E se tivesse como justificativa a honra, até prêmio era
possível receber.
Leis são criações da necessidade
de regular o convívio em sociedade. Num entendimento simplificado, seriam fruto
da necessidade de limitar algo que está afetando a existência de um grupo ou parte
dele (aqueles que compõe a superestrutura, no dizer do judeu vermelho e
influente). Pense da seguinte forma: para que o Criador (na tradição
judaico-cristã) estabelecesse dez mandamentos, o Decálogo, proibindo roubo, assassinatos,
cobiça da mulher alheia, juras do sacro nome em vão, era porque tudo que estava
sendo proibido era praticado em tão larga medida que atrapalhava a coesão, a
segurança e o bem-estar do grande grupo. Entendido isso, sigamos o raciocínio.
A sanção de leis como a Maria da
Penha, a lei seca, o código de trânsito mais rígido são fruto, seguindo o que
foi escrito acima, da necessidade de intervenção do Estado em determinado
âmbito da vida coletiva, ou seja, se há um código mais rígido de controle do
trânsito, este estava “descontrolado”, se há maior fiscalização e, por
extensão, punições para quem dirige embriagado, muita gente foi prejudicada –
inclusive irreversivelmente – por pilotos embriagados, então, uma lei que pune
desde tapas, empurrões e extinção da vida feminina, é fruto do perigo para a
segurança e o bem-estar PRINCIPALMENTE DAS MULHERES que a violência masculina
gerava (e ainda gera).
A situação mudou. Ainda bem. Quando
fui para a Marcha das Vadias, uma certeza tinha em mente: estou fazendo parte
da História, sou um sujeito da História. Eu e outras pessoas que lá estavam,
Vadias com “V” maiúsculo; Vadias que vi quando tinham 13/14 anos de idade e
tiveram aulas de História comigo na 6ª, 7ª, 8ª série; Vadiazinhas, como chamei.
Vadios também. Pense numa felicidade, daquelas que só mães e pais devem sentir
quando veem que xs filhxs “deram pra gente de bem”, como minha mãe diz, ainda
hoje.
Carol, Alane, Diana e Marcelo
Iana, Diogo, Anne, Lais e Tauana
Outrxs que estão comigo este ano,
tratando de Sociologia e que dizem para mim, sem uma palavra proferida: “acredito
que posso mudar algo, que sou parte importante na transformação”, marcaram
presença e confirmaram a máxima do Velho Deitado que diz: “seja exemplo e
outrxs serão também”. Moema, Alane,
Marcelo, Diana, Diogo, Carol Burgos, Lais, essa postagem escrevo inspirado em vocês. Vocês injetaram
mais combustível revolucionário em minha mente. Vê-los reivindicando fim da
violência contra mulheres foi a certeza que estou no caminho certo, que
procurar viver de acordo com o que falo em sala de aula é o caminho, espinhoso
demais na maior parte das vezes, mas recompensador.
Passarei, é verdade, mas a
semente da Discórdia que plantei em vocês e noutrxs, seguirá.
Considerando a recente onda de manifestações de rua e
feicebuquianas sobre as declarações do deputado pastor Marco Feliciano e sua
manutenção na Comissão de Direitos Humanos e o que tenho ouvido e visto em minha prática
docente, decidi contribuir para o debate esclarecendo alguns pontos que dizem
respeito ao conhecimento histórico que está sendo utilizado em certas postagens
e discursos por aí.
A intenção não é defender ou acusar este ou aquele grupo,
mas esclarecer alguns elementos muito repetidos e que por estarem ligados ao
conhecimento histórico merecem um melhor tratamento. Vamos lá:
1. “A política nazista fez uma campanha de aceitação forçada
para o povo”. Ao utilizarem este argumento procuram defender que determinados
partidos políticos estão forçando a população a aceitar a homossexualidade.
CORREÇÃO: O que
Hitler fez não foi obra de um poder hipnótico macabro ou de uma máquina de
controlar mentes. Ele foi o catalisador e agregador de um sentimento
antissemita que grassava pela Europa ocidental desde o medievo. Com a crise
econômica de 1929 e a descrença no liberalismo após a Primeira Guerra Mundial e
sob a ameaça de crescimento do socialismo soviético, muitos apoiaram a ideia de
um Estado centralizador (negação da não-intervenção estatal do liberalismo
clássico) e garantidor da propriedade privada (negação do socialismo e sua
defesa da destruição da propriedade privada burguesa). Não há, por parte do
partido que está no poder, uma campanha de imposição de práticas homoafetivas, mas
sim a defesa delas poderem se expressar e garantir direitos jurídicos que lhes
são negados ainda que sobre esses grupos recaiam as mesmas obrigações da dita
“normalidade”.
2. “A história da sociedade ocidental é a história do homem
e da mulher”. Busca-se afirmar que a história da humanidade foi feita apenas pelos
homens e pelas mulheres, não tendo participação quem estava fora da
heterossexualidade monogâmica.
CORREÇÃO: A
história da sociedade ocidental é a história do que foi registrado por homens
que afirmavam e defendiam o modelo heterossexual, logo, registros de qualquer
ação fora desse modelo mal existem e quando existem, a maior parte, foi feito
com o olhar do padrão estabelecido. O silêncio, em história, diz muito sobre as
práticas sociais de outros tempos e espaços. Segue-se assim o exemplo cotidiano
de não falar sobre algo, sobre um problema, seja qual for, crendo que ele
deixará de existir. Citando o poeta Brecht:
O jovem Alexandre
conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os
gauleses.
Não levava sequer um
cozinheiro?
O silêncio sobre os cozinheiros no exército de César é prova
de que eles não existiram ou não participaram da conquista? Não. Manter essa
afirmação é incorrer em um erro histórico grave.
3. “Os nazistas faziam campanha nas escolas para doutrinarem
as crianças garantindo adeptos para as suas ideias e o Estado brasileiro quer
‘formar gays desde criancinha’ ao
distribuir kits abordando a temática em escolas”.
CORREÇÃO: O
Estado nazista implementava uma educação que buscava formar cidadãos preparados
para obedecer ao Fuehrer e as escolas valorizavam mais a ação do que a
reflexão. Incentivava-se, também, a negação do Outro, daquilo que não era
alemão, a denominada “raça ariana”. Uma observação mais cuidadosa dos chamados
“kits gays” garantirá o entendimento que o objetivo é combater atos de
violência verbal, física, simbólica contra as crianças e adolescentes que não
se enquadram no SUPOSTO comportamento correto. A afirmação que se quer fazer a
juventude crescer homossexual é fruto de desconhecimento do conteúdo do kit. O
Estado nazista não intentava formar pensadores e sim executores de ordens. O
objetivo do kit é possibilitar, desde a tenra idade, a percepção de que o mundo
não é meu umbigo ou minha forma de pensar e, PRINCIPALMENTE, DEIXAR VIVER
AQUELA/AQUELE QUE NÃO É MEU REFLEXO NO ESPELHO.
ALGUNS
ESCLARECIMENTOS:
O PLC – 122 (Projeto de Lei da Câmara) muito mencionado e
pouco lido e refletido, deve ser entendido de maneira mais ampla, histórica e
sociológica. A elaboração de lei é fruto de um contexto histórico ligado a
necessidades específicas, seja de uma pessoa, seja de uma coletividade. Vale
ressaltar que a maior parte das leis liga-se a necessidade de grupos que, ou
estão no comando ou pressionando quem está.
O PLC – 122 foi elaborado com o objetivo de ampliar a lei
7716/89. Esta lei criminaliza racismo, discriminação por PRECONCEITO RELIGIOSO
e XENOFOBIA. Atente para o fato de que a lei 7716/89 não é uma lei contra o
racismo, como se afirma muito por aí e que nela está inserida a criminalização
por PRECONCEITO RELIGIOSO, logo, não se estava garantindo direitos para uma
minoria em detrimento da maioria, como anda sendo afirmado.
Esse mesmo PLC – 122 abarca que a reação contrária, de
homossexuais discriminando heterossexuais também seja crime.
Deve-se considerar que o PLC – 122 não vai tornar crime o
pensamento preconceituoso. O que vai ser criminalizada é a discriminação. Exemplo:
posso pensar comigo que não gosto de duas mulheres se beijando no cinema, mas
se as expulso do cinema pois são duas MULHERES se beijando, então configura-se
a discriminação. A discriminação seria tornar ato aquilo que eu penso. Enquanto
penso, é preconceito, quando impeço alguém de usufruir de direito porque vai de
encontro ao que penso, estou discriminando.
Outro exemplo: se um sacerdote religioso adverte duas
mulheres que se beijam no pátio de seu templo porque é considerado
desrespeitoso QUALQUER BEIJO ENTRE CASAIS, então não há crime de homofobia. Contudo,
se o casal que se beija é advertido pois SÃO DUAS MULHERES/HOMENS E NÃO SE
ACEITA A DEMONSTRAÇÃO DE CARINHO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO, ENTÃO
CONFIGURA-SE HOMOFOBIA.
O que presenciamos hoje é uma mudança importante que a
sociedade marcada pela heterossexualidade monogâmica está passando. Assim como
olhamos para os registros de mulheres sendo queimadas sob acusação de bruxaria
na idade média europeia ocidental com perplexidade perante tamanha brutalidade,
as gerações posteriores poderão olhar para os registros desses momentos e
perguntar: como puderam ser tão intolerantes?
Baseado no Romance A Revolução dos Bichos, do escritor George Orwell, usa de fábula para criticar o que foi feito da Revolução Bolchevique de outubro de 1917.
Decidi escrever este texto movido por uma satisfação: tive
vários estudantes que decidiram cursar História. Comparado com outros anos, foi
um recorde: Ana Elisa, Lucas Duarte, Cassandra
Alves, Thais Cavalcanti, Valeska Ferreira, Ana Bonner... não tivera, em anos
anteriores, mentes decididas a serem historiadores e historiadoras. Os campeões
sempre foram Direito, Arquitetura e jornalismo. História sempre foi a segunda
opção.
Movido por tamanha satisfação, decidi escrever um texto, uma
carta, para esses e essas pupilas que durante o ano de 2012 auxiliei na
introdução ao pensamento histórico, ao raciocínio histórico. O primeiro passo
no caminho sem volta da inquietação, da indignação e, como disse várias vezes
em minhas aulas: da DISCÓRDIA.
Comecemos:
1. a faculdade de História não é e nem será composta apenas
por seres com incrível capacidade intelectual e percepção ampla o suficiente
para relacionar situações sociais, econômicas, culturais como parte de algo
maior que é a vida humana em sociedade. Você vai encontrar poucas pessoas com
tais características e ACREDITE, serão raras. A maior parte vai crer e defender
que uma coisa não se relaciona com a outra e, talvez pior, vai tentar isolar
explicações econômicas das culturais, das ideológicas e assim sucessivamente;
2. poucos dos veteranos leram os livros que citam. Muitos afirmarão
que segundo Fulano de Tal no livro Zal, a
percepção da vida social deve considerar a flexibilidade do ato proletário nos interstícios
das relações de poder em determinada conjuntura histórica... pffff! Desconfie
desses e, se puder, leia a obra citada, pois você vai se espantar com a
quantidade de “apropriações ilegais” que são realizadas a cada fala veterana. Por
que isso acontece? Possível resposta: impressiona gatinhos e gatinhas sedentas
por “verdadeiro conhecimento histórico”;
3. o curso de
História não é composto por maconheiros inveterados, usuários de todas as
drogas psicotrópicas que existam ou que acabem de inventar; nem é o santuário
das práticas sexuais desregradas, sado-masoquistas, pansexuais; tem usuários? Tem.
Tem libertários e libertárias sexuais? Sim, sim. São todos e todas? NÃO, NÃO
MESMO. São poucos e tem muita gente recatada por lá; isso é ruim? Não, pois
garante diversidades de modos de existir – o que é muito saudável considerando
que devemos respeitar toda forma de vida, quer concordemos com sua existência
ou não;
4. estudantes de História não são revolucionári@s engajad@s
contra qualquer forma de opressão, seja ela do capital, das diversas
religiosidades; muit@s serão, inclusive, bastante passivos diante das
desigualdades que grassam pelo mundo ao redor; motivo? Com pouca certeza,
afirmo que muitos devem crer que muda-se o mundo com as ideias e, estas,
criadas por alucinógenos encadernados em livros que mal foram lidos e colocados
em prática e, pior ainda, não foram problematizados;
5. não espere que suas aulas serão marcadas por intensos
debates, por confrontos de ideias pois elas não serão – NA MAIOR PARTE DAS VEZES; poucos serão @s professores e professoras que aceitarão o benefício da
dúvida, que ouvirão com paciência suas perguntas pouco amadurecidas (pelo menos
serão no início do curso e espera-se,
pelo bem da sociedade, que essa imaturidade seja superada) e te orientarão
sugerindo leituras profícuas para te fazer pensar fora da caixa; mas nem sempre o debate deixa de acontecer por
responsabilidade de mestres, muitas vezes os textos sugeridos não são lidos
prejudicando o andamento da aula. O que nos leva para o próximo tópico:
6. LEIA! LEIA! LEIA MAIS! LEIA MUITO MAIS! LEIA SEMPRE! LEIA
HOJE, LEIA AMANHÃ, LEIA ATÉ SE VOCÊ FOR ACOMETIDO DE CEGUEIRA (você pode
aprender braile ou escutar áudio livros). Me irrito muito quando vejo estudantes
de História se queixando de terem que ler um texto de dez páginas. Dá vontade
de agir feito o capitão de determinado filme e puxar o verme subterrâneo pelos
cabelos, esfregar sua face em um compêndio e dizer: FEZ VESTIBULAR PRA HISTÓRIA
PRA QUÊ? SE NÃO AGUENTA, PRA QUE VEIO?! PEDE PRA SAIR! PEDE PRA SAIR! “MULEQUE!”
“MULEQUE ANALFABETO!”
Costumava dizer, em minhas aulas, que só a História salva...
da mediocridade, da estupidez, da ignorância. Para tanto, a leitura,
compreensão e problematização (NESSA ORDEM) são pontos fulcrais.
7. por mais que você tenha lido muito, você não leu tudo,
logo não sabe de tudo. Baixe a cabeça e... vá ler mais e debater com outras
pessoas. Certa vez ouvi alguém dizer que quando um historiador quer cometer
suicídio ele pula de cima do próprio ego. Faz muito sentido. Conheci pessoas
que leram alguns livros – e nem leram bem – e começam a olhar outr@s que não
leram aqueles livros específicos como se fossem párias;
8. não tente impor seu modo de pensar pois ele não é a
perfeita representação da realidade. Pode até ser para você, mas não para
outras pessoas; quando alguém discorda do que você pensa, essa pessoa pode,
após o “conversê”, sair com você para ir ao cinema, dançar ou conversar sobre
coisas aleatórias pois para ter amizades que concordam com tudo que eu penso,
eu prefiro prosear com meu reflexo no espelho;
Poderia continuar listando, mas nunca terminaria essa
carta/texto/conversa, então concluo pedindo a tod@s que foram meus alunos e
alunas e especialmente para @s que estudaram no meu curso e ingressarem na
faculdade de História (ou qualquer outro curso - não excluo ninguém, mas, História é sempre
melhor – no meu entender):
DISCORDE.
Se viu que não está correto, DISCORDE.
DISCÓRDIA (que tanto falo em minhas aulas) é mais que
contrariar. É uma postura, uma atitude pautada no respeito ao próximo e na ação
para mudança. No falar quando há silêncio imposto, no se preocupar se o som que
você gosta não incomoda seu vizinho, no evitar cuspir na rua sem olhar se há
alguém que possa ser atingido.
DISCORDAR é remar contra a maré das homogeneizações, das
intolerâncias religiosas, das intolerâncias ateias, das criminalizações, das naturalizações
do que não natural.
DISCORDAR é PENSAR FORA DA CAIXA e isso nenhum curso, nenhum
professor vai te dar. Você tem que se forjar no cotidiano, sabendo que nem
sempre – e essa é a maior parte – sua ação vai ter resultado imediato, sua fala
vai ser compreendida.
DISCORDAR é PENSAR FORA DA CAIXA e TER HISTÓRIA NA CABEÇA
pode ajudar.
Conseguir isso é ser mais que Historiadores e Historiadoras,
é se tornar HISTORIADEUSES E HISTORIADEUSAS.
Dia 11 de janeiro cometeu suicídio (ou foi suicidado) Aaron Swartz, um dos mais importantes ativistas defensores do conhecimento livre na internet... Escrevo suicidado pois há suspeitas que ele não tenha cometido suicídio.
Aaron estava sendo processado por ter baixado mais de 4 milhões de documentos científicos e literários de uma plataforma que os liberava mediante pagamento.
Ele foi co-autor do sistema de feeds e defendeu o livre pensamento e o conhecimento livre.
Defendo a postura dele e reproduzo o MANIFESTO DA GUERRILHA PELO ACESSO LIVRE:
“Informação é poder. Mas, como todo o poder, há aqueles que querem mantê-lo para si mesmos. A herança inteira do mundo científico e cultural, publicada ao longo dos séculos em livros e revistas, é cada vez mais digitalizada e trancada por um punhado de corporações privadas. Quer ler os jornais apresentando os resultados mais famosos das ciências? Você vai precisar enviar enormes quantias para editoras como a Reed Elsevier.
Há aqueles que lutam para mudar esta situação. O Movimento Open Access tem lutado bravamente para garantir que os cientistas não assinem seus direitos autorais por aí, mas, em vez disso, assegura que o seu trabalho é publicado na internet, sob termos que permitem o acesso a qualquer um. Mas mesmo nos melhores cenários, o trabalho deles só será aplicado a coisas publicadas no futuro. Tudo até agora terá sido perdido.
Esse é um preço muito alto a pagar. Obrigar pesquisadores a pagar para ler o trabalho dos seus colegas? Digitalizar bibliotecas inteiras mas apenas permitindo que o pessoal da Google possa lê-las? Fornecer artigos científicos para aqueles em universidades de elite do Primeiro Mundo, mas não para as crianças no Sul Global? Isso é escandaloso e inaceitável.
“Eu concordo”, muitos dizem, “mas o que podemos fazer? As empresas que detêm direitos autorais fazem uma enorme quantidade de dinheiro com a cobrança pelo acesso, e é perfeitamente legal – não há nada que possamos fazer para detê-los. Mas há algo que podemos, algo que já está sendo feito: podemos contra-atacar.
Aqueles com acesso a esses recursos – estudantes, bibliotecários, cientistas – a vocês foi dado um privilégio. Vocês começam a se alimentar nesse banquete de conhecimento, enquanto o resto do mundo está bloqueado. Mas vocês não precisam – na verdade, moralmente, não podem – manter este privilégio para vocês mesmos. Vocês têm um dever de compartilhar isso com o mundo. E vocês têm que negociar senhas com colegas, preencher pedidos de download para amigos.
Enquanto isso, aqueles que foram bloqueados não estão em pé de braços cruzados. Vocês vêm se esgueirando através de buracos e escalado cercas, libertando as informações trancadas pelos editores e as compartilhando com seus amigos.
Mas toda essa ação se passa no escuro, num escondido subsolo. É chamada de roubo ou pirataria, como se compartilhar uma riqueza de conhecimentos fosse o equivalente moral a saquear um navio e assassinar sua tripulação. Mas compartilhar não é imoral – é um imperativo moral. Apenas aqueles cegos pela ganância iriam negar a deixar um amigo fazer uma cópia.
Grandes corporações, é claro, estão cegas pela ganância. As leis sob as quais elas operam exigem isso – seus acionistas iriam se revoltar por qualquer coisinha. E os políticos que eles têm comprado por trás aprovam leis dando-lhes o poder exclusivo de decidir quem pode fazer cópias.
Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz e, na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública.
Precisamos levar informação, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas cópias e compartilhá-la com o mundo. Precisamos levar material que está protegido por direitos autorais e adicioná-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web. Precisamos baixar revistas científicas e subi-las para redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pela Guerilha Open Access.
Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado. Você vai se juntar a nós?
Aaron Swartz
Julho de 2008, Eremo, Itália.
P.s: Agradecimentos ao Andre Deak pelos conselhos na parte final da tradução – que, aliás, não é nem pretende ser definitiva, mas apenas uma contribuição para a divulgação do texto.
O que você faria se só te restasse um
dia? E fosse este dia?
Estas perguntas aparecem em uma canção
do Paulinho Moska que foi bastante escutada nos anos 1990 e tema de abertura de
uma telenovela. Mas, mais do que entreter, a canção traz a tona um dos assuntos
que mais inquietam o ser humano: o fim do mundo. O medo do fim de tudo toma
proporções cada vez maiores neste século, com direito a ondas gigantescas,
tremores de terra avassaladores e usinas atômicas atingidas pela "fúria da
natureza".
O fim de tudo aparece em religiões, o fim está no cinema, o fim é cantado em
mais de uma dezena de versos. E quem não acreditou que era o fim quando foi
demitid@? E quando @ namorad@ foi embora? Parece que toda a existência é
completamente obliterada em situações como estas.
Em busca de reduzir danos, a espécie humana fez – e continua fazendo –
previsões. Antever o futuro, o que está por vir foi a saída encontrada para
lidar com a contingência, o acaso, a incerteza. Buscando a certeza, a
continuidade, tentando aplacar a insegurança foram criados sistemas de previsão
complexos que não são inteligíveis a uma primeira olhada até técnicas que podem
garantir caminhos seguros através da análise das linhas das mãos e das formas
que aparecem na borra do café depositado no fundo da xícara.
Zodíaco, linhas das mãos, búzios, tarô. Tais manifestações da necessidade
humana de controlar o acaso estão no nosso cotidiano. Os jornais têm uma seção
que elenca a previsão do dia para indivíduos deste ou daquele signo. Na
internet pode-se fazer uma consulta ao tarô. E, no lado oposto, estão os que afirmam
que só Deus sabe o que o futuro reserva a cada um. Todos esses exemplos provam
que o temor do amanhã incerto e a busca por segurança são dois lados da mesma
moeda.
O medo do fim do mundo representa em uma escala global um temor que é também
local. Mais que local é pessoal. Tememos a morte. E o fim de uma vida não é
apenas o fim de um indivíduo. É também todo um mundo que deixa de existir com
ele.
E em 2012 o temor do fim de tudo volta mais forte. Segundo alguns acreditam, em
21 de dezembro tudo será extinto. A partir de uma leitura de uma profecia maia
e com o apoio de filmes catástrofe, propagou-se, mais uma vez, a ideia da
proximidade do fim.
A partir de uma leitura mística, aquele calendário tornou-se pop e, principalmente,
a após os anos 1990 ficou mais forte tal ideia.
E no Brasil a temática do fim do mundo está presente em livros, telenovelas e
canções. No caso desta última, podemos escutar desde sambas até rock’n roll.
Carmem Miranda pode ser a primeira, cantando uma composição de Assis
Valente, E o mundo não se acabou, que, de maneira bem humorada
mostra as ações de alguém que ouviu anunciarem que o mundo ia se acabar:
Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar...
Beijei a bôca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou...
Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...
Chamei um gajo
Com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele
Mais de quinhentão...
Agora eu soube
Que o gajo anda
Dizendo coisa
Que não se passou
E, vai ter barulho
E vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou...
Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar...
Beijei a bôca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou...
Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar...
O Maluco Beleza, Raul Seixas, também
tratou do tema em As profecias:
Tem dias que a gente se sente
Um pouco, talvez, menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar, carregado sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho em silêncio calado
Com uma pergunta na alma
Por que nessa tarde tão calma
O tempo parece parado?
Está em qualquer profecia
Dos sábios que viram o futuro,
Dos loucos que escrevem no muro.
Das teias do sonho remoto
Estouro, explosão, maremoto.
A chama da guerra acesa,
A fome sentada na mesa.
O copo com álcool no bar,
O anjo surgindo no mar.
Os selos de fogo, o eclipse,
Os símbolos do apocalipse.
Os séculos de Nostradamus,
A fuga geral dos ciganos.
Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia.
Um gosto azedo na boca,
A moça que sonha, a louca.
O homem que quer mas se esquece,
O mundo dá ou do desce.
Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia.
Sem fogo, sem sangue, sem ás
O mundo dos nossos ancestrais.
Acaba sem guerra mortais
Sem glorias de Mártir ferido
Sem um estrondo, mas com um gemido.
Os selos de fogo, o eclipse
Os símbolo do apocalipse
A fuga geral do ciganos
Os séculos de Nostradamus.
Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia
Um dia...
Sim, sim, sim...
Em Canção Agalopada, Zé
Ramalho descreve um cenário tão medonho quanto o de Raul Seixas:
Foi um tempo que o tempo não esquece
Que os trovões eram roncos de se ouvir
Todo o céu começou a se abrir
Numa fenda de fogo que aparece
O poeta inicia sua prece
Ponteando em cordas e lamentos
Escrevendo seus novos mandamentos
Na fronteira de um mundo alucinado
Cavalgando em martelo agalopado
E viajando com loucos pensamentos
Sete botas pisaram no telhado
Sete léguas comeram-se assim
Sete quedas de lava e de marfim
Sete copos de sangue derramado
Sete facas de fio amolado
Sete olhos atentos encerrei
Sete vezes eu me ajoelhei
Na presença de um ser iluminado
Como um cego fiquei tão ofuscado
Ante o brilho dos olhos que olhei
Pode ser que ninguém me compreenda
Quando digo que sou visionário
Pode a bíblia ser um dicionário
Pode tudo ser uma refazenda
Mas a mente talvez não me atenda
Se eu quiser novamente retornar
Para o mundo de leis me obrigar
A lutar pelo erro do engano
Eu prefiro um galope soberano
À loucura do mundo me entregar
Eduardo Dussek, considerado um dos
primeiros showman do Brasil intitulou Nostradamus uma
de suas canções que tratam do tema do fim do mundo:
Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei
Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei
Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"
De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!
O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"
E mais recentemente foi exibida uma
telenovela intitulada O fim do mundo que teve como tema de
abertura a canção O último dia, de Paulinho Moska:
Meu amor
O que você faria se só te restasse um
dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia
Meu amor
O que você faria se só te restasse um
dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse
dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria
Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha
Meu amor
O que você faria?
O que você faria?
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse
dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse
dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...
Se o mundo vai acabar neste 21 de dezembro de 2012 ou em outra data, não sabemos.
Mas tenha certeza que essa ideia não é tão nova que cause tanta surpresa nem
tão velha que não desperte interesses.