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ARTIGOS

terça-feira, 20 de novembro de 2012

NEGR@S: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE NÓS QUE QUEREMOS QUE SEJAM LEMBRADAS TODOS OS DIAS


20 DE NOVEMBRO, dia da consciência negra. Eventos por todo o país lembram a morte do líder do quilombo dos Palmares, Zumbi. Por séculos essa data sequer foi lembrada e somente após muita reivindicação dos grupos afrodescendentes é que foi estabelecida oficialmente. 

Costuma-se realizar shows com artistas consagrados, são feitas manifestações em praças, a imprensa noticia e muita gente felicita negros e negras por essa data. Considero importante e tão importante é que vale a pena lembrar alguns pontos:

1. NÃO SOMOS DESCENDENTES DE ESCRAVOS: somos descendentes de africanos que foram  escravizados. Escravo não é espécie, não existem escravos machos e escravas fêmeas que acasalaram e originaram escravinhos, nascidos biologicamente determinados a “servir” outras pessoas; ESCRAVO É CONDIÇÃO IMPOSTA E NÃO ESPÉCIE;

2. MEU CABELO NÃO É RUIM: não matou ninguém, não bateu em crianças, não torturou. É MEU CABELO, É BOM PARA MIM. O SEU CABELO É SEU E POR ISSO É BOM PARA VOCÊ. Afirmar que meu cabelo, diferente do seu, é ruim, é manter o discurso histórico de valorização do padrão estético europeu. Esse discurso negou e nega a afirmação de beleza e identidade afro-brasileira. Como compôs Chico César: RESPEITEM MEUS CABELOS, BRANCOS;

3. NÃO SOU UM SAMBISTA DE NASCENÇA: nem dançarino natural, nem corredor de maratona e muito menos jogador de futebol desde o interior do útero de minha mãe. Se há destaques afro-brasileiros nessas áreas isso merece uma observação: há falta de investimentos noutras áreas, o que limita participação “ao que está mais perto” da realidade dos que se destacaram na música, na corrida, no futebol. Estenda escolas de qualidade para a população negra, possibilite acesso ao conhecimento científico e forme cientistas e assim sucessivamente em outras vertentes do saber e do fazer humanos;

4. ERRAR É HUMANO: quando erro, o fiz por não saber e não porque sou negro; frases como “viu o que ele fez? Também, só podia ser negro”, são carregadas de visão estereotipada, arrogante e depreciadora; quando se afirma dessa maneira, pode-se entender que quando um negro erra, é porque ele é naturalmente é um “errador”. Quando acertamos não se diz “acertou pois é negro”. Entendeu o caminho do discurso que legitima preconceitos,   estereótipos?

5. POSSO ME VESTIR DO JEITO QUE EU QUISER: se uso roupas coloridas, sem cor, saias curtas, blusas decotadas é porque EU QUERO USAR. Afirmar: “ela/ele se veste desse jeito porque é negr@” recai no que foi escrito acima; colorida ou sem cor, é roupa. NÃO EXISTE ROUPA DE NEGRO E NEM ROUPA DE BRANCO; É TUDO ROUPA. Posso usar roupas que meus ancestrais usaram, posso usar roupas que estadunidenses vendem – ainda que pouco propícias ao clima do local que vivo; o faço pois vivo em sociedade e não porque sou negr@;

6. NÃO SOU PRECONCEITUOSO COMIGO MESMO OU RACISTA COM OUTRAS PESSOAS NEGRAS: se há negr@s que fazem comentários racistas, o fazem como fruto da sociedade que foi gerada durante séculos de escravidão e que construiu a negação do ser negr@ associando muita coisa ruim a palavra NEGRO (abra o dicionário nesta e tire suas conclusões), logo, é mais difícil querer ser identificado com coisas ruins, não é?

7. USAR UMA CAMISA COM O TEXTO 100% NEGRO, NÃO É RACISMO: acompanhe o raciocínio: afirmar-se 100 % negr@ é posicionar-se tendo como objetivo tornar positivo algo que foi secularmente taxado de negativo. É mais possível uma pessoa negr@ não ter conseguido emprego, ter sido a única revistada por policiais em um coletivo porque era negra do que porque era branca. Esse mesmo raciocínio pode ser estendido para mulheres e homossexuais.

8. EXU NÃO É O DIABO, OXALÁ NÃO É JESUS: o Mal não foi criado pelos africanos com suas diversas religiões, até porque, se você desligar o botão do preconceito e do medo, implantado em sua mente pela tradição judaico-cristã, conhecerá religiões com características bastante humanitárias. Acreditar no que sacerdotes, que afirmam terem participado dessas religiões, falam, sem procurar saber, é se privar de algo que, segundo a tradição judaico-cristão, nos diferencia de outros animais: o livre-arbítrio. Há charlatões em todos grupos religiosos, então não fale da sujeira da casa alheia se a sua tem lixo no quintal;

9. MEU PÊNIS NÃO É GIGANTESCO E NEM MINHA VAGINA É MAIS QUENTE PORQUE SOU NEGR@: tradicionalmente se afirmou que homens negros/afrodescendentes são mais “bem dotados” que os outros. Ainda que supostas pesquisas científicas afirmem que a média dos homens negros tenha o órgão sexual maior que os homens brancos, existem homens brancos (e não devem ser poucos) com pênis grandes também.
                Muitas mulheres não negras transam tão bem quanto mulheres negras; esse discurso é tão introjetado que quando homens conversam sobre alguma mulher com quem estão saindo ou simplesmente vai passando na rua, dizem: “tô saindo com uma ‘nega’ boa danada”, ou “olha ali, que ‘nega’ gostosa”, e usam para se referir a mulheres brancas. Talvez você agora pense que é exagero. Não é exagero, não. As visões preconceituosas foram tão repetidas que se naturalizaram e não percebemos o sentido implícito  do que falamos e/ou pensamos;

Concluindo: NÃO SOU DESCENDENTE DE ESCRAVO; MEU CABELO NÃO É RUIM; NÃO TENHO QUE SABER SAMBAR, DANÇAR, JOGAR FUTEBOL OU SER EXÍMIO CORREDOR; USO ROUPAS COLORIDAS - OU NÃO - PORQUE EU QUERO; ERRO PORQUE SOU HUMANO E TODOS HUMANOS PODEM ERRAR; NÃO SOU UM HOMEM TRIPÉ OU MULHER COM VAGINA FLAMEJANTE... SOU HUMANO COMO VOCÊ, QUE LÊ ESTE TEXTO, E TENHO DIREITO AO RESPEITO E A RECLAMAR QUANDO SOU MALTRATADO.

Consciência negra não é só para negr@s. É consciência para tod@s que são excluíd@s nessa sociedade e que sendo negr@s padecem mais cruelmente ao som do ainda vivo discurso da democracia racial.

Mais do que falar sobre o que acontece temos que agir para mudar e essa mudança pode começar parando de contar piadas sobre negr@s, sorrir quando alguém conta e nos posicionarmos contra qualquer ato discriminatório, contra qualquer pessoa, independente da aparência, sexualidade, poder aquisitivo, origem, credo religioso ou ateísmo. Aí sim, serão desnecessários dias da Consciência Negra, das Mulheres, dos Índios...

PENSE FORA DA CAIXA

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA

sábado, 17 de novembro de 2012

OS SOCIALISMOS


Kropotkin, Marx e Bakunin
Ao tratar das revoluções que aconteceram no século XX é crucial entender  o conjunto de ideias que sustentou ideologicamente a maioria desses movimentos. As teorias socialistas ou socialismos.
         Os socialistas utópicos têm como principais representantes, na França, Saint-Simon, Charles Fourier, Pierre-Joseph Proudhon, Louis Blanc e Auguste Blanqui. Na Grã-Bretanha, Robert Owen é o nome de maior destaque.
         Os socialistas utópicos não destacam a oposição proletariado X burguesia. Eles defendem a reforma, a conciliação para a redução das desigualdades. Foi o caso de Saint-Simon, que defendeu uma sociedade administrada por todos: operários, banqueiros, sábios. Fourier, por sua vez, defendeu a criação de falanstérios, que agregariam de 1200 a 5000 pessoas e tentou conseguir financiadores para o seu projeto.
         Caminhos mais incisivos de crítica ao capitalismo foram abertos por Proudhon, para quem a propriedade é um roubo. Ele defendeu a igualdade e a liberdade criticando o individualismo burguês. Foi considerado o pai de todos os socialistas e precursor do anarquismo.
          Socialismo Científico. Seus principais representantes foram Karl Marx (imagem ao lado) e Friedrich Engels. Suas ideias foram elaboradas no contexto de exploração do trabalhador, de um lado e, de outro, um maior domínio do ser humano sobre a natureza, o progresso, a produção em massa de mercadorias.
         Os socialistas científicos explicam a História através do materialismo histórico, teoria que defende que a existência humana é caracterizada pela forma com a qual reproduz suas condições, ou seja, através do trabalho, dos fatos materiais. A base econômica – a infraestrutura – é o primeiro nível de sustentação de uma sociedade, é como o ser humano se relaciona com a natureza, com outros indivíduos, e estes se dividindo entre proprietários e não-proprietários.
         A superestrutura – o 2º nível – é constituído pelo Estado, pelo Direito, pela religião, leis, educação, literatura...
         No momento em que percebe as contradições da sociedade, o ser humano pode agir sobre aquilo que existe e o influencia e determina, segundo Marx.
         Anarquismo. Mais do que uma teoria, alguns entendem o anarquismo como um movimento, uma vez que, no âmbito teórico desconfia das teorias, que podem descambar para o dogmatismo dos partidos políticos, que podem exercer controle político.
         Os anarquistas criticavam o Estado por entenderem que este representava os interesses dos proprietários. A pergunta é: como seria, então, a organização social? E a resposta dos anarquistas foi a seguinte: comunidades autogovernadas. Nestas não existiria autoridade, a descentralização política com participação direta de todos na tomada de decisões garantiria o bem estar geral. Seriam formadas federações de ação nacional e internacional, garantindo-se a democracia direta. Delegados teriam mandato temporário, apenas para defender as opiniões de sua comunidade de origem. Os anarquistas mais lembrados foram Bakunin, Kropotkin.
         Tais ideias foram formuladas nos idos do século XIX e, com devidas adaptações aos contextos que toda ideia passa, influenciaram os revolucionários que atuaram contra estruturas opressoras. Estruturas agrárias, industrializadas ou em processo de industrialização foram questionadas e ruíram dando lugar a experiências socialistas que inflamaram paixões e mudaram a vida de centenas de pessoas.
         Ao pensar sobre as experiências socialistas do século XX devemos considerar o momento de sua organização, os fatores que influenciaram sua formação e, não menos importante, a dimensão humana de seus líderes e apoiadores. Pensar dessa forma contribuirá para uma reflexão mais acurada sobre as desigualdades contemporâneas e evitará idealizações ou satanizações que todas as causas geram.

Pense fora da caixa.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sobre o Dia de Professoras e Professores


Dia 15 de outubro é uma data especial para muita gente. Dia do professor. Chovem felicitações, desabam elogios, enchentes de agradecimentos afogam os perfis na rede e antes dela, cartões bonitinhos, com corações e outros mimos.
                Entretanto, deve ser um dia para reflexão, tanto de professores e professoras quanto de estudantes e todos que estejam envolvidos no complexo processo de ensino-aprendizagem.
                Ser professor não é um dom. Ser professor não é sacerdócio. Ser professor não é ser pobre. Explico.
                As atividades ligadas ao magistério precisam de técnica. Expressão oral pode ser aperfeiçoada, cursos de oratória ajudam a desenvolver a capacidade de comunicação que todo ser humano possui. Falar em público não é pra todo mundo (se fosse não existiriam cursos para isso). Dom de falar todos têm, ser ouvido e entendido é outra coisa.
                Preparar aulas não é ler um texto, escrever no quadro ou passar um filme. Planejamento requer domínio de conteúdo, reflexão sobre a melhor maneira de abordar temáticas e capacidade de refletir sobre a própria prática e o resultado do que foi feito em sala de aula.
                Professores passam horas da vida estudando, lendo livros, fazendo resumos, debatendo com colegas para serem vistos como mercenários quando cobram aumento de salários ou valores considerados altos para aulas particulares. É investimento, não gasto.
                Reportagens em primeira página de jornal: CENTENAS DE ESTUDANTES SÃO PREJUDICADOS PELA GREVE. E em seguida as declarações:

- meu  filho vai ter o aprendizado prejudicado.
- Logo agora que já está no último semestre da faculdade...

Interessante, pois são os mesmos pais que desrespeitam professores quando os filhos fantásticos batem em colegas, perturbam a aula e até agridem o professor. Ou a clássica nota baixa e a frase que eu escuto muito:

- meu filho ficou em recuperação em História (em algumas escolas, Sociologia)! Como pode, professor Salviano?

                Simples, dona Fulana: ele não estudou, não entregou uma atividade, sequer fora do prazo e ainda não prestava atenção na aula, mais interessado no facebook, instagram e outras inovações tecnológicas.
                Não se questiona o seguinte: é a educação dos filhos que está em jogo. Baixa remuneração, escolas precárias e somos responsáveis pela miséria do mundo.
                Não senhora, não passei e passo horas estudando para ser palhaço para seus filhos sorrirem. Essas leituras enviesadas de Paulo Freire (pouco lido de verdade e muito falado),e de supostos educadores como Gabriel Chalita e os outros que provavelmente não passaram ou passaram pouco tempo em sala de aula não são válidas para tratar de minha prática.
                Pedagogias do afeto, do amor são muito bonitas. Filmes como Sociedade dos Poetas Mortos, Clube do Imperador, O Triunfo são muito belos mas esvaziam a discussão real sobre o papel do professor em uma estrutura que valoriza mais o que é técnico do que reflexivo. Parece que somos feitos apenas de amor, carinho ou excentricidade.
                Não quero afirmar que todos somos perfeitos. Longe disso. Existem professores e professores assim como médicos e médicos.
                Costumo dizer aos meus estudantes em cursos pré-vestibulares e no meu curso particular:

- quer ser médico? Vá ser médico!
- quer ser desembargador? Vá ser desembargador! Não curse Biologia e se torne professor porque não passou em Medicina, ou História pois foi reprovado no vestibular para Direito. O MUNDO NÃO PRECISA DE MAIS PROFISSIONAIS FRUSTRADOS!
                A condição é essa: muito trabalho, pouco resultado imediato, riscos de vida. Se acredita que vai aguentar, siga adiante. Se pensou que ia conseguir e se surpreendeu negativamente, SAIA DA SALA DE AULA. OU REIVINDIQUE. MAS NÃO QUEIME COLEGAS DE TRABALHO QUE ACREDITAM NO QUE FAZEM E FAZEM EM PROL DA COLETIVIDADE. O que temos hoje foi fruto de outros professores que não temeram avançar.
                Se sua vida como professor não te agrada, saia dela. É o que fazemos com estação de rádio quando não toca a música que queremos ouvir. Mas não desanime estudantes que te perguntam se é bom ser professor. Exponha as condições e contradições. Não temos direito algum de dizer para jovens que nosso ofício é péssimo e, estranhamente, ainda estamos nele.
                Agradeço todos e todas que foram meus estudantes, o reconhecimento de vocês é muito bom, mas ficarei mais feliz se puder encontra-los atuando de maneira mais incisiva sobre a sociedade, apoiando mudanças, contra as formas diversas de injustiça que trajam  pele de cordeiro com discursos de liberdade.
                Quero estudantes que me questionem. DISCÓRDIA é o termo que uso em minhas aulas para definir a prática do ano letivo. Respeito todos e todas que discordarem do que digo. Se me contradigo, cito Walt Whitman: Contenho multidões.
                Quero estudantes responsáveis, que entreguem atividades no prazo, respeitem os colegas de sala, sejam honestos e não filem, pois como podemos questionar, com legitimidade, os desmandos de nossos políticos se em nosso microuniverso também transgredimos? Estendendo tais comportamentos para outras áreas da vida, além da escola, terão feito a diferença.
                Pode parecer desabafo, pode parecer fúria. É tudo e nada disso. Pois no dia 15 de outubro desabam elogios, beijos e abraços e eu gosto muito de tudo isso, mas precisamos pensar mais profundamente. E AGIR.
                Para mim, Salviano Feitoza, professor de História, o dia 15 representa dia de reinvenção, de negação do que está dado como pronto. 
                     É PENSAR FORA DA CAIXA. 
                     
                     É TER HISTÓRIA NA  CABEÇA.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

EZTETYKA DA FOME - Glauber Rocha


Leia abaixo o texto do manifesto escrito por Glauber Rocha



“Dispensando  a  introdução  informativa  que  se  transformou  na característica geral das discussões sobre América Latina, prefiro situar as reações  entre  nossa  cultura  e  a  cultura  civilizada  em  termos  menos reduzidos  do  que  aqueles  que,  também,  caracterizam  a  análise  do observador  europeu.  Assim,  enquanto  a  América  Latina  lamenta  suas misérias  gerais,  o  interlocutor  estrangeiro  cultiva  o  sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino.”

Eis - fundamentalmente - a situação das Artes no Brasil diante do mundo:  até  hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais  que  vulgarizam  problemas  sociais)  conseguiram  se  comunicar  em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos  limites  da  Arte  mas  contaminam  o  terreno  geral do  político.  Para  o observador  europeu,  os  processos  de  criação  artística  do  mundo subsesenvolvido só o interessam na medida em que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista.

A  América  Latina  permanece  colônia  e  o  que  diferencia  o colonialismo  de  ontem  do  atual  é  apenas  a  forma  mais  aprimorada  do colonizador: e além dos colonizadores de fato, as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros botes. O problema internacional da AL é ainda  um  caso  de  mudança  de  colonizadores,  sendo  que  uma  libertação possível estará ainda por muito tempo em função de uma nova dependência.

Este condicionamento econômico e político nos levou ao raquitismo filosófico e à impotência, que às vezes inconsciente, às vezes não, geram no primeiro caso, a esterilidade e no segundo a histeria.

A  esterilidade:  aquelas  obras  encontradas  fartamente  em  nossas artes,  onde  o  autor  se  castra  de  exercícios  formais que,  todavia,  não atingem  a  plena  possessão  de  suas  formas.  O  sonho  frustrado  da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente.

Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos; livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes (que, sobretudo em São Paulo,  provocaram  inclusive  falências)...  O  mundo  oficial  encarregado  das artes  gerou  exposições  carnavalescas  em  vários  festivais  e  bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de  Letras  e  Artes,  júris  de  pintura  e  marchas  culturais  pelo  país  afora. Monstruosidades  universitárias:  as  famosas  revistas  literárias,  os concursos, os títulos.

A Histeria: Um capítulo mais complexo. A indignação social provoca discursos  flamejantes.  O  primeiro  sintoma  é  o  anarquismo  que  marca  a poesia jovem até hoje (e a pintura). O segundo é uma redução política da arte  que  faz  má  política  por  excesso  de  sectarismo. O  terceiro,  e  mais eficaz, é a procura de uma sistematização para a arte popular. Mas o engano
de  tudo  isso  é  que  nosso  possível  equilíbrio  não  resulta  de  um  corpo orgânico,  mas  de  um  titânico  e  autodevastador  esforço  de  superar  a impotência:  e  no  resultado  desta  operação  a  forceps,  nós  nos  vemos frustrados,  apenas  nos  limites  inferiores  do  colonizador:  e  se  ele  nos compreende,  então,  não  é  pela  lucidez  de  nosso  diálogo,  mas  pelo humanitarismo  que  nossa  informação  lhe  inspira.  Mais  uma  vez  o paternalismo é o método de compreensão para uma linguagem de lágrimas ou de sofrimento.

A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é a nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.

De Aruanda  a  Vidas  Secas,  o  Cinema  Novo  narrou,  descreveu, poetizou,  discursou,  analisou,  excitou  os  temas  da  fome:  personagens comendo  terra,  personagens  comendo  raízes,  personagens  roubando  para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens  sujas,  feias,  descarnadas,  morando  em  casas  sujas,  feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o
miserabilismo  tão  condenado  pelo  Governo,  pela  crítica  a  serviço  dos interesses antinacionais, pelos produtores e pelo público - este último não suportando  as  imagens  da  própria  miséria.  Este  miserabilismo  do  Cinema Novo  opõe-se  à  tendência  do  digestivo,  preconizada pelo  crítico-mor  da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em  carros  de  luxo:  filmes  alegres,  cômicos,  rápidos,  sem  mensagem,  de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como  se,  na  estufa  e  nos  apartamentos  de  luxo,  os  cineastas  pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil, ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que  está  enraizada  na  própria  incivilização.  Como  se,  sobretudo,  neste aparato de paisagens tropicais, pudesse ser disfarçada a indigência mental dos cineastas que fazem este tipo de filme. O que fez do Cinema Novo um fenômeno  de  importância  internacional  foi  justamente  seu  alto  nível  de compromisso  com  a  verdade;  foi  seu  próprio  miserabilismo,  que,  antes escrito pela literatura de 30, foi agora fotografado pelo cinema de 60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político. Os próprios estágios do miserabilismo em nosso cinema são internamente evolutivos. Assim, como observa Gustavo Dahl, vai desde o fenomenológico  (Porto  das  Caixas ),  ao  Social  (Vidas  Secas ),  ao  político (Deus e o Diabo), ao poético (Ganga Zumba), ao demagógico (Cinco Vezes Favela), ao experimental (Sol Sobre a Lama), ao documental (Garrincha, Alegria  do  Povo),  à  comédia  (Os  Mendigos),  experiências  em  vários sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas compondo, no final de  três  anos,  um  quadro  histórico  que,  não  por  acaso,  vai  caracterizar o período  Jânio-Jango:  o  período  das  grandes  crises  de  consciência  e  de rebeldia, de agitação e revolução que culminou no Golpe de Abril. E foi a partir  de  abril  que  a  tese  do  cinema  digestivo  ganhou  peso  no  Brasil, ameaçando, sistematicamente, o Cinema Novo.
                                                
Nós  compreendemos  esta  fome  que  o  europeu  e  o  brasileiro  na maioria  não  entende.  Para  o  europeu  é  um  estranho  surrealismo  tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós - que  fizemos  estes  filmes  feios  e  tristes,  estes  filmes  gritados  e
desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto - que a fome não será  curada  pelos  planejamentos  de  gabinete  e  que  os  remendos  do technicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura  da  fome,  minando  suas  próprias  estruturas,  pode  superar-se qualitativamente: a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência.
A  mendicância,  tradição  que  se  implantou  com  a  redentora  piedade colonialista,  tem  sido  uma  das  causadoras  de  mistificação  política  e  de ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de  construir  casas  sem  dar  trabalho,  de  ensinar  ofício  sem  ensinar  o analfabeto.  A  diplomacia  pede,  os  economistas  pedem,  a  política  pede:  o Cinema  Novo,  no  campo  internacional,  nada  pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em vinte e dois festivais internacionais.

Pelo  Cinema  Novo:  o  comportamento  exato  de  um  faminto  é  a violência,  e  a  violência  de  um  faminto  não  é  primitivismo.  Fabiano  é primitivo? Antão é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva?

Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva e revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para o francês perceber um argelino.

De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador. O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação.

O  Cinema  Novo,  por  isto,  não  fez  melodramas:  as  mulheres  do Cinema Novo sempre foram seres em busca de uma saída possível para o amor, dada a impossibilidade de amar com fome: a mulher protótipo, a de Porto das Caixas, mata o marido, a Dandara de Ganga Zumba foge da guerra para  um  amor  romântico;  Sinhá  Vitória sonha  com  novos tempos  para  os filhos,  Rosa  vai  ao  crime  para  salvar  Manuel e  amá-lo  em  outras circunstâncias; a  moça do padre precisa romper a batina para ganhar um novo homem; a mulher de O Desafio rompe com o amante porque prefere ficar  fiel  ao  seu  mundo  burguês;  a  mulher  em São  Paulo  S.A.  quer  a segurança do amor pequeno-burguês e para isso tentará reduzir a vida do marido a um sistema medíocre.

Já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava explicar-se para existir:  o  Cinema  Novo  necessita  processar-se  para  que  se  explique  à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome.

O  Cinema  Novo  não  pode  desenvolver-se  efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano; além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos colonizados  e  não  uma  entidade  privilegiada  do  Brasil:  onde  houver  um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos  da  censura,  aí  haverá  um  germe  vivo  do  Cinema  Novo.  Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração.

A  integração  econômica  e  industrial  do  Cinema  Novo depende  da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome  de  si  próprio,  de  seus  mais  próximos  e  dispersos  integrantes,  dos  mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão de moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na Filosofia: não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público, a consciência de sua própria existência.

Não  temos,  por  isto,  maiores  pontos  de  contato  com o  cinema mundial. O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes da sua existência.

FIM

domingo, 23 de setembro de 2012

De crias, parideiras e mantenedores

Certa vez presenciei uma cena enquanto esperava em um banco de shopping center: uma senhora, sentada no banco atrás, com a filha, comentava sobre uma menina, acredito que pré-adolescente, que usava roupas pretas e atravessava a entrada do estabelecimento:

- olha, que coisa mais feia! Cabelo todo pintado de rosa! Hahahahahahaha... é muito feia, mesmo. “Dermilivre” pintar meu cabelo assim.

                Não pude deixar de olhar para a mulher e prestar atenção na reação da filha, que devia ter dez ou doze anos de idade. Sorria também. Fiquei chateado, pois era a mãe da menina, referencial (provável) de autoridade quem estava caçoando. Pensei que daquele jeito a menina cresceria com todas as possibilidades de se tornar desrespeitosa, intolerante com o que não fosse espelho.
                Foi quando ouvi a menina chamando a atenção da mãe:

- Olha, mãe! Que menina gorda mais feia! Hahahahaha...
- Eita, menina, é mesmo! Hahahahaha...

                Naquela hora pensei: “que bom! Parabéns para a senhora! Já era imbecil e agora tem uma filha imbecilzinha. A senhora deve se orgulhar! Destruiu sua filha! Agora ela é tão estúpida quanto a senhora e vai viver mais para superar sua imbecilidade!”
                Logo em seguida ela olhou para mim com aquele olhar “raio x”. Sabem como é um olhar desses, não sabem? Dos pés até a cabeça num movimento de globo ocular ligeiro de cima abaixo. Claro com foco no meu cabelo afro-poder-preto-estiloso-que-só eu. A mãe deu aquela cotovelada sutil como uma arrevoada de hipopótamos, a menina olhou. Acreditando que estava sendo discreta, deu uma risadinha. Eu fiquei olhando para elas. Com cara de nada, conhecida como cara de paisagem. Talvez meu olhar dissesse muito da minha irritação pois elas sorriram para mim aquele sorriso amarelo, sem graça, do tipo: “disfarça, que ele tá olhando pra cá”.
                Levantei do banco e flagrei as duas gesticulando com as mãos acima da cabeça fazendo o formato do meu cabelo afro-poder-preto-estiloso-que-só eu. Não tem como não se sentir triste pela menina e irritado com a mãe. Ela, que teoricamente deveria educar a filha no caminho do respeito, incitava o escárnio e a intolerância.
                Pensei, como o falecido (infelizmente) psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa:

"Dizem que os pais não orientam os filhos, mas quem orientou esses ignorantes? Metade dos pais brasileiros são alcoólatras crônicos, têm quantos filhos quiserem, um exemplo doméstico mortífero, horrível. A família é muito falada, elogiada e em nada cuidada". (in: http://palavrasdogaiarsa.blogspot.com.br/search/label/Fam%C3%ADlia)
               
                Pais que não foram orientados não orientam as crias. Uso o termo crias pois é o que esses pais estão colocando no mundo: crias, seres que viverão, provavelmente, como animais um pouco mais “organizados” que um cão, um gato ou outro bicho considerado irracional.
                Enquanto professor de História posso afirmar com a suposta autoridade de quem lida com crias (filhos e filhas), parideiras (mães) e mantenedores (pais): a maior parte dos problemas escolares teria solução simples com educação doméstica. Não falo do adestrar para dizer bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado, por favor. Falo da educação para ser e estar no mundo ligando-se e ligado à coletividade.
                Muitas vezes converso com estudantes sobre coisas que pais poderiam orientar. Muitas vezes, sem notar, estudantes deixam escapar um “valeu, pai”, ficam com vergonha e pedem desculpas. Eu sorrio e digo para relaxar.
                Entendo que dá trabalho trabalhar (foi proposital a repetição) e gerir uma casa e educar crias (filhos). Mas, como afirma a troça carnavalesca olindense: “se não aguenta, pra que veio?”. Provavelmente alguém pode pensar que é fácil escrever isso, mas não é mole ser pai ou mãe quando não se planejou. Respondo assim: “assuma sua parte. Você transou sem preservativo. Gozou gostoso? Pronto, agora vem o retorno. E se o preservativo estourou, aí sim veio a contingência  que não tira a responsabilidade sobre a cria”.
                Pode soar enfadonha a repetição, mas educação e só educação pode salvar. Mesmo quando o ensino público é precário (assunto de outra postagem, em breve) o que se tem em casa é referencial importante.
                Não sei se a mulher ou a filha lerão estas linhas, mas ficarei feliz se tiverem algum efeito pelo menos em quem lê-las fazendo-as saírem do status de parideira e mantenedor.
                Pensar para coletividade é ter HISTÓRIA NA CABEÇA.

sábado, 19 de maio de 2012

Política - 1

POLÍTICA, palavra de origem grega que deriva de polis, cidade, ou seja, atividade que é realizada na cidade. Entretanto, hoje em dia, política, no Brasil, é palavra que carrega negatividade, é sinônimo de corrupção e roubalheira. Trataremos de política.
         No mundo ocidental foram os gregos e os romanos que inventaram o poder político, pois separaram público e privado, ou seja, impediram que fosse mantida a identificação entre o governante e o poder político, o que caracterizava a vida política anterior. Também separaram autoridade mágico-religiosa do poder terreno. Os dirigentes buscavam a aprovação dos deuses bem como sua proteção; com aqueles o Estado passou a deter o monopólio da violência – a vingança e o poder de fazer justiça foram institucionalizados. Foram os criadores do espaço público e privado.
         A marca da política era o fato das decisões terem que ser conhecidas por todos. A marca do poder despótico era o segredo. Era uma importante transformação que se configurava.
         Na periodização tradicional, a idade média caracterizou-se politicamente por grande influência da religião judaico-cristã e sua principal representante: a Igreja católica. Nesse sentido, para esta instituição, o poder político ou teológico-político estava pautado pela crença de que o poder pertence a Deus e este estava representado no rei. Caracterizava-se, assim, um pacto de submissão.
         Tal pacto estabelecia que o rei estava acima da lei, não tinha que cumpri-la por ser a fonte da mesma e ainda legitimava a hierarquia social afirmando que foi Deus que a criou assim, estando o rei e o papa no topo da pirâmide representando os poderes temporal e religioso, respectivamente. Em tal percepção de política a vida espiritual era superior a temporal.
         É na modernidade que a concepção de política é radicalmente transformada: mudanças sociais, econômicas, religiosas, culturais somam-se às transformações políticas gerando o Estado moderno e com ele o absolutismo.
         Nicolau Maquiavel foi um dos nomes mais importantes do período. Defendeu entendimentos muito diferentes do Medievo: a política é resultado das ações sociais movidas por interesses específicos e não é oriunda de Deus ou da Razão; as comunidades existem e são mantidas a partir de disputas engendradas pelos políticos e não para garantir o bem comum; o governo deve ser pautado na capacidade do governante de tomar e manter o poder, logo, matar, roubar, enganar são atitudes que o príncipe deve estar preparado para tomar – quando necessário, assim, o príncipe virtuoso é aquele que é capaz de agir em qualquer situação, ser flexível às mudanças, “aos caprichos da Fortuna”.
         Tais ideias contribuíram para o surgimento do maquiavelismo, do ser maquiavélico. O maquiavelismo é caracterizado por frieza de raciocínio, por ação com objetivos concretos e que devem ser realizados a qualquer custo. É ação nos bastidores, é manipulação. Tudo que a sociedade considera maligno. Leve em consideração, entretanto, que o que Maquiavel fez foi abordar a política sem disfarces religiosos, morais ou naturais. Política é simplesmente política.
         Outros autores como Thomas Hobbes deram contribuições especiais acerca da política e que abordarei noutra postagem.
         Na chamada transição para o capitalismo, ou para a história contemporânea, as ideias liberais apareceram com importantes concepções políticas. Autores como John Locke e J.J Rousseau investiram pesado contra o Estado moderno e tudo que o legitimava. Surgia uma nova concepção de contrato social: aquele que atende aos interesses do povo.
         Para Locke, o Estado existe a partir do contrato social e tem como função garantir segurança e bem-estar para todos (aqui se assemelha a Hobbes) mas sua principal finalidade é garantir a propriedade privada, uma vez que esta é um direito natural. A função do Estado, sendo garantir a propriedade, deixa qual papel para o governante?
         Deve, o governante, garantir a liberdade para as atividades econômicas (não intervenção na economia), deve julgar os conflitos que ocorram na sociedade e deve, também, garantir o livre pensamento, não censurar a menos que o faça com objetivo de salvaguardar o Estado. É a partir desse ideário que será aperfeiçoada e debatida a noção de democracia ou democracias.
         As democracias são entendidas da seguinte forma:
                   a. representativa/indireta ou liberal: o povo elege seus representantes e garante liberdades individuais e políticas (sufrágio universal, eleições livres);
                   b. direta: as decisões são tomadas a partir de assembleias públicas;
                   c. semidireta: ocorrem plebiscitos;
                   d. participativa/deliberativa: com formas de controle dos recursos públicos.


Mais do que satanizar a política e os políticos brasileiros, devemos questionar profundamente a estrutura que legitima o que acontece, entendendo como funciona, os motivos de funcionar dessa maneira e pensar sobre o que queremos. Essa primeira postagem, através desse curto panorama histórico, tem esse objetivo.


Passe adiante. PENSE FORA DA CAIXA.


Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Qual a idade da maioridade?

UM DOS PAPÉIS do Estado é a integração dos indivíduos na sociedade. Tal integração ocorre através de políticas sociais e, no caso da infância, a intervenção tem como objetivo reduzir a delinquência e a criminalidade.
                Um dos documentos mais importantes do Brasil, nesse âmbito, é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Suscitando polêmicas e debates, o ECA é o que de mais avançado foi criado no Brasil em relação a leis sobre a infância e a adolescência. Entretanto, até a sua elaboração, em 1990, a sobrevivência de jovens e criança foi muito difícil e mesmo com a ele não houve grandes transformações.
                Abordaremos a situação de crianças carentes no período republicano brasileiro e algumas das políticas públicas direcionadas para aquelas.
                Com a proclamação da república, em 15/11/1889, o que se esperava não ocorreu: um regime democrático, garantias individuais não saíram do papel. Para jovens e crianças, um cotidiano de crueldades e violências. Estas muitas vezes ocorriam no próprio seio familiar. Escolas, fábricas, confrontos entre gangues e contra a polícia demonstram a violência vivenciada no dia-a-dia. O Estado brasileiro passou a atuar para atender as novas prioridades sociais. Situações como as descritas no livro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, contribuíram para a crença de que famílias desestruturadas eram responsáveis pela geração de ativistas políticos, criminosos, ambos um perigo para o Estado.
                No início do século XX, muitos imigrantes italianos e espanhóis chegaram ao Brasil com o objetivo de trabalhar na lavoura cafeeira – no início – e nos centros urbanos – posteriormente. Esses imigrantes foram os primeiros a denunciar a exploração que sofriam e foram os pioneiros a tratar da utilização da mão de obra infantil nas fábricas. A repressão do Estado se fez presente contra tais agitadores. Estes exigiam o cumprimento do decreto nº 13.113, de 17/1/1891, que vetava o trabalho infantil em máquinas em movimento e faxinas.
                Em 1923, o decreto nº 16.272, de 20/12/1923, estabeleceu que o menor que corresse risco de perversão, abandono, etc., deve ser encaminhado para casa de educação, asilo até os 21 anos, ou ainda poderia ser entregue a alguém para cuidá-lo.
        Em 1927, com o decreto nº 17.343/A, o Estado assumiu a responsabilidade sobre os menores em situações de abandono e afins. Criado foi Código de menores, que inclusive regulamentou o trabalho infantil.
                Todavia, apenas com a Carta Magna de 1934 é foi proibido o emprego de menores sem ordem judicial. Instituiu que a educação é direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelo Estado. O objetivo também era desenvolver, além do sentimento de nacionalidade, a consciência da solidariedade humana. Era o artigo 149.
                A constituição de 1937 estabeleceu a fundação de instituições públicas de ensino em todos os graus.
                Em 1946 a constituição retomou o princípio da educação como direito de todos e a constituição de 1967, em seu artigo 168, adicionava  ao direito de todos o princípio da unidade nacional.
               Com o retorno da vida democrática, em 1988, a carta magna reafirmou a educação como direito de todos e devendo ser promovida pelo Estado com a colaboração da sociedade. Também buscou encerrar o estigma pobre-delinquente. Em 1990, o ECA iniciou uma fase diferente das políticas públicas para as crianças carentes. Estas, mais os adolescentes foram tornados prioridades do Estado. Foi criado o Conselho Tutelar, que deve  zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente (art. 131).
                O ECA busca evitar o internamento como punição e encontra a barreira histórica da tradição encarceradora do judiciário brasileiro, numa atitude que não poderia ser mais contrária ao Estatuto.
                Pode-se concluir que o Estado brasileiro foi assumindo gradativamente a responsabilidade sobre adolescentes e crianças carentes. A partir desse assumimento vem a tona a discussão acerca da maioridade penal.

QUAL É A IDADE DA MAIORIDADE?
O Brasil entende maioridade como o momento em que o jovem completa 18 anos, idade em que geralmente é concluído o nível médio de escolaridade. Essa definição foi feita em 1921, mas, antes, no período imperial, a responsabilidade penal era aos 14 anos. Na República, antes dos anos 1920, podiam-se condenar jovens de 9 a 14 anos quando a intencionalidade do crime fosse evidente.
                Nesse ambiente de discussão, os que defendem a redução da idade penal argumentam que a quantidade de informações que os jovens têm acesso possibilita o discernimento do que é certo e errado, responsabilizando-os pelos atos cometidos contra outrem. Aprisionar mais pessoas, em algumas cidades como Nova Iorque, São Paulo e Bogotá levou à queda nos índices de homicídio. Não seria o caso de aprisionar mais jovens?
                Os que criticam chamam a atenção para o fato de que informação não garante maturidade e que, biologicamente, por não ter o córtex frontal totalmente formado, o jovem não tem condições de desenvolver sentimentos afetivos. Informação que deve ser levada em consideração nos debates. A impunidade, no caso do Brasil, meio que dá conforto a qualquer “criminoso”. Os críticos afirmam, ainda que colocar adolescentes e crianças em penitenciárias é o mesmo que matriculá-las em “universidades” do crime, já que as prisões brasileiras não cumprem o papel original de “ressocialização”.
                O que fazer, então?

terça-feira, 8 de maio de 2012

Carta aberta do grupo ANONYMOUS

Quando foi anunciado recentemente que a OTAN havia conseguido prender membros do grupo Anonymous, eles publicaram uma carta aberta. 

Assunto bastante polêmico, a ação do grupo ganhou destaque, principalmente, após o fechamento do site de compartilhamento de arquivos Megaupload.

Leia a carta. Assista ao vídeo. Pense fora da caixa.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA.

“Em uma recente publicação, vocês destacaram o Anonymous como ameaça ao ‘governo e ao povo’. Vocês também alegaram que sigilo é ‘um mal necessário’ e que transparência nem sempre é o caminho certo a seguir.
O Anonymous gostaria de lembrá-los que o governo e o povo são, ao contrário do que dizem os supostos fundamentos da ‘democracia’, entidades distintas com objetivos e desejos conflitantes, às vezes. A posição do Anonymous é a de que, quando há um conflito de interesses entre o governo e as pessoas, é a vontade do povo que deve prevalecer.  A única ameaça que a transparência oferece aos governos é a ameaça da capacidade de os governos agirem de uma forma que as pessoas discordariam, sem ter que arcar com as consequências democráticas e a responsabilização por tal comportamento.
Seu próprio relatório cita um perfeito exemplo disso, o ataque do Anonymous à HBGary (empresa de tecnologia ligada ao governo norte-americano). Se a HBGary estava agindo em nome da segurança ou do ganho militar é irrelevante – suas ações foram ilegais e moralmente repreensíveis. O Anonymous não aceita que o governo e/ou  os militares tenham o direito de estar acima da lei e de usar o falso clichê da ‘segurança nacional’ para justificar atividades ilegais e enganosas. Se o governo deve quebrar as leis, ele deve também estar disposto a aceitar as consequências democráticas disso nas urnas. Nós não aceitamos o atual status quo em que um governo pode contar uma história para o povo e outra em particular. Desonestidade e sigilo comprometem completamente o conceito de auto governo. Como as pessoas podem julgar em quem votar se elas não estiverem completamente conscientes de quais políticas os políticos estão realmente seguindo?
Quando um governo é eleito, ele se diz ‘representante’ da nação que governa. Isso significa, essencialmente, que as ações de um governo não são as ações das pessoas do governo, mas que são ações tomadas em nome de cada cidadão daquele país. É inaceitável uma situação em que as pessoas estão, em muitos casos, totalmente não cientes do que está sendo dito e feito em seu nome – por trás de portas fechadas.
Anonymous e Wikileaks são entidades distintas. As ações do Anonymous não tiveram ajuda nem foram requisitadas pelo WikiLeaks. No entanto, Anonymous e WikiLeaks compartilham um atributo comum: eles não são uma ameaça a organização alguma – a menos que tal organização esteja fazendo alguma coisa errada e tentando fugir dela.
Nós não desejamos ameaçar o jeito de viver de ninguém. Nós não desejamos ditar nada a ninguém. Nós não desejamos aterrorizar qualquer nação.
Nós apenas queremos tirar o poder investido e dá-lo de volta ao povo – que, em uma democracia, nunca deveria ter perdido isso, em primeiro lugar.
O governo faz a lei. Isso não dá a eles o direito de violá-las. Se o governo não estava fazendo nada clandestinamente ou ilegal, não haveria nada ‘embaraçoso’ sobre as revelações do WikiLeaks, nem deveria haver um escândalo vindo da HBGary. Os escândalos resultantes não foram um resultado das revelações do Anonymous ou  do WikiLeaks, eles foram um resultado do conteúdo dessas revelações. E a responsabilidade pelo conteúdo deve recair somente na porta dos políticos que, como qualquer entidade corrupta, ingenuinamente acreditam que estão acima da lei e que não seriam pegos.
Muitos comentários do governo e das empresas estão sendo dedicados a “como eles podem evitar tais vazamentos no futuro”. Tais recomendações vão desde melhorar a segurança, até baixar os níveis de autorização de acesso a informações; desde de penas mais duras para os denunciantes, até a censura à imprensa.
Nossa mensagem é simples: não mintam para o povo e vocês não terão que se preocupar sobre suas mentiras serem expostas. Não façam acordos corruptos que vocês não terão que se preocupar sobre sua corrupção sendo desnudada. Não violem as regras e vocês não terão que se preocupar com os apuros que enfrentarão por causa disso.
Não tentem consertar suas duas caras escondendo uma delas. Em vez disso, tentem ter só um rosto – um honesto, aberto e democrático.
Vocês sabem que vocês não nos temem porque somos uma ameaça para a sociedade. Vocês nos temem porque nós somos uma ameaça à hierarquia estabelecida. O Anonymous vem provando nos últimos que uma hierarquia não é necessária para se atingir o progresso – talvez o que vocês realmente temam em nós seja a percepção de sua própria irrelevância em uma era em que a dependência em vocês foi superada. Seu verdadeiro terror não está em um coletivo de ativistas, mas no fato de que vocês e tudo aquilo que vocês defendem, pelas mudanças e pelo avanço da tecnologia, são, agora, necessidades excedentes.
Finalmente, não cometam o erro de desafiar o Anonymous. Não cometam o erro de acreditar que vocês podem cortar a cabeça de uma cobra decapitada. Se você corta uma cabeça da Hidra, dez outras cabeças irão crescer em seu lugar. Se você cortar um Anon, dez outros irão se juntar a nós  por pura raiva de vocês atropelarem que se coloca contra vocês.
Sua única chance de enfrentar o movimento que une todos nós é aceitá-lo. Esse não é mais o seu mundo. É nosso mundo – o mundo do povo.
Somos o Anonymous.
Somos uma legião.
Não perdoamos.
Não esquecemos.
Esperem por nós…”



sábado, 5 de maio de 2012

RESUMO - UNIÃO IBÉRICA E PERÍODO HOLANDÊS

Quando D. Sebastião, rei de Portugal, viajou para Alcácer-Quibir, no Norte da África para combater os árabes, deixou o reino luso sem um herdeiro que pudesse assumir o trono caso ele viesse a morrer em combate. Essa situação alarmava a Corte portuguesa e quando o rei veio a desaparecer no campo de batalha a situação parecia descambar para uma crise sucessória. Contudo, o cardeal D. Henrique,  tio-avô de D.Sebastião, assume o trono adiando o estourar da crise. Mas, em 1580, o cardeal também falece e desta vez o trono português estava sem regente. Instala-se uma disputa entre D. Antonio, prior do Crato, Catarina de Médicis, que se dizia descendente de Afonso III, a duquesa de Bragança, D. Catarina, neta de D. Manuel e Filipe II, rei da Espanha e neto de D. Manuel . Sabendo da disputa que se instalaria após sua morte, o cardeal deixou em seu testamento que os juízes da corte decidissem qual dos candidatos detinha mais direitos. O prior do Crato apoiado pelo povo marcha sobre Lisboa, porém, não tinha apoio dos magistrados nem dos nobres.

Ao mesmo tempo, Filipe II ordena às tropas espanholas que invadam Portugal. Conseguindo resultados positivos Filipe II parte para a negociação de sua subida ao trono e compra parte da elite para que ela aceite a união das coroas ibéricas. Em 1581 ocorre a legalização de seu governo nas chamadas Cortes de Tomar. A partir daí entra para a História a famosa frase proferida pelo agora rei de Portugal e Espanha: Herdei-o, comprei-o e conquistei-o .
A partir dessa união, Filipe II passa a comandar o maior império da Idade Moderna e o primeiro no qual o sol não se punha. Vale salientar que, administrativamente, as Américas agora anexadas mantiveram-se independentes e comerciantes espanhóis estavam proibidos de atuarem na parte portuguesa do Império e vice-versa. Entre outras atitudes tomadas por Filipe II destacam-se:
-          o exercício do governo português por vice-reis;
-          comércio colonial sob monopólio português;
-          a manutenção do idioma português nas regiões colonizadas por Portugal e no próprio reino;
-          a manutenção da moeda portuguesa.

Filipe II morre em 1598 e o trono das coroas ibéricas passa para Filipe III  (em Portugal, Filipe II). Este não exerceu o poder de forma centralizadora, o que favoreceu o aparecimento de crises internas. Esse governo durou até 1621, seguido pelo de Filipe IV (Filipe III, em Portugal), marcado por uma forte crise econômica de um lado e pela ostentação do clero e da nobreza do outro.

Finalmente, em 1640, na região da Catalunha, estoura uma revolta que envolve a França, gerando uma crise entre os dois países. Portugal aproveita esse momento e se rebela contra a dominação espanhola. É a Restauração, que colocará no trono português o duque de Bragança como D. João IV e estabelecerá a dinastia de Bragança. Encerrava-se, assim, a União Ibérica.

UNIÃO IBÉRICA: CONSEQUÊNCIAS PARA O BRASIL
A Invasão Holandesa
Quando Portugal é anexado pela Espanha, realizava um lucrativo comércio com as Províncias Unidas dos Países Baixos – a futura Holanda – porém, esta era colônia espanhola e passava por um processo de independência. Como era de se esperar, a contenda entre espanhóis e holandeses findaria por atingir os domínios ultramarinos portugueses. Os embargos comerciais estabelecidos por Filipe II contra os Países  Baixos e seu comércio com a península e o império ibérico deflagraram as hostilidades holandesas.
A guerra colonial entre as duas potências teve início com ataques contra as ilhas de São Tomé e Príncipe em 1598-9. A partir daí estendeu-se para as posses portuguesas uma vez que estas localizavam-se em costas marítimas expostas mais fáceis de se atacar que o México e o Peru – vice-reinos espanhóis – voltados para o interior.

Com a fundação da Companhia das Índias Ocidentais os interesses dos holandeses voltaram-se para a posse mais rica e cobiçada dos portugueses: o Brasil com sua produção de açúcar. É que, com a proibição do comércio entre Portugal e Holanda, esta ficou sem poder realizar o transporte, refino e comercialização, na Europa, do chamado ouro branco. Como muitos engenhos brasileiros tinham sido montados com capital holandês, aqueles não ficaram nada satisfeitos com o embargo e decidiram dominar o maior centro produtor mundial de açúcar do mundo da época: o Nordeste brasileiro.

A primeira investida holandesa ao Nordeste brasileiro ocorreu em 1624, na Bahia. Foram utilizados nada menos que trinta navios bem armados que bombardearam violentamente Salvador, levando a população a se refugiar no interior e resistir através da guerra de guerrilhas. No ano seguinte, porém, uma armada de 52 navios e mais de doze mil homens foi enviada para expulsar os invasores, façanha realizada com sucesso, mas que não quer dizer que os holandeses desistiriam de seu intento.

Holandeses em Pernambuco
Após a derrota na Bahia, os holandeses dedicaram-se a arquitetar uma forma de invadir Pernambuco, mais rica mas também menos protegida das capitanias produtoras de açúcar.

Em 1630, após providencial saque de um carregamento de prata que se dirigia à Espanha, a
Companhia das Índias Ocidentais inicia sua incursão em Pernambuco. A resistência luso-brasileira foi valorosa, porém, os invasores contaram com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, um pequeno proprietário de engenho da região, o  que possibilitou a consolidação do domínio holandês na capitania. A tomada de territórios foi gradativa: Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Mathias de Albuquerque, governador de Pernambuco, conseguiu retomar Porto Calvo em 1635, onde prendeu Calabar e o executou por crime de alta traição.

Em 1636, em Mata Redonda, os holandeses impuseram violenta derrota ao exército enviado pela Espanha e consolidaram, assim seu domínio sobre as terras portuguesas.

Agora os holandeses só necessitavam de um administrador e é então que entra em cena o conde Johan Maurits (Maurício) de Nassau.

O Governo de Nassau
Nassau sabia que não deveria governar de forma autoritária pois os holandeses, ainda que vencedores, estavam em menor número e suas atitudes não podiam ir de encontro com, por exemplo, as crenças religiosas da população luso-brasileira. Ora, a Europa da época passava pelas chamadas guerras religiosas entre os protestantes e católicos e não seria prudente impor o credo calvinista a uma população católica e em número bem maior. A solução era a tolerância religiosa: os católicos, os judeus tiveram liberdade para realizarem seus cultos sem nenhuma proibição.
Mauricio de Nassau

A necessidade de exploração da lavoura açucareira levou Nassau a realizar acordos de empréstimos para reconstrução dos engenhos. Essa política não denota que o conde fosse bonzinho, é que ele necessitava reconstruir as plantações, destruídas durante a invasão para poder auferir os lucros que tanto interessavam à Companhia das Índias Ocidentais. Eis, resumidamente, uma lista das ações do conde:

-          consolidação do domínio militar holandês;
-          reconstrução de Olinda, devastada pela guerra;
-          estabelecimento de Recife como centro administrativo da capitania;

Enquanto não entrasse em conflito religioso nem cobrasse as dívidas dos senhores de engenho, Nassau garantia sua estada por tempo indeterminado em Pernambuco. Humanista que era, trouxe cientistas, pintores que deixaram  obras artísticas de fundamental importância para conhecer o Brasil colonial.

A Insurreição Pernambucana
Em 1640, ascende ao trono português a Dinastia de Bragança, dando um fim à União Ibérica. Portugal, agora independente e financeiramente arrasado, necessitava reconquistar suas antigas posses coloniais e o Brasil figurava em suas prioridades. Para tanto, partiu para a ofensiva. Era o momento de retomar o que era seu de direito.

Do outro lado, a Companhia das Índias Ocidentais passou a exigir de Nassau uma maior cobrança em cima dos devedores. O conde discordava dessa política de cobrança e findou por ser afastado do governo da capitania. Em seu lugar assumem três responsáveis que tomam uma série de atitudes que descontentam os luso-brasileiros: cobrança das dívidas dos senhores de engenho, proibição da realização de cultos católicos, confisco, cobrança de altos impostos.

O movimento insurrecional teve início no Maranhão, espalhando-se em seguida pelo território dominado. Em Pernambuco, a liderança ficou por conta de senhores de engenho como João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. Tomaram parte na luta o negro Henrique Dias e o índio Felipe Camarão.

A primeira vitória das forças rebeldes ocorreu no Monte das Tabocas em 1645. Em 1648 outra vitória, agora no Monte Guararapes, onde, em menor número, os luso-brasileiros impuseram mais uma derrota ao invasores holandeses.

Externamente a Holanda enfrentava grave crise pois havia entrado em conflito com a Inglaterra, que também estava interessada em tirar proveito do lucrativo comércio ultramarino.
Em 1654, os holandeses foram finalmente expulsos da capitania de Pernambuco com o apoio de reforços enviados por Portugal. Porém, o perigo de outra invasão holandesa só foi definitivamente afastado em 1661, com a assinatura do Tratado de Paz de Haia, mediado pela Inglaterra e que estabelecia que Portugal deveria pagar uma indenização à Holanda e ceder as ilhas Molucas e do Ceilão.

Conseqüências da expulsão dos holandeses
Ao saírem do Brasil, os holandeses, aproveitando a experiência adquirida, instalam lavouras açucareiras nas Ilhas Antilhas e passam a concorrer com o açúcar brasileiro. A situação se complica com a introdução no mercado do açúcar de beterraba produzido na Europa com uma qualidade superior ao  produzido na colônia portuguesa.

Todos esses fatores contribuem para a decadência da produção brasileira, demonstrando que o trinômio monocultura, trabalho escravo e latifúndio adotado aqui pelos colonizadores portugueses era bastante frágil.

Cumpre salientar que a produção apenas entrou em decadência e não se extinguiu, mantendo-se até hoje em algumas regiões do Nordeste brasileiro.